Logo que Halle saiu, decidi tomar um banho rápido e ir ver o delegado.
Cheguei ao banheiro e tirei a roupa. O dia até que estava fresco, decidi não aquecer muito a água; adorava frio e usar casacos para se proteger dele; sentia-me confortável.
Deixei a água correr por meu corpo, relaxando os músculos tensos, por ter dormido de mau jeito no sofá duro de madeira.
Saí do pequeno boxe e enrolei-me na toalha; peguei minha escova de dente que já havia colocado ali, juntamente com meus utensílios pessoais. Limpei o espelho embaçado, e só ai notei que tinha uma marca em meu pescoço; era um arranhão, quase fundo, ou algo muito parecido. Aproximei-me do espelho e percebi que eram dois arranhões; eles começavam perto da nuca e viam para a parte da frente, eram um pouco fundos, mas não doíam.
Peguei uma pomada contra ferimento e passei em cima. Não fazia ideia de como aquilo fora parar ali, mas esperava que não fosse nada demais.
Vestias roupas rapidamente, preferi não tomar café; queria ser a primeira a falar com o delegado. Peguei minhas chaves e saí.
Algum tempo depois, estacionei em frente á delegacia.
- Bom dia – disse para um rapaz, quase cochilando na sala de recepção.
- Meu turno já acabou – disse sem tirar o boné da cara, que usava para cobrir os olhos enquanto cochilava.
- Só preciso saber se o delegado já chegou?
Esperei por uma resposta, mas o rapaz pareceu pegar no sono de vez.
- Senhorita Gurney – disse tirando seu chapéu – o que faz aqui tão cedo?
- Vim saber se o senhor tem alguma novidade sobre o caso de meu pai?
- Caso? Que caso? – indagou parecendo não entender, sobre o que eu estava falando.
- Da morte do meu pai.
- Isso não é o que se pode chamar de “caso” senhorita Gurney.
- Não? Por quê?!
- Porque não teve um assassino. Não foi um crime – disse com desdém enquanto passava por mim e ia para sua sala.
- Do que o senhor está falando?! – retruquei indo atrás dele – não vai investigar a morte dele?!
-Não tem o que investigar – disse jogando-se na cadeira – já foi constatado que ele foi morte por um animal.
- Que animal?!
- Um animal grande eu presumo – disse ele dando de ombros.
- Que tipo de animal grande?!
- Olhe garota – disse apoiando os cotovelos na mesa á sua frente – o legista constatou que ele foi morto por um animal, ou um grupo de animais. A floresta é muito grande, há áreas com poucas árvores, mas tem outras bastantes arborizadas, que é praticamente impossível se enxergar alguma coisa. Foi exatamente nessa área que encontraram o corpo dele.
- Não existem casas por perto?
- Não. A única coisa que tem por perto – disse fazendo aspas com os dedos – é uma espécie de serraria. Na verdade, são somente os lenhadores que trabalham lá por conta própria, mas de acordo com a lei. Tem os períodos certos para eles cortarem as árvores.
- O senhor sabe dizer se, quando o corpo de meu pai foi encontrado, estava na época deles trabalharem por lá?
Ele fitou-me por um tempo, como se pensasse na resposta.
- Acho que sim... – disse hesitante – sim, eles estavam no período de trabalho.
- E o senhor, por acaso conversou com eles? Talvez eles tenham visto algo...
- Não. Não viram nada. A área que eles trabalham fica á alguns quilômetros de distância de onde o corpo foi encontrado.
- Mas o senhor chegou a conversar com eles?
- Como eu lhe disse; ele foi morte por animais da floresta.
A falta de interesse dele e a maneira de responder – sem interesse – já estavam me irritando.
- Tudo bem, delegado Filiph; obrigada pela sua atenção. Tenha um bom dia!
- Não hesite em me procurar, caso precise.
Nem virei para cumprimentá-lo – sínico – pensei.
Peguei o Ford e sai rápido.
No caminho, lembrei que não tinha quase nada para comer em casa, decidi passar no mercado e comprar algumas coisas.
Estacionei o carro e entrei.
Passei pela sessão de biscoitos e pegueis algumas baboseiras.
Peguei duas garrafas de vinho, cerveja, algumas frutas, pizza e lasanha congelada.
Estava na sessão de artigos de limpeza, lendo o rótulo de um produto que dizia ser milagroso em tirar manchas do que quer que fosse; quando um homem esbarra em mim; ele era alto, forte; mas não do estilo musculoso, mas sim, sarado; um pouco moreno, o cabelo combinava com seus olhos negros.
Esperei que pedisse desculpas, mas ele apenas me olhou e seguiu em frente.
Passei pra próxima sessão; peguei alguns panos de prato e esponja de lavar louças. Quando empurro o carrinho, vejo-o na outra ponta da sessão; ele estava parado me observando fixamente. Decido dar meia volta, e seguir pelo caminho que vim.
Cheguei ao caixa e por sorte só havia duas pessoas, e suas compras eram poucas. Logo ao chegar minha vez, fui colocando as coisas no balcão para passar.
- Bom dia – disse a moça do caixa gentilmente.
- Bom... – o homem estava á dois caixas a frente do meu, de frente para mim.
Baixei a cabeça por um instante, para ver se não era, só impressão minha. Tornei a levantar a cabeça e olhar para onde ele estava, mas ele havia sumido.
Passei as compras e as levei para o carro.
Abri o porta-malas do carro, e a partir daí, comecei uma briga com ele e as sacolas de compras que pesavam no braço. A porta traseira não ficava aberta, e eu não conseguia colocar as sacolas dentro.
- Precisa de ajuda? – disse uma voz masculina atrás de mim, enquanto ele segurava a porta para que eu colocasse as sacolas.
- Muito... – fiquei paralisada ao ver o dono daquela voz. Ele era alto e forte. Seus cabelos eram um pouco compridos, eram de uma cor difícil de identificar; mas estava mais para castanhos. Seus olhos marcantes pareciam sorrir para mim, juntamente com um alinhamento fino logo abaixo do nariz; os lábios eram de um tom rosado, talvez por causa do tempo frio. E apesar de estar de jaqueta grossa, sua camiseta fina por debaixo dela, não deixava negar que era um homem e tanto – obrigada – continuei depois de sair do transe. Acho que ele percebeu meu jeito, já que sorriu envergonhado.
- Você é nova por aqui, não é?
Antes que pudesse responder, vi o homem estranho do outro lado do estacionamento, ele nos observava atentamente.
Fiquei estática quando ele começou a andar em nossa direção. Quando ele aproximou-se o bastante, para que eu percebesse que tinha algo em sua mão, o medo e o desespero tomaram conta de mim.
- Cuidado! Ele está... – o homem acionou o seu carro estacionado, logo ao lado do meu. Entrou nele, sem nem olhar pra mim.
- Está tudo bem?!
Fitei o estranho sair por algum tempo, até que acordei com estalos de dedos bem diante de mim.
- Ei! Moça, você está bem?!
- Hã? Ah, sim. Estou. Desculpe, é que... Tenho passado por muitas coisas, ultimamente.
O rapaz apenas me observou.
- Bem – disse quebrando o silêncio entre nós dois. – obrigada novamente pela ajuda.
- Sam – disse estendendo a mão para mim.
- Savana – disse retribuindo, estendendo-lhe a mão – prazer em conhecê-lo Sam.
Sorri para ele e entrei no carro.
- Vai ficar na cidade por muito tempo? – perguntou recostado á janela.
- Como sabe que não sou daqui?
- Porque ninguém aqui dirige um Ford 2003 – disse rindo.
- Percebi – respondi rindo – bem... Tenho muitas coisas para resolver ainda, acho que mais algumas semanas, ou meses...
- Espero lhe encontrar por ai, durante sua estadia – disse afastando-se da janela, quando dei a partida no carro.
- Também espero. De preferência no mercado, para me ajudar com as compras – disse rindo, enquanto saia.
- Com todo prazer – respondeu ele gritando.
Estacionei o Ford na garagem e levei as compras para dentro.
Passei o pouco tempo seguinte que me restava, antes do almoço na vizinha, para lavar a louça suja da noite passada. Abri a geladeira e vi que ainda tinha algumas coisas já vencidas, joguei-as no lixo.
Faltando menos de meia hora para o almoço, decidi tomar um banho rápido e vestir algo mais confortável e apropriado.
Subi para meu antigo quarto e abri uma das malas; pequei um vestido bege de alcinha e fui para o banho.
O banho foi rápido, assim como a arrumação do cabelo.
12h30min bati na porta dos Hill’s.
- Oi – disse uma menina linda de cabelos compridos castanhos e olhos azuis enormes; devia ter uns 11 anos – posso ajudar?
- É...
- Senhorita Gurney! – gritou Halle; vindo da cozinha com uma travessa na mão – pode entrar querida.
A menina abriu mais a porta e a agradeci com um sorriso.
A casa deles era bem como havia imaginado; tudo muito bem clássico e arrumadinho, mas repleta de fotos por todas as paredes da casa era difícil identificar um mínimo de parede possível, devia haver foto da família toda e de ancestrais.
A menina me guiou até o sofá de couro.
- Pode se sentar – disse docemente. Educação era algo que eles prezavam muito pelo visto.
- Obrigada – disse ajeitando melhor o vestido, para sentar.
A menina sentou-se numa poltrona a minha frente.
Observei os pequenos enfeites sob a mesinha de centro, eram lobos, acho que eram feito de bronze.
- Bonitos não? – indagou a menina, também olhando para os enfeites.
- Sim, são muito bonitos.
- Qual seu nome? – perguntou.
- Savana. E o seu?
- Catharine.
- Que nome bonito.
- Era o nome da minha avó.
- Quantos anos você tem? – indaguei tentando puxar assunto, já que ela era a única á vista por ali. O restante parecia estar ocupado com a comida.
- Tenho 12.
- Ah, é uma criança ainda...
- Claro! Pensou o que? Que eu fosse uma anã adulta?
Fiquei sem resposta, apenas a observei.
- Estou brincando – disse rindo da minha cara de frustração.
Dei um sorrisinho amarelo, para não acabar com a graça dela.
- Catharine – disse Halle vinda da cozinha novamente, mas desta vez, sem a travessa – vá chamar seu irmão e diga á ele que veja se seu tio já saiu do banho. O almoço está pronto – depois que a menina saiu, acatando o pedido da mãe, ela voltou á atenção para mim – venha senhorita Gurney.
Ela me guiou até a sala de jantar, que estava impecavelmente linda. A toalha de mesa, branca com detalhes em azul e alguns bordados, combinavam perfeitamente com os pratos de porcelana, que tinha como detalhe nas bordas, rosas azuis.
- Sente-se aqui – disse ela me indicando a cadeira – vamos só esperar as crianças virem.
Carl, seu marido, já estava na ponta da mesa; Halle ocupou a outra ponta da mesa, ficando de frente para o marido.
Alguns minutos depois, Catharine desceu com um garoto tão lindo quanto ela, e aparentemente mais velho que ela.
- Lavaram as mãos?! – advertiu Halle.
- Sim! – responderam os dois ao mesmo tempo.
- Cadê o tio de vocês?
- Já está vindo – respondeu o rapazinho.
Alguns minutos depois, escuto um barulho que parecia vir do andar de cima; era o tal tio.
- Só espero que estas costeletas estejam do jeito que eu gosto...
Gelei por um breve momento quando ele parou de falar e grudou os olhos em mim.
- Sam, esta é...
- Savana – completou interrompendo a irmã.
- A conhece? – indagou Halle.
- Nos conhecemos hoje mais cedo, no supermercado – respondeu.
Ainda olhando para mim, tomou seu lugar na mesa, que por sinal, era bem á minha frente. Fiquei pensando se não deixaram aquele lugar vago, propositalmente; a ideia logo passou, não havia como Halle saber que tínhamos nos conhecido, a não ser que ele tivesse falado...
- Então... – disse ela indicando ao marido que se servisse – porque não me falou que a conheceu?
- Por que... – ele ainda fitava-me, mas percebendo que os olhos da irmã estavam nele, tornou a atenção para ela – não me perguntou se tinha conhecido alguém no supermercado.
Ela o fitou por um breve momento e se serviu.
- Savana, caso não tenha os apresentado; estes são meus filhos, Catharine e Jared. Eu ia apresentar meu irmão... Mas já se conheceram.
Olhei para ele, que me fitava com um sorriso malicioso indecifrável.
Terminamos o almoço; as crianças decidiram ir para o quintal com Carl e Sam, deixando toda louça para mim e Halle.
- Então... O que achou do Sam?
- Ele foi muito gentil, em me ajudar com as compras – já pressentia o que estava por vir.
- Só isso?! – retrucou.
- Bem; ele é bonito e muito simpático.
- Ora Savana, quer mesmo que eu acredite que ele só te ajudou com as compras?
- Mas foi isso que ele fez.
- Bem, mas não parece. Não pelo jeito que ele olhava pra você.
Fiquei sem jeito, preferi não responder. Apenas terminamos a louça e fomos para o quintal.
- Tenho que dizer que as costeletas não estavam como eu queria – disse Sam, sentado numa cadeira tomando cerveja – estavam melhores – completou rindo da cara de frustração da irmã.
Ao passar por ele, Halle deu-lhe uma t**a de leve no ombro.
Sentei-me numa cadeira ao lado dele.
- Quando disse que queria vê-la de novo, não pensei que fosse ser tão rápido – disse tomando um gole da cerveja.
- Isso quer dizer que não gostou de me ver? – pigarreei.
- Sim. Não gostei – disse virando-se para mim – adorei – disse com um tom mais baixo.
Sorri envergonhada, e ele retribuiu.
Fazia muito tempo que não tinha um momento de descontração tão bom. Em um ambiente onde me sentia totalmente bem, em um ambiente familiar...
A tarde passou rápida; jogamos pôquer, 21 e um jogo que Carl tentou nos ensinar – era de cartas também – mas não adiantou só Sam pareceu entender o jogo um pouco melhor, desisti na primeira rodada.
Por volta das 19h40min anunciei que já ia.
- Mas já? – indagou Halle parecendo decepcionada.
- Sim. Tenho umas coisas pra resolver amanhã cedo.
- Tudo bem. Agradeço por ter vindo.
- Eu que agradeço pelo convite – respondi gentilmente. Ele tinha razão, entre passar uma tarde inteira enfurnada dentro do casarão, e ter um almoço em “família”, a segunda opção ganhava de dez á zero em cima da primeira.
- Volte mais vezes Savana – disse Carl.
- Irei acompanhá-la – disse Sam.
Minha casa ficava á alguns metros de distancia, mas ele fez questão de ir me deixar até a porta.
- Pronto! Está entregue – disse.
- Obrigada, não me sentia tão bem assim há muito tempo.
Ele olhou fixamente em meus olhos, seus lábios ficaram entreabertos, como se fosse falar alguma coisa, mas ele hesitou e baixou a cabeça.
- Vai ficar por quanto tempo?
- Não sei... Preciso descobrir algumas coisas sobre a morte do meu pai.
- Ah... Senhor Gurney, bom homem.
- O conheceu?
- Sim. Não tanto quanto queria Halle sempre muito prevenida, não queria que eu andasse com um velho bêbado – ele hesitou quando disse – desculpe.
- Tudo bem – respondi com um sorriso amarelo.
O silêncio pairou novamente entre nós, era aquele tipo de silêncio que me atormentava, sabia o que estava por vir. Era aquele silêncio que se precedia de uma aproximação leve de dois corpos abrasadores de desejo, que depois se tornaria um leve toque de mãos, depois de bocas; que se tornaria um beijo ardente que posteriormente se tornaria numa lubricidade incontrolável.
Ele ainda me fitava, e o desespero tomou mais ainda conta de mim, quando ele subiu um degrau da escada da varanda. Ele tocou a fita do meu vestido que estava solta e balançava com o vento frio da noite.
- Acredita em predestinação?
- Como assim? – retruquei confusa.
- Que as pessoas estão predestinadas umas as outras, e que quando elas se encontram, ocorre o amor á primeira vista.
- Não.
Ele levantou os olhos e observou minha expressão de certeza sobre aquilo que estava dizendo.
- Tudo bem – disse soltando a fita e olhando em direção á sua casa e descendo a escada – boa noite.
- Boa noite. Agradeça por favor, novamente á Halle, e diga que as costeletas estavam ótimas.
- Pode deixar. Aparece por lá quando quiser. Vai ser... Bom ver você.
- Tudo bem, apareço sim.
Dei-lhe um sorri que ele retribui e seguiu em frente, para sua casa.
Pus a chave na fechadura, destranquei a porta e entrei.
Acendi a luz da sala, mas mesmo assim, a escuridão pairava no casarão. Como papai conseguiu viver tanto tempo aqui sozinho – pensei. Tirei as sapatilhas e subi para o quarto. Troquei de roupa e desci trazendo alguns travesseiros e lençóis finos que havia encontrado. Ajeitei o sofá e deitei. Desde quando cheguei, não consegui dormir um dia se quer no meu antigo quarto, nem mesmo no de hospedes; algo no andar de cima da casa me atormentava, até mesmo durante o dia.
Uma pequena fresta de luar entrou pela janela e iluminou um pouco mais a sala, juntamente com a TV ligada, só mesmo por conta claridade. Decidi desligar a TV e ficar somente com a claridade da lua. Lembrei-me do pesadelo que tive com o homem do enterro, pensei sobre o cara esquisito me vigiando no supermercado mais cedo e pensei em Sam; na sua gentileza, na sua maneira doce de me fazer sentir bem, me sentir em casa. Acabei adormecendo pensando em seus finos traços logo abaixo do nariz, formando um sorriso.