O tesouro do mafioso.

998 Palavras
CAPÍTULO UM. .... C I R I U S: O escritório do meu pai sempre cheirou a poder antigo. Couro, madeira escura, charuto caro e silêncio. Um silêncio pesado, construído para lembrar a quem entrasse ali que nada naquela casa era conquistado sem sangue. As janelas iam do chão ao teto, mas quase nunca eram abertas. Meu pai gostava da sensação de controle. Até o ar precisava obedecer. Estava de pé, como sempre, mãos no bolso esperando o momento certo que ele resolvesse falar. Claus ocupava uma das poltronas, espalhado nela como se fosse dono de tudo. Meu pai, Domenico, permanecia atrás da mesa. Imóvel. Os dedos entrelaçados. O olhar avaliando, calculando, escolhendo qual de nós dois seria mais útil naquele momento. — Vou ser direto, porque esperei de mais por esse momento. A cerimônia desta temporada foi confirmada. ele disse, por fim. A voz grave, firme, sem emoção. Claro, tinha que ser isso. A grande feira de alianças, aquilo era só uma desculpa pra conquistar mais poder sem precisar das guerras por território. Garotas dadas como aliança de poder e paz entre as famílias da cúpula. Uma grande pirâmide, manda quem pode, obedece quem tem juízo ou amor a vida que leva. — As mulheres da La Domus Obedientia estão retornando. Claus sorriu antes mesmo de ouvir o resto. — Já estava na hora. comentou, preguiçoso. — Cinco anos é tempo demais para deixar alianças esperando. Meu pai ignorou o tom. — É uma boa oportunidade para unir famílias. Fortalecer casas. Um homem formado, ligado a uma família da cúpula… ele fez uma pausa curta. — traz poder e a gente não pode errar nas escolhas, essa é nossa chance de crescer nossa casa. Permaneci em silêncio. Esperando ele dar seu golpe, ele nunca nos chamava pra bater papo furado. Claus se endireitou um pouco, interessado agora. — Se é disso que estamos falando, eu me prontifico. Ele abriu um sorriso enviesado. — Casamento nunca foi problema pra mim. Elas já voltaram? Quando vamos receber os dociês? Você sabe que eles não esperam. Meu pai assentiu lentamente. — Ninguém espera. confirmou. — Esperam resultados, E eu esperei muito tempo pra isso. Olhei prós dois enojado. Meu pai tinha se casado duas vezes dentro da cúpula. A primeira esposa foi executada por traição. A segunda ainda vivia na mansão… se aquilo podia ser chamado de vida. Um fantasma elegante, andando pelos corredores como lembrança do que acontece com quem deixa de ser útil pra ele. — Precisamos fortalecer esta casa! continuou. — Um herdeiro agora seria ideal. Precisamos crescer essa família. Claus riu baixo. — Isso eu resolvo fácil. Meu pai então desviou o olhar para mim. — Cirius. chamou, como quem puxa uma arma da gaveta. — Você devia seguir os passos do seu irmão. Ja esta na idade pra isso. Não foi um pedido. Foi uma ordem disfarçada de sugestão. Sustentei o olhar dele sem reagir. Nunca fui impulsivo. Nunca dei a ele o prazer de uma resposta precipitada. — Quando for necessário. respondi apenas. O maxilar dele se moveu, tenso. Ele não gostava quando eu não dizia exatamente o que ele queria ouvir. — Saiam! ordenou. Claus foi o primeiro a se levantar. Passou por mim batendo de leve no meu ombro, como se fôssemos aliados. — Viu só? murmurou, já na porta. — Enquanto você pensa, eu ajo. Sempre foi assim. No corredor, ele riu. — Imagino que as garotas estejam… bem treinadas agora, submissas... Hum, do jeito que eu gosto. O olhar dele tinha algo de sujo. — Vai ser divertido escolher. Parei e me virei para ele. — Vai pro inferno, Claus. O sorriso dele só aumentou. — Já moro aqui, irmão. Ele seguiu pelo corredor, assobiando, como se nada naquele mundo pudesse alcançá-lo. Fiquei parado por alguns segundos. A imagem veio sem ser convidada. Renesmy. Ela era daquela maldita safra de mulheres adestradas como animais. Tiradas cedo demais da vida. Moldadas para obedecer. Para calar. Para servir alianças que nunca escolheram. Ela tinha dezesseis anos quando foi levada. Cinco anos se passaram. Cinco anos era tempo suficiente para destruir qualquer coisa viva. Ela confiava em mim. me contou o segredo que podia matá-la. Disse que Vittorio não era seu pai de sangue. Que a mãe tinha entrado naquela vida por amor… e pagado por isso. E me fez prometer. — Você vai estar lá quando eu sair, Cirius? Eu prometi. Agora eu já não era um moleque observando tudo à distância. Eu era um homem feito. Uma ferramenta afiada nas mãos do meu pai. Um ótimo matador. Silencioso. Eficiente. Sem hesitação. Não sabia mais quem era, nem mesmo a garota que eu encontraria, mas de uma coisa eu não tenho dúvidas. Honro com a palavra que dou, e dessa vez não vai ser diferente. Vou está lá. Peguei a moto ainda na garagem. O motor rugiu sob minhas pernas enquanto eu deixava a mansão para trás. O vento batia no rosto, mas não limpava os pensamentos. A casa de Vittorio surgiu à frente como uma fortaleza. Seguranças por todos os lados. Homens armados. Olhares atentos. Aquilo só significava uma coisa. O tesouro dele estava voltando. Desde a morte da esposa, Vittorio nunca mais foi o mesmo com Renesmy. A protegeu como quem guarda a última coisa viva em meio aos escombros. E isso, naquele mundo, era uma fraqueza perigosa. Eu sabia. A mesma verdade que poderia libertá-la de um casamento por aliança… era a que podia ser a sentença dela. Se a cúpula descobrisse que ela não era filha legítima da máfia, fariam com ela o que fizeram com a mãe. Sem hesitar. Por isso o segredo precisava ser enterrado fundo. Por isso ela teria que casar com um deles. Meu estômago se fechou com o pensamento seguinte, cru e inevitável. Que seja comigo, então. Se fosse para sujar as mãos. Se fosse para carregar o peso. Se fosse para protegê-la daquele mundo… Eu faria. Mesmo que isso me condenasse junto.
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