Pré-visualização gratuita Eu ainda estou aqui.
Meu nome é Helena.
Tenho quarenta anos.
Casei aos vinte e cinco acreditando que o amor resolveria tudo. Hoje entendo que ele sustenta muita coisa, mas não responde a todas as ausências.
Sou casada com Marcos há quinze anos. Tivemos três filhos.
Os gêmeos, Lucas e Mateus, têm doze anos.
Minha menina, Clara, tem dez.
Durante muito tempo, fui só mãe.
Depois, só esposa.
Em algum ponto, deixei de ser mulher — não porque quis, mas porque ninguém perguntou se eu ainda era.
Eu só tive um homem na vida.
Marcos.
Nunca outro corpo, nunca outra experiência, nunca outra história. Isso sempre foi motivo de orgulho… até começar a doer.
Marcos não é mais como antes.
Não é r**m. Não é ausente. Só… distante.
Cansado.
Silencioso.
Automático.
Às vezes me toca como quem cumpre um hábito, não como quem deseja. E quase sempre termina antes que eu consiga sequer entender o que meu corpo ainda pede.
Eu fico ali.
Quietinha.
Como se não sentir fosse uma virtude.
Mas não é.
Meu corpo ainda deseja.
Minha mente ainda imagina.
E isso me assusta mais do que qualquer coisa.
Não penso em traição.
Penso em ser vista.
Em não me sentir exagerada por querer mais.
Em não me sentir errada por ainda sentir.
Depois dos filhos, meu corpo mudou.
A barriga nunca voltou completamente.
Os s***s já não são os mesmos.
O espelho virou um lugar desconfortável.
Às vezes me olho e penso: quem poderia desejar isso?
Outras vezes penso: por que ninguém me ensinou que eu continuaria sendo mulher depois de ser mãe?
Me sinto f**a em dias comuns.
Me sinto invisível em noites silenciosas.
E me sinto culpada sempre.
Porque mulheres como eu não deveriam reclamar.
Tenho marido.
Tenho filhos.
Tenho casa.
Tenho tudo.
Só não tenho coragem de dizer que, às vezes, isso tudo não me alcança por dentro.
À noite, quando Marcos dorme, minha mente cria cenas que nunca existiram. Homens sem rosto. Vozes sem nome. Não é sobre eles. Nunca foi. É sobre mim. Sobre o que eu perdi sem perceber.
Depois, rezo.
Peço perdão por pensamentos que nunca viraram atos.
E prometo a mim mesma que amanhã vou ser mais forte.
Mas o desejo não some com promessas.
Ele só aprende a ficar em silêncio.
E eu também.
Continuo ali.
Fiel.
Presente.
Funcionando.
Mas por dentro, existe uma mulher que ainda quer ser tocada sem pressa.
Olhar-se no espelho sem culpa.
E, quem sabe, um dia… ser ouvida.