Pré-visualização gratuita 1️⃣ "A REJEIÇÃO"
TALON BLACKTHORN
Hoje era para ser um dia excepcional, meu aniversário, a festa era perfeita, meus amigos da faculdade, minha família, repórteres por todos os lados, bebidas a vontade, era pra mim estar curtindo, sendo desejado pelas lobas da alcatéia, saindo com uma ou duas, não nessa merda.
Não gosto de cerimônias.
Muito menos das que envolvem meu sangue, minha linhagem e essa maldita superstição de predestinação, não sou predestinado a ninguém, sou apenas um lobo alfa que quer liderar o clã e curtir as vezes.
Mas hoje é meu aniversário de vinte e cinco anos, o dia em que, segundo as leis da Alcatéia e das Tradições da Lua, eu deveria aceitar meu lugar como Alfa sucessor do Clã Blackthorn.
Preferia estar em uma reunião de negócios, controlando os bilhões que crescem nas contas da empresa, ou acelerando meu Aston Martin pelas colinas de Dareth, mas não, estou aqui, de pé, vestido como um figurante de filme medieval, rodeado por anciões que fedem a terra molhada e fumaça de ervas.
Todos olhando para mim com devoção, como se eu fosse Deus, eu até gosto disto, mas não do que está por vir, ser destinado a uma loba, não quero, não ainda.
— O sucessor se aproxima da Lua da Verdade — diz o Mestre do Rito, com voz rouca e solene.
— Que os espíritos dos Primeiros Lupinos testem sua alma.
Sim, testem, como se alguém pudesse medir meu valor.
Eu nasci para liderar, eu sou Talon Blackthorn, filho único de Alaric, Alfa absoluto desta alcatéia. Meu sangue é antigo, meu nome é temido em três continentes. A Forbes me chama de o magnata invisível, o mundo humano me obedece, l mundo sobrenatural, teme.
O fogo do círculo de pedra crepita quando piso no centro, meu coração está calmo, meu lobo inquieto, sim, mas isso sempre acontece na Lua da Verdade. Não é novidade.
Mas então, ela aparece.
A dor.
Começa como uma fisgada na nuca, um calor que sobe pelas vértebras, meu lobo empurra contra a minha pele.
Os olhos queimam. O cheiro muda no ar. Um perfume doce, feito mel e madeira queimada.
Não, não pode ser, ela não está aqui, não ela.
Meus olhos encontram os dela.
Ela é pequena, pele pálida, olhos de noite nublada, cabelos castanho-claros presos num coque m*l feito, olhos azuis tão brilhantes que parecem diamantes, vestida como quem não pertence a lugar algum.
Elara Whitmoor.
A rejeitada,a ômega que não se transforma, a aberração sem lobo, a pobre que vive nos limites da floresta, com roupas de segunda mão e cheiro de terra.
A única omega da alcatéia, que vive nos montes, num chalé escondido na floresta, nunca a vi, só ouvi dizer, que ela é uma das raras ômegas do mundo, mas que não servia pra nada, não se transforma, por isso foi deixada em paz pelos governantes, que tratam ômegas como moeda de troca, como preciosidades, as únicas que engravidam, que foram abençoadas pela deusa da Lua, com o dom de ter filhotes, menos essa, que é inútil.
Meus punhos se cerram, meu corpo inteiro reage a ela, cada parte de mim grita para tocá-la, marcá-la, tomá-la.
É instinto biológico.
O Vínculo Predestinado.
— Não… — murmuro pra mim mesmo.
Elara dá um passo hesitante, como se tivesse medo até de respirar.
Ela sente, tmbém sente, o chamado, o vínculo.
— Você… é… — ela tenta dizer, mas a voz falha.
— Não. — Rosno, meu lobo uiva dentro de mim, mas eu o calo, eu sou o Alfa, eu comando, não sou comandado.
Ela se aproxima mais um passo, e eu dou outro para trás.
— Você é meu predestinado, Talon.
A frase sai tão frágil, tão suja de fé, que quase me dá nojo, não sou nada dela, nem de ninguém.
— Isso é um erro. — Cuspo as palavras. — A Lua enlouqueceu. Você não é nada.
Os anciões murmuram, o círculo se agita, meu pai me observa com olhos duros.
— Eu sou uma ômega… mesmo que… mesmo que não me transforme… — ela tenta insistir.
— E por isso mesmo nunca será minha, você não tem lobo, Elara, você não pertence ao meu mundo, você é fraca, pobre, vergonhosa, você só serviria para ter filhotes, é o seu destino e de todas as ômegas, dar filhotes a alfas, mas você não tem lobo, o que ofereceria a um alfa como eu, nada.
Ela empalidece, seu queixo treme, mas seus olhos… aqueles olhos úmidos… não se desviam.
— Eu… senti você — ela sussurra.
— Que bom. Agora sinta o gosto da rejeição.
Viro as costas.
Sinto a dor me perfurar o estômago, ocoração, meu lobo uiva de raiva dentro de mim.
Mas o ignoro, não vou me ajoelhar a uma mulher sem lobo.
Não vou arruinar meu legado por uma aberração da natureza.
O silêncio atrás de mim pesa como o ar antes da tempestade.
Mas eu sigo andando, ignorando a vertigem que começa a subir.
O destino me odeia. E hoje eu o odeio de volta.
A festa no salão da mansão corria solta, me junto a eles ignorando os anciões, meu pai, que trata essa história de predestinado como se fosse a coisa mais importante do mundo, todos furiosos.
Sei que vou ouvir amanhã, vou ser repreendido, vai falar que dei as costas pra Deusa, que nosso clã vai ser castigado, aquele papo de sempre.
Amanhã eu escuto, hoje vou apenas ignorar e curtir, como se não tivesse amanhã, e esquecer que a Deusa me fez de palhaço, me designando aquela garota como predestinada, uma loba sem lobo, que inútil.
Talon Blackthorn, não vai ser destinado a ela.
— Vem,Talon?
Ava me chama, ela é uma beta gostosa, me alivia quando não estou com outra, mas não sei porque ainda sinto o cheiro de Elara em mim, aquele cheiro doce, que perturba qualquer sentido, mas assim são as ômegas, feitas para dar prazer ao alfa, apenas isso, e aquela ali, nem isso.
— Que bom que recusou a esquisita.
— Não fala disto. — pego a bebida de sua mão e tomo — Vamos curtir meu aniversário.