O segundo beijo

2879 Palavras
Win Ele arrasta a sua mala para dentro do quarto. Eu o encaro, e abaixo o olhar, sou um covarde, simplesmente não sei o que falar, e volto a olhar para ele. Ele mira os meus amigos, e depois a mim. Eu não sei, mas sinto que estou perdido em seus olhos castanhos, Nate ainda tem aquele olhar penetrante, que parecia extrair tudo de mim. Ainda bem que meus amigos estão aqui para quebrar esse silêncio incomodo. “Então, você é o colega de quarto do Winnie?”, Khai pergunta, e Nate olha para ele.  “Quem é Winnie?”, Nate pergunta. “Winnie é o nosso amigo aqui!”, ele diz e aperta meu ombro. “Quer dizer, o nome dele é Win, mas nós o chamamos de Winnie!” “Ah, entendi! Prazer em conhecer você, Win!”, ele fala e estira sua mão para mim. “Eu sou o Nate!” “Como vai, Nate?”, digo e aperto sua mão, e sinto uma corrente elétrica percorrer meu corpo. Que merda, se acalma, Win! “Então, acho que podemos dormir tranquilos, Freezer. O Nate não parece um tarado louco, ele é primo do Oat, e...”, Khai afirma, mas é interrompido por Freezer. “Essa é a garantia, Khai?” “Como assim, Freezer?” “Desculpa Nate, mas eu não conheço você, e espero que trate bem o meu amigo!” Ele encara os meus amigos. “Eu entendo a sua preocupação, você não me conhece, e acho que meu primo não tem uma reputação muito “legal”, não é mesmo?”, ele pergunta e Freezer balança a cabeça em positivo. “Eu não sou igual a ele, e estou aqui para concluir meu último ano em paz. Eu não vou fazer nada contra você, Win!”, ele diz e me olha intensamente, e eu engulo em seco. [...] Eu passei os últimos cinco anos, imaginando que ao nos encontrarmos, ele lembraria de mim, me abraçaria, e em seguida daríamos um beijo apaixonado, porque eu sempre acreditei, feito um i****a, que ele nunca me esqueceu, e que esteve apaixonado por mim todo esse tempo. Pelos céus, como sou i****a! Ele olhou para mim, apertou minha mão, ouviu o meu nome, e não lembrou nada? Não é possível que ele não lembre o que aconteceu com a gente naquele dia, em seu quarto? Durante o resto da manhã, eu arrumei o meu lado do pequeno closet, enquanto ele simplesmente deixou sua mala, pegou o celular e saiu. O tempo que passei no quarto, eu não o vi, e isso me deixou m*l, não senti fome, e fui andar pelo campus, passei um tempo na biblioteca, e depois fui para a aula.  Ao chegar à sala de aula, algo que sempre faço, sento no meio da sala. Na frente sentam os que se acham inteligentes, no meio sentam os que não querem ser notados, e atrás, os idiotas da turma. Pelo menos na minha turma sempre foi assim, e continua sendo até hoje. Freezer senta á minha frente, e Khai, ao meu lado esquerdo. Percebo que mina rotina recomeça, quando Khai começa falar coisas aleatórias, que vão desde Oat, Lady Gaga, à mitologia grega. “Cala a boca, Khai!”, Freezer exclama. “Você fala sem parar, sobre um monte coisas ao mesmo tempo!” “Ele também fala muito no quarto!”, digo. “Só que no quarto eu posso usar fones, Win!”, Freezer afirma. “Gente, eu ainda estou aqui, dá pra parar de falar de mim como se eu não estivesse?”, Khai pergunta fingindo uma falsa irritação, enquanto rimos dele. Meu sorriso é cessado quando o professor adentra a sala, e logo atrás dele, o Nate também entra todo suado, como se tivesse corrido uma maratona. Ele fala com o professor, pedindo sua permissão para sentar, ele é autorizado, e olha pela sala, e caminha entre as fileiras de cadeiras em que eu e meus amigos estamos sentados, e ao meu lado há um lugar vago. Fecho os olhos momentaneamente, e peço aos céus que ele não sente aqui. Infelizmente minha prece não é atendida, e Nate senta ao meu lado.  [...] Acho que não preciso dizer o quanto foi torturante passar a aula sem olhar completamente para o meu lado direito, e virar o rosto quando ele encarava, foi assim durante toda a tarde. Depois das aulas, finalmente acabarem, eu e meu squad passarmos um bom tempo no refeitório, comentando sobre todo mundo, sobre os professores, os alunos, o dormitório, e Khai sempre insistindo em falar de Oat, Freezer reclamando da tola paixonite dele –– segundo ele -–  e o outro reclamando de volta, num looping infinito. Eu finalmente voltei para o dormitório, e ao entrar tenho uma visão, não muito agradável, além de Nate, encontro Oat e Somchai.  “Boa noite!”, falo ao adentrar o quarto. “Boa noite!”, todos respondem em uníssono. “Esse é o seu colega de quarto, Nate?”, Oat pergunta enquanto caminho perto da cama de Nate. Ele me encara com desdém. Eu sinceramente não sei o que o Khai viu nesse i****a, eu olho de volta para ele do mesmo modo. “Win Metawin, o garoto mais desejado da escola!” Eu paro, solto uma risada sem graça, e olho para ele. “Não Oat, esse título é seu!” “E aí que você se engana, Win! Você é muito desejado, desde a época que revelou a todos, no refeitório, que era gay, não lembra?” “Lembro”, respondo apenas isso, e caminho até minha cama, deixo minha bolsa em cima dela, abro meu armário, e tiro minha toalha, meu pijama e uma cueca.  Oat é insistente. “Sabe Win, eu não entendo porque você não dá uma chance para os seus pretendentes, tem um que eu conheço, que tá louco por você!”, ele diz e eu vejo o sorriso de orelha a orelha, estampado na cara do Somchai, e o Nate parece não ter expressão nenhuma, enquanto o primo dele fala besteira. “Nossa Oat, você me deu uma ótima ideia! Que tal você ser o apresentador, de um reality show que vou desenvolver?”, pergunto ironicamente, e seu olhar parece perdido. Como é burro esse Oat! “Vai se chamar “Quem vai ficar com o Win?” “O quê? Como assim?”, ele é burro mesmo, não é só impressão minha. Eu o deixo com cara de o****o, pensando se o que eu disse é realmente verdade. Entro no banheiro e tranco a porta atrás de mim, e escuto apenas as risadas, e a voz do Oat falando que não entendeu nada.  O que mais me deixa chateado, é que o meu “Amigo” do passado não teve nenhuma reação enquanto seu primo bancava o engraçado comigo. Não é possível que esse garoto não se lembre de mim? Como pode não lembrar? [...] Algumas semanas se passaram, e chego à conclusão de que o Nate não se lembra mesmo de mim, e isso me chateia, me magoa. Contudo, eu não tive coragem de falar com ele sobre isso, na verdade, m*l conversamos. Oat e Somchai não vieram mais aqui, pelo menos na minha presença. Posso dizer que o último ano da escola, está se mostrando mais chato que os anteriores.  Fim de semana, e seu significado fabuloso: Descanso.  Nos anos anteriores o fim de semana não tinha sentido para mim, pois, eu não tinha autorização para sair da escola, e também não tinha para onde ir, mas desde que minha tia, a única pessoa sensata da minha família, voltou a morar em Bangkok tudo melhorou, e eu posso desfrutar desses dias de descanso num lar de verdade.  Levantei cedo demais, organizei tudo que tinha, e fiquei sentado na cama à espera da minha tia. O tempo que me movimentei dentro do quarto, Nate não acordou. Observo seu rosto apoiado ao travesseiro. Olhar para ele e não sentir nada, esquecer o que aconteceu no passado, é difícil. Eu estaria sendo um p**a de um mentiroso, se dissesse que não pensei nele nesses últimos cinco anos, e que ele me não atrai, pois, o que fiz intensamente foi pensar nele, e em seus lábios tocando os meus, e que o fato dele não se lembrar de mim me machuca demais.  Balanço a cabeça na tentativa de espantar esses pensamentos. Um som estridente começa a tocar, e ele pega seu celular, o encara, toca na tela e o coloca de volta ao lado do travesseiro, e em seguida se levanta. Rapidamente seus olhos encontram os meus, e eu volto a olhar para o meu celular, e escuto sua voz grave. “Bom dia, Win!” “Bom dia”, digo e olho para ele, que se levanta, ainda está sonolento, o cabelo todo bagunçado e sem camisa.  Nate se espreguiça, e observo cada detalhe. Meu olhar percorre seu pescoço, peito, m*****s, abdome bem dividido. Mordo meu lábio, passo a língua levemente aos lábios, minha boca parece salivar demais, e um calor toma conta do meu corpo de repente, retiro o olhar e fecho os olhos. Volto a mirá-lo, e dessa vez seus olhos estão sob mim. Meu coração acelera, e eu simplesmente não sei o que fazer. Sinto um clima pesado no quarto, uma tensão que me deixa descontrolado.  “Win, eu acho que devo desculpas a você!”, ele fala, me deixando sem entender nada.  “Por quê?” “Naquele dia que deixei Oat e Somchai virem aqui. Eu realmente não queria, mas, eles insistiram depois de saberem que você era o meu colega de quarto...” “Ah... Por isso? Tudo bem, não tem problema, já passou!” “Eu achei que você ficou com raiva de mim por causa disso, e...” “Não fiquei com raiva de você por causa disso!” “Então, por que vem me tratando como se não quisesse falar comigo?”, agora fudeu, o que eu vou dizer? Será que devo falar a verdade? Antes que eu decida o que falar, meu telefone toca. No visor a foto da minha tia aparece. “Oi tia, tô descendo!” Pego minha mochila, coloco o celular no bolso, olho para ele mais uma vez. “Tchau Nate!” “Tchau Win!”, ele fala em um tom seco. [...] “Win, eu não quero parecer chata, mas você ainda tem dezessete anos, seus amigos já têm dezoito... Eu acho bom você frequentar essas festas, mas não faça nada para se prejudicar, pois, sua mãe concordou que você saísse do colégio nos fins de semana, e frequentasse minha casa, mas qualquer problema que chegue aos ouvidos dela...”, minha tia fala enquanto termino de abotoar minha camisa. Termino de abotoar, e olho para ela. No lugar de seu belo sorriso vejo preocupação, seu cabelo amarrado e um pouco bagunçado, ela estreita os olhos, e eles parecem menores. Aproximo e sento na cama ao seu lado. “Eu sei tia, não vou fazer nada demais!” “Por favor, não me ache uma careta! Mas, você sabe como foi complicado conseguir essa aproximação, sua mãe é uma mulher extremamente...” “Homofóbica e egoísta, é o que ela é! Mas, não se preocupe, eu nunca bebo nas festas. Na verdade, eu m*l bebo água, quem dirá bebida alcoólica!”, digo, e a abraço de lado, e ela faz o mesmo. “Outra coisa, eu não quero parecer um poço de chatice, nunca se esqueça de usar camisinha, tá certo?”, ela fala, e eu apenas rio, e sinto uma vergonha imensa. Antes que ela continue, meu celular toca, e a foto de Freezer aparece no visor. [...] Khai olha ao redor á procura de Oat, mas felizmente não o avistamos, contanto, a quantidade de pessoas que estudam no nosso colégio, é gritante. “A gente vai ficar aqui no hall da casa?”, Freezer pergunta. “Não, vamos andar por aí! Vê se encontramos alguns dos nossos colegas de sala, aqueles que não são tão chatos!”, Khai fala num amargurado. Seguimos até a sala, onde uma multidão de pessoas bebe, conversam, e algumas se beijam pelos cantos da sala, e outras tentam dançar ao som de música eletrônica. Olho para meus amigos, e vejo o Freezer caminhar até um bar improvisado num dos cantos da sala, e pegar uma cerveja. Enquanto Khai continua olhando por todos os cantos da sala.  “Khai, por que nós viemos a essa festa? Você nem tem certeza se o Oat está aqui?”, pergunto e ele finalmente olha para mim. “Eu o ouvi dizendo que estaria, e...” “Só que ele não está! Só queria saber quando você vai parar com essa paixonite que não te leva a lugar nenhum?”, Freezer pergunta irritado. “Ei, não é bem assim! Eu ainda vou conquistar o Oat, vocês vão ver!” “Por falar nele...”, Freezer dia e aponta para o portal que dá acesso ao hall. Meu coração dispara, ao lado de Oat, está Nate. Enquanto o primo sai cumprimentando todo mundo, meu colega de quarto parece deslocado ao lado dos amigos de Oat, duas garotas que estão no grupo deles, se aproximam, e ele passa a mão no cabelo, coça a nuca, sorri sem graça com algo que uma das garotas fala ao seu ouvido, e ele olha ao seu redor. Nesse momento seu olhar encontra o meu, e isso me deixa nervoso. Ele sorri e acena para mim, e eu faço o mesmo.  “A gente pode ir até o Nate, assim fica mais fácil chegar no Oat, o que acha Win?”, Khai pergunta, e eu olho incrédulo para ele. “Não”, digo com veemência. “Winnie, o que custa?” “O que custa? Eu não sou amigo dele, ele é apenas meu colega de quarto, Khai!” “Tudo bem, mas eu vou até lá!”, Khai diz com firmeza. “Tá, essa eu quero ver!”, Freezer fala. Khai caminha até o outro lado da sala, enquanto eu e Freezer olhamos. Meu amigo se aproxima de Nate, e fala algo que parece chamar a atenção dele. Oat se aproxima do primo e fala algo no ouvido, e ele olha na direção do sofá que está perto deles, enquanto Khai olha para o “amor da sua vida” como se estivesse enfeitiçado. Uma das garotas que está sentada no sofá, levanta e se aproxima de Oat, fala algo em seu ouvido e olha para Nate, enquanto Khai encara a cena com um olhar incomodado. “Sério, por que o Khai não se toca e saí de perto daquele i****a? O que ele acha? Que Oat vai deixar o babaca de sempre, assumir que também fica com meninos, só por causa dele?”, Freezer fala com um olhar incomodado direcionado ao nosso amigo. Eu apenas olho para ele e balanço a cabeça em sinal de concordância. Continuo observando até ver a garota se aproximar de Nate, envolver seus braços ao redor do pescoço dele, e eu sinto uma pequena pontada no peito ao ver a cena, e definitivamente, não estava preparado para algo assim.  Olha pra ele, tá todo feliz porque o i****a do Oat tá dando atenção a ele!”, Freezer fala e olho novamente para Khai está conversando com Oat, enquanto a garota continua com os braços ao redor do pescoço de Nate. “Vou procurar algo para beber, você vem Win?” Apenas balanço a cabeça em negativo, ele se afasta e eu fico sozinho. A garota continua se agarrando a ele, enquanto ele fica parado, dizendo algo para ela, e balançando a cabeça em negativo. Ela não se contenta, e aproxima seu rosto parece querer beijá-lo, e eu sinceramente, não vou ficar aqui para ver isso. Quando chego na frente da casa escuto alguém chamar meu nome, continuo andando pelo extenso jardim que há na casa. Antes que eu chegue ao portão, escuto a voz mais próxima. “Win, espera, por favor!”, olho para trás, e vejo quem eu menos esperava, Nate.  Ele se aproxima de mim, e eu pergunto. “O que você quer?” “Eu... Eu...” “Já que você não tem nada pra me dizer, eu vou embora!” Abro o portão e sigo caminhando pela calçada, mas meu colega de quarto insiste em vir atrás de mim. “Win, espera!” Eu paro novamente e olho para ele. “O que você quer? Você tava se divertindo com uma garota, por que veio atrás de mim?” Ele não me responde, apenas se aproxima, fica muito perto, e eu tenho medo de fazer a mesma besteira do passado, e sair ferido. Seu olhar recai sobre a minha boca, morde o lábio, e eu sinto um desejo intenso tomando conta de mim, e antes que ele tome qualquer atitude, encurto ainda mais a distância entre nós, e meus lábios finalmente tocam os seus.
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