C I R I U S
O pai dela toca o ombro dela e a conduz para dentro.
Ela olha ao redor enquanto caminha, como quem reconhece um lugar que nunca esqueceu de verdade.
— Eu senti tanta falta daqui…
diz baixo, quase como se falasse com as paredes.
Vitório para.
Vira para ela rápido demais.
— O que fizeram com você lá dentro?
A pergunta sai dura, direta, sem rodeios.
Vejo o corpo dela reagir. Não recua. Não abaixa a cabeça. Só respira fundo.
— Já passou, pai. Não se preocupa com isso.
Não é uma resposta. É um fechamento.
Vitório não gosta. Eu vejo nos olhos dele.
Homens como nós nunca gostam quando não podem desmontar a dor peça por peça.
Mas ele respeita.
— Eu vou rejeitar as propostas de aliança.
ele diz então, firme.
— Nenhuma delas vai seguir adiante. Você não precisa se preocupar com isso.
O ar muda.
Renesmy não discute. Não agradece. Só assente.
E o abraço que ela dá nele não é de alívio é de confiança.
Isso me atinge mais do que deveria.
Vitório a aperta por um segundo a mais. Depois se afasta, sério outra vez.
— Você tem certeza de que ninguém te viu vim aqui?
ele pergunta, agora olhando pra mim.
A regra paira entre nós como uma lâmina.
Depois que elas chegam, ninguém pode vê-las até a cerimônia.
— Ninguém sabe.
respondo sem hesitar.
— A menos que um dos seus homens me traísse.
Ele sustenta meu olhar.
— eles são fiéis. Todos, sem exceção.
Antes que qualquer outra coisa seja dita, um dos conselheiros de Vitório se aproxima.
Fala algo baixo, rápido.
Vejo o maxilar de Vitório endurecer.
Ele olha para Renesmy de novo. O sorriso que oferece é curto, controlado.
— Preciso resolver algo. Já volto.
E se afasta.
O silêncio que sobra não é confortável.
Ela quebra primeiro.
Um sorriso pequeno. Cauteloso.
— Você tá diferente.
Não é acusação. É constatação.
— Você também.
respondo.
Ela inclina levemente a cabeça, como se aceitasse aquilo só até certo ponto.
— É…
pensa por um segundo.
— Só por fora. Acho que continuo igual por dentro.
Faz uma pausa.
— Mas com mais informações de como me comportar agora.
Assinto devagar.
Com toda certeza um manual inteiro de como ser um troféu perfeito.
— Não posso dizer o mesmo.
Ela me observa com mais atenção agora. Como se procurasse algo que não estava ali antes.
E não está.
Eu tive que fazer coisas.
Aprender regras que não estavam escritas, que foram feitas por minha própria casa, por meu pai e que será as que provavelmente vou ter que seguir se o Claus ganhar a p***a do trono do nosso velho.
Tive que escolher lados que não precisava ser escolhidos.
Eu mudei, por completo.
Não sei se isso me orgulha ou me condena.
....
Um silêncio estranho recai sobre nós.
Ela puxa o ar enchendo o peito. Dois completos estranhos, duas mentalidades totalmente diferentes.
— Acha... Que meu pai, pode rejeitar todas as propostas de alianças?
Não podia mentir, nem filtrar nada pra ela, com toda certeza deve ter aprendido muito naquele convento de adestramento.
— Ele pode tentar.
Ela morde o lábio, o ato me faz olhar por mais tempo pra sua boca.
O rosto dela continuava do mesmo jeito, delicado, pálido, os olhos escuros como eu lembrava.
Ela me olhou de novo, e meu olhar teve que voltar para os dela.
— E se...
Ela parou de falar, me causando estranheza.
— E se?
Ela encheu o peito, meus olhos observadores captaram cada um dos seus atos.
— E se... Fosse com sua casa.
Sabia bem do que ela falava, do receio que tinha em seus olhos, eu conhecia aquele olhar. Medo.
O mesmo Medo dos que me olhavam antes de arrancar as vidas dele.
Me dando um poder das suas vidas nas minhas mãos.
Inclinei um pouco a cabeça, queria ouvir o que ela pretendia.
— Seja mais específica Renesmy.
Ela levou os cabelos pra trás da orelha com as duas mãos.
Entregando seu nervosismo de falar aquilo.
— Se... Fosse com você?
Meu lábio superior tremeu.
— Você conhece as regras, não conhece? Sabe que teria que se deitar comigo, gerar meu herdeiro dentro de um prazo.
Ela acena freneticamente.
— Eu sei! E... E sei que você não é mais o mesmo, que deve ter feito muitas coisas depois que eu sair daqui, mas se eu ainda conhecer um mínimo seu..
Ela suspirou me olhando intenso.
— Sei que você sempre gostou de quebrar regras, de não seguir elas... Nunca gostou de ser controlado.
Astuciosa...
Sorri ladino, sem conseguir conter, gosto disso. Da sua rebeldia, ela não foi dobrada totalmente.
— Sei que isso não vai ser um problema pra você, e... No momento.
Ela ergue aquele nariz pequeno dela, orgulhosa.
— Eu só tenho você... É minha única chance de não seguir essas malditas regras.
Hum...
Rebelde, astuciosa e articulada?
Renesmy... Que arma você é.
— E... E isso pode ser bom pra você também, eu sei que uma hora teria que casar com alguém, a casa do meu pai é uma das mais poderosas, você também ganha com isso.
— Estamos falando de negócios?
Disse sério e ela acenou que sim.
— Está tentando negociar comigo esse casamento?
— Se você quer falar assim.
Dei dois passos até ela, seu corpo ficou tenso, mas ela manteve aquele nariz empinado.
Eu realmente não conheço mais essa garota...
Ela saiu daqui pra ser moldada, ser submissa e volta mais firme? Mas dura?
O convento tem sua fama de ser bem severo, as punições bem radicais.
Não era bem o que eu via aqui...
Isso faz queimar um orgulho, um invasivo.
Preciso saber até onde ela está disposta a ir com essa rebeldia saborosa.
— Está disposta a t*****r comigo?
Ela engoliu em seco, mas os olhos negros ainda estavam dentro dos meus.
— A gerar um herdeiro meu, pra tentar fugir das regras que você vai está seguindo, por um pouco mais de liberdade?
Ela continuava me olhando firme.
— Sua virgindade foi testada, não foi? está disposta a se entregar pra mim?
— Farei o que for preciso, serei sua!
Mais que diabos.
— Está tentando me manipular Renesmy?
Seu nariz se moveu. Mantive meu olhar potente, severo e ela não recuou, não baixo, isso me deixou louco.
— Sim...
Mais que garota...
— Mas... Não da forma que você está pensando.
— Não?
Ela n**a rápido.
— É um bom negócio pra você também... E pra mim.
— Quais suas vantagens, fala pra mim.
Ela olhou em volta, continuei olhando pro seu rosto.
— Eu só quero poder ver meu pai quando eu bem quiser, poder sair, ter amigas e não precisar me anular, ter o mínimo de humanidade e vida...
Pressionei os lábios.
— Você sabe que se for minha, as coisas podem ser do meu jeito, não sabe?
Ela acena que sim.
— Por isso estou tentando esse acordo.
— Você sabe que seu pai lhe dando como aliança, pra mim ou pra qualquer outro, não é preciso seguir esse acordo?
— É por isso que estou falando com você antes!
Ela foi firme.
— Você é astuciosa.
Ela não respondeu, continuou com aqueles olhos escuros me fitando.
— Você não pode ter mudado tanto.
Se tem o mínimo do garoto que eu conheci aí dentro de você. Considera minhas palavras.
O pai dela surge atrás dela, mais distante, meu olhar vai pra ele que volta passando a mão na nuca.
Eu sabia que aquele ato nunca era bom.
Ela seguiu meu olhar, ele estava se aproximando quando disse:
— Será considerado.
Ela me olhou rápido. Acenei leve e ela acenou também soltando um suspiro.
— Achei que você já tinha ido Cirius, não podemos nos arriscar assim.
— Já estava de saída.
Olhei pra ela de novo, que tocou no pingente do colar em seu pescoço, o movendo de um lado pro outro.
Acenei uma última vez e me afastei pra subir em minha moto.