O reencontro

1516 Palavras
Win A última vez que vi o Nate foi no mesmo dia que cometi o maior crime da minha vida, segundo minha e meu padrasto. Beijá-lo foi um crime do qual não me arrependo, principalmente quando me lembro do olhar dele para mim. Não foi medo, ou repulsa que vi em seus olhos, foi surpresa. Ele estava surpreso por eu ter tomar aquela atitude, e em nenhum momento fez alguma menção de que não queria.  Não vou mentir. Eu procurei por ele durante muito tempo, mesmo não tendo um telefone, nem um notebook para chamar de meu, pois, minha mãe nunca me deu, e sempre inventava as desculpas mais esfarrapadas quando pedia qualquer um dos dois. Mesmo assim, isso não me impediu de procurar em redes sociais, fazer algumas ligações para várias pessoas que o conheciam naquela época, mas não achei nada. Chegou um momento que eu desisti de procurar, e foi aí que comecei a beijar outras bocas, mas nada, além disso. Era como se ninguém fosse bom o bastante para mim, e durante os primeiros anos no internato, eu sofri muito, chorava praticamente todos os dias e me culpava pelo beijo.  Foram tempos difíceis...  Nunca pensei sobre o que eu faria se o encontrasse, ou qual seria sua reação? Isso nunca passou pela minha, mas agora olhando para ele tão perto... Será que ele se lembra de mim?  Diante dele, olho cada traço seu, e p**a que pariu... Como ele ficou lindo! Calma Win, respira fundo... O que eu faço? Será que eu falo com ele? Isso não faz sentido. O que eu vou dizer? Olá Nate, eu sou Win. Lembra-se de mim? O garoto que te beijou aos 12 anos, no seu quarto, e a sua mãe nos surpreendeu, lembra? NÃO, NÃO, NÃO!  Definitivamente não. Ele acabou de chegar, e eu vou perguntar algo assim? Não faz sentido. Continuo olhando, e por alguns segundos seu olhar cruza com o meu, ele olha rapidamente para alguém, e torna a me olhar. Nesse momento o meu coração parece querer sair pela boca, e eu não consigo sustentar meu olhar, e me volto para o Khai, que fala sem parar. Eu deixo meu amigo falando sozinho, e sigo para fora da casa. Paro no jardim da entrada, olho ao meu redor e tem muita gente entrando e saindo, uma delas é o Khai. "Win, o que deu em você? Tá se sentindo m*l?" "Por que você tá perguntando isso?"  "Você tá pálido, parece que viu um fantasma!", acho que foi isso mesmo, um fantasma do passado.  "Eu não tô me sentindo muito bem, acho que vou pra casa!" "Então, eu vou chamar o Freezer pra gente ir ..."  "Não precisa, você queria se aproximar do Oat, e..."  "Nada disso, somos um squad, esqueceu? Eu não vou deixar você ir sozinho pra casa, vai que te sequestram, ou fazem algo de r**m com você?" "Khai, como você é exagerado!"  Não adianta argumentar com ele, geralmente ele faz isso, me leva em casa e depois volta para a festa. [...] Lá vamos nós para mais um ano letivo, e dessa vez é o último. O último nesse inferno. Resta saber o que terei que aguentar até a formatura? Ando pelo campus, mas especificamente no prédio principal, uma estrutura velha que os administradores pintam todo ano com a mesma cor, bege, nude, sei lá... Só sei que é sem graça, passa uma ideia tão ilusória de algo bom, pureza, tudo menos o que esse lugar realmente é. Eu chego diante do pátio principal, um grande espaço a céu aberto depois que se passa pelo primeiro bloco do prédio principal. A escola tem quatro prédios espalhados pelo campus, e todos eles têm esse pátio a céu aberto no meio, que dividem esses prédios em duas partes. Sentado em um dos muitos bancos de pedra do pátio, espero meus amigos chegarem, e um flashback da noite anterior vem a minha mente. Eu fui covarde, não tive coragem de entrar na casa de Oat, enquanto Khai procurava por Freezer. Dormir tornou-se uma aventura, eu só pensava nele, no nosso beijo do passado, e no instante em que seu olhar cruzou com o meu. Eu já sei que ele estava morando em Hong Kong, e que é primo do Oat, agora o que eu faço com essas informações? “Tá pensando em quê, Winnie?”, Khai chega gritando e arrastando sua mala, fazendo o maior barulho e chamando a atenção das poucas pessoas que estão no pátio. Ele senta ao meu lado, e logo em seguida o Freezer faz o mesmo.  “Khai, precisa disso?” “Ele sempre faz isso, não sei porque você ainda pergunta!” “Você sempre passando pano para as loucuras do Khai, não é Freezer?” “Win, eu não posso fazer nada, se o Khai não tem juízo!” “Olha só, eu ainda estou aqui!”, diz Khai levantando a mão. “Por que a sua mala tá pequena esse ano, Winnie?” “Porque minha tia disse que eu posso passar todos os fins de semana na casa dela!” “Ah que bom! Fico feliz que a sua tia tenha voltado a morar em Bangkok, ela sempre foi a única pessoa legal da sua família. Desculpa, eu falar assim, mas...” “Tudo bem Khai, eu sei que minha família é recheada de homofóbicos, que não me querem por perto, a começar pela minha mãe!” Freezer coloca uma mão em meu ombro. “Vamos mudar de assunto! Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas, o primeiro dia do último ano do ensino médio, e não é dia de lembrar coisas ruins do passado. Afinal, nós três passamos por coisas muito chatas ao longo desses cinco anos, não vamos mais sofrer pelo passado, deixa o passado no passado!” As palavras do meu amigo me fazem lembrar os problemas que tive nesses cinco anos, mas também me fazem lembrar o Nate. Será que devo deixar esse “passado”, no passado? [...] Depois de um discurso interminável do diretor, começamos a nos levantar, mas Khai ficou ali parado ajeitando seu terno e olhando ao redor do auditório, e quando avistou o que procurava um sorriso se formou em seus lábios. “Olha só como ele está lindo, e acompanhado daquele primo gato, que tava na festa?” Assim que Khai fala, olho na mesma direção que o Khai, e lá está ele, trajando o mesmo terno horroroso que todos nós, mas nele parece impecável. Ele balança a cabeça para trás, tirando o cabelo dos olhos. p***a, como ele é lindo! “Vocês dois vão ficar aí? O diretor disse que nós tínhamos a manhã para resolvermos as questões sobre o dormitório, e os nossos horários escolares, e a tarde as aulas começam. Eu quero dar pelo menos dar um cochilo, e descobrir quem é meu colega de quarto, e se vou precisar trocar... Vamos!” O discurso de Freezer me tira do transe em que eu estava, e arrasto minha mala, e o Khai junto. Depois de um tempo confuso na secretária do prédio, seguimos por um corredor até chegarmos diante dos elevadores. Todo ano, nós três sempre ficamos juntos, mas esse ano houve uma mudança nas regras do dormitório, os quartos não terão mais três camas, apenas duas. O elevador se abre, um monte de gente sai, chegamos ao quarto andar, finalmente descemos. “Pelo menos vamos ficar no mesmo andar, Winnie!”, diz Khai. “Pelo menos isso, já que vocês dois vão ficar no mesmo quarto... Eu espero que meu colega de quarto, não seja um daqueles idiotas tarados!” Caminhamos pelo longo corredor, nada de novo, as paredes na cor bege, portas e mais portas, de um lado e do outro, aquele piso de madeira, encerado, que podemos nos ver, e também cair se andarmos rápidos demais. Os meninos encontram seu quarto, abrem a porta, e antes que eu faça qualquer coisa, Freezer fala. “Win espera, deixa agente guardar as nossas malas, e vamos com você!” Eu balanço a cabeça, e espero os meninos. Não demora muito, e eles aparecem ao meu lado. Olho o número na ficha que peguei na coordenação, 406, é ao lado do quarto dos meus amigos. Abro a porta. Não tem ninguém. A estrutura e arrumação dos quartos continua a mesma. Duas camas separadas por mesas de estudo, de frente para as camas a porta do banheiro, no fim do quarto, ao lado de uma das camas, a porta que dá acesso à varanda.  “Não tem ninguém aqui, será que ele vai demorar?”, pergunta Khai após abrir a porta do banheiro. “Você não procurou saber quem era seu companheiro de quarto, Win?” “Não Freezer, tava a maior confusão na coordenação quando fui pegar os horários e a ficha do dormitório!” Assim que termino de falar, a maçaneta gira. A porta abre. Meu coração dispara, e eu sinto que ele vai sair pela boca quando meus olhos o veem. 
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