Acordei com batidas incessantes na porta da frente.
- Bom dia – disse uma mulher acompanhada por um homem.
- Bom dia – respondi; ajeitando a roupa – em que posso ajudar?
- Sou Halle e este é meu marido Carl. Somos os Hill’s, seu pai era nosso vizinho.
- Ah... Sim – respondi sem jeito. Afinal, o que eles queriam?!
- Ficamos sabendo que o enterro será hoje...
- Ah sim. Mas será algo rápido. Não quero nenhum tipo de velório ou cerimônia do tipo.
- Claro. Entendo. Bem... Só viemos dizer que estamos aqui do lado, caso precise de algo – disse a mulher de olhos enormes e azuis. Seu marido assentiu afirmando.
- Obrigada.
Logo ao darem as costas, fechei a porta.
A noite passara tão rápido assim?! A última coisa que me lembro, é de ter adormecido no sofá, depois de passar a tarde toda chorando. Depois acordei algumas poucas vezes para ver a hora, e me arrastei até meu antigo quarto.
Fui ate a sala e peguei o celular. Havia cinco novas mensagens. A primeira era de Kori, que me lembrava de que devia ter ligado para ela assim que o avião pousasse; acabei esquecendo. Respondi que estava tudo bem. A segunda também era; dela dizendo que havia conseguido um encontro, apenas li. As três últimas eram de Jerry, que não conseguiu dizer tudo em uma só mensagem. Fala o quão furioso Mark estava comigo e que faria de tudo, para nenhuma outra agência de Manhattan me contratasse.
Li cada mensagem repetidas vezes, mas preferi não me ocupar naquilo; tinha coisas mais importantes para resolver naquele momento.
Exatamente as 09h30min da manhã, o corpo de meu pai chegou ao pequeno cemitério de Roseburg. Fiquei pensando se mamãe havia sido enterrada ali também; papai nunca me dissera nada sobre isso.
Um homem velho com vestimentas brancas, com detalhes em vermelho, aproximou-se de mim.
- Podemos começar senhorita? – assenti e ele começou a pequena cerimônia antes de enterrar meu pai.
Pensei que fosse demorar mais do que deveria, mas o padre também parecia impaciente e logo deu o perdão e as bênçãos finais, para que o corpo fosse enterrado.
Logo o caixão de meu pai estava dentro da cova; peguei um punhado de areia e joguei, depois só observei em silêncio os homens terminarem de jogar a areia em cima do caixão.
Uma pequena fila, com no máximo sete pessoas se formou diante de mim.
- Meus pêsames querida – disse Halle – já sabe: se precisar de alguma, é só me procurar – seu marido apenas assentiu.
O ultimo da fila, era um homem alto, que aparentava ter quase cinquenta anos. Alguns fios brancos, já eram perceptíveis em sua cabeça.
- Me chamo Lawrence Talbot – disse educadamente, enquanto indicava-me sua mão para apertá-la – fui um grande amigo de seu pai. Ele deve ter lhe falado sobre mim...
- Na verdade, ele nunca me falou muito sobre os amigos deles, mas pelo pouco que conversávamos, ele nunca lhe citou.
- Estávamos afastados nos últimos anos, mas sempre fomos muito próximos.
Um arrepio correu por minha pele.
Os olhos do homem pareciam mudar de cor. Estava oscilando do azul quase verde, para um vermelho sangue. Permaneci perplexa e imóvel. Algo nele me atraia, mas não era uma atração comum, era como se fosse algo que não pudesse negar que sentia. A euforia que sentia passou o medo de estar sozinha também; e tudo que restou, foi um vazio, que foi preenchido por uma força descomunal. Uma vontade enorme de correr e gritar correu pelo meu corpo.
Peguei-me fitando profundamente nos olhos daquele estranho, e quando soltei sua mão; senti que todo aquele sentimento de libertação, estava indo embora; por um breve momento, tive uma enorme vontade de agarrá-la e entregar-me, mas apenas o fitei tentando entender o que tinha sido aquilo.
- O senhor... – o que ele pensaria se eu falasse tudo isso? Talvez achasse que estava ficando louca.
- “O senhor...”?
- O senhor deve mesmo ser amigo de meu pai; já que esta aqui. Agradeço muito por ter vindo.
- Eu que agradeço – disse de forma cortes e saiu.
O observei ir embora. Ele caminhava calmamente, demonstrava confiança e destreza perante os outros.
Um carro preto apareceu e ele entrou no banco traseiro.
Ao chegar a minha casa, joguei as chaves no balcão da cozinha e sentei.
Observei os objetos tudo em seus lugares, como mamãe sempre deixava. Tornei a chorar incontrolavelmente.
A morte de meu mexera muito comigo, era coincidência demais que sua morte tenha sido um tanto parecida com a de minha mãe.
Mesmo perfil de cicatriz; uma marca funda no pescoço.
Devia ter algo que pudesse explicar o porquê de tudo isso; e eu estava disposta a descobrir.
Deixei os pensamentos de lado e os pus em pratica.
Fui ao antigo escritório do papai e vasculhei gavetas, livros que estavam sobre a mesa; nada. Vi algumas anotações, mas nada relevante.
Ele tinha uma enorme instante, com todos os tipos de enciclopédias, de todo tipo assuntos possíveis e existentes.
Olhei cada uma delas, mas de anormal.
Passei para o outro lado da sala, para uma pequena mesinha, mas ela estava vazia.
Recostei-me nela e voltei a pensar – se papai tivesse algum segredo, onde ele esconderia?! – tornei o olhar para a instante de livros que acabara de vasculhar, e deparo-me com uma “falha”.
Faltava um livro, na prateleira de cima.
Aquilo levantou suspeita, porque papai sempre fora; muito organizado e tinha um ciúme descomunal por seus livros, dos quais chamavam de “meus bebes”.
Peguei uma cadeira e tentei alcançar.
O nome da seção estava desgastado, mas começava com L.
Corri os dedos pelos livros que faziam parte da seção; Portas do Inferno; Cúmplices do d***o; As Dez Sentenças do Inferno e O Homem de Terno Azul Cobalto. Tomei este ultimo, já que pelo título não parecia ter algo tão diabólico.
Folheei algumas páginas. Encontrei uma delas marcada por um papel com anotação. Corri o dedo pela parte marcada de caneta.
De longe avistei aquele homem bem vestido; seu terno bem alinhado e bem passado. Seus sapatos lustrados devidamente, seu cabelo totalmente recatado para trás, com poucos fios escapando por sua testa; o que fazia ressaltar ainda mais sua personalidade única.
Ele aproximou-se calmamente, como se ninguém o esperasse, mas só eu sabia quanto estava ali parado, esperando por sua chegada, estava ansioso para que nosso negócio fosse fechado.
- Prazer – disse o homem estendendo-me a mão – sou Lúcifer.
Seus olhos pigarrearam e senti que minha vida jamais seria a mesma depois daquele dia.
Larguei o livro sob a mesa, jogando-o por cima das anotações.
O título me enganara facilmente.
Decidi que nada daquilo iria me ajudar. Sai do escritório batendo a porta atrás de mim.
O restante da manhã passou calmamente. Assisti TV, lavei a louça suja do almoço, arrumei a sala; mesmo que não esperasse visitas.
Eram 20h30min da noite, quando decidi ligar para Kori.
Chamou tanto que caiu. Acabei desistindo.
Liguei para Jerry. No segundo toque atendeu.
- Como você está? – indagou.
- Bem, eu acho. E você?
- Na medida do possível – disse com uma risadinha de desagrado por estar longe de mim – pensei que fosse ligar assim que chegasse...
- Acabei esquecendo. Desculpa.
- Tudo bem.
- E o trabalho?
- A fúria do Mark parece que está passando... Mas ele ainda está uma fera com você, e a Kori que tá pagando o pato. Como você não esta mais aqui, ele jogou todo seu trabalho pra ela.
- Ela deve ter adorado... – disse imaginando Kori dando em cima de Mark.
- Ela sim... Mas ele nem um pouco.
- Como assim?
- Ele pergunta todos os dias á ela se você deu noticias. Perguntou ate pra mim.
- Vocês não disseram onde estou não é?! – retruquei eufórica e amedrontada só de pensar que Mark sabia onde eu estava. Não sei o porquê dessa reação, mas fiquei em alerta.
- Claro que não. Falei pra Kori dizer que você viajou ás presas e escondida até de nós.
- Obrigada.
- Não por isso.
- Tenho que desligar. Estou exausta.
- Tudo bem. Liga amanhã?
- Ligo sim.
- Então... Boa noite.
- Boa noite Jerry.
Desliguei o celular e tornei a pensar o motivo de Mark querer saber onde estou. Talvez queira descontar o chute que lhe dei, a humilhação que o fiz passar...
Um sono profundo tomou conta de minha mente. Ajustei-me para assistir TV enquanto pegava Fred que estava na mesinha á minha frente, mas o sono me venceu e acabei adormecendo.
Estava tão exausta; o dia havia sido longo e estar em um cemitério, não é um dos melhores lugares para se “visitar” quando se voltar para casa.
Apesar da exaustão, tinha um sono leve, por qualquer barulho acordava atordoada, e com um barulho h******l que ouvi, seria impossível não acordar.
Saltei do sofá com o surto. O barulho vinha do andar de cima. Hesitei por um momento, ficando próxima á janela, caso fosse alguém, daria para pular.
O barulho parecia um arranhado, com uma espécie de chiado, ou algo do tipo. Era como se estivesse afastando alguma coisa pesada.
O barulho cessou. A TV ainda estava ligada com volume baixo, aproximei-me e desliguei.
Ainda receosa de que fosse alguém e de que ainda estivesse lá em cima. Cheguei perto da escada e a observei por um momento. Sem nenhuma manifestação de barulho, subi alguns degraus. O barulho tornou, recuei os degraus que havia subido.
- Quem está ai?! – disse para a escuridão diante das escadas.
- Quem está ai?! – disse mais alto. Mas sem resposta.
Subi mais alguns degraus; o suficiente para ver o final do corredor do andar de cima.
Hesitei por um breve momento antes de continuar subindo.
Cheguei ao andar de cima e dei de cara com a imensa escuridão que pairava sobre o ambiente. Tentei acender a luz, mas estava queimada – mais uma observação, trocar as lâmpadas pela manhã.
Aproximei da porta do meu antigo quarto, abri e não vi nada de anormal. Passei para o próximo quarto, que era o dos meus pais. Observei a porta por um momento, antes de tocar a maçaneta. Girei-a e abri. Vi um homem alto, não muito forte, de frente para a janela, ele olhava para o céu. Aproximei-me trêmula dele, mas parei quando ele olhou-me pelo canto do olho.
- Fico feliz que tenha voltado para nós Savana... – disse o homem com uma voz grossa e um pouco familiar.
- Quem é você? – indaguei ainda mais trêmula.
O homem apenas tornou o olhar para o céu.
- Quem é você e como sabe meu nome?!
O homem parecia fitar algo de muito importante no céu. De repente escuto uma batida forte atrás de mim; a porta havia se trancado. Forcei a maçaneta, mas de nada adiantou, quando viro para o homem, ele estava de frente para mim, de cabeça baixa.
- Tem certeza que não se lembra de mim? – disse com a voz ainda mais grossa, mas desta vez parecia estar distorcida. Quando ele levantou a cabeça, vi que aquele rosto era familiar; era o tal amigo de meu pai que fora ao cemitério. O que mais deixou atordoada foi os seus enormes olhos, brilhantes e intensos que variavam de cor; indo do laranja para o vermelho. Eram ardentes e tenebrosos ao mesmo tempo. Aqueles olhos eram os mesmos que me vigiavam durante a noite, quando a lua chegava e iluminava meu quarto pela janela.
Fiquei pasma diante daquilo. Um medo tomou conta de mim, quando ele começou a se aproximar.
- O que quer?! – indaguei.
Ele apenas se aproximou mais.
O desespero tomou conta de mim. Comecei a bater fortemente na porta e a gritar, mas de nada adiantou; a porta não abriu e ninguém parecia escutar.
Virei para fitar o homem e para enfrentá-lo se preciso fosse, mas ele havia desaparecido.
Senti-me mais aliviada e cai sentada no chão. Respirei fundo algumas vezes de cabeça baixa. Quando levanto a cabeça, vejo o que parecia ser um cachorro vindo em minha direção; era enorme, seu pelo preto brilhava na escuridão e seus enormes olhos vermelhos alaranjado miravam em mim. Ele parecia vir de longe, como se o quarto fosse maior do que parecia ser. Quando ele estava prestes a abocanhar minha cabeça, cai no chão com um sobressalto do susto.
Alguém estava batendo na porta. Peguei o celular e fitei as horas; 07h45min da manhã. Tudo não havia passado de um sonho – pesadelo.
- Bom dia – disse Halle com um sorriso enorme e convidativo no rosto.
- Oi... Bom dia – respondi sonolenta.
- Sei que acabamos de nos conhecer, e que foi num momento muito r**m pra você... Mas... Gostaria de lhe convidar para um almoço.
- Almoço? – retruquei sem percebe que pareci um pouco instigante demais. O que de m*l poderia ter em um almoço?!
- Sim. Meu irmão estava voltando e estou preparando um banquete especial para ele. E como você tem estado sozinha; achei que você gostaria de ter um pouco de companhia.
- Ah, claro. Agradeço muito pelo convite, mas...
- Ora, vai dizer que tem coisa melhor pra fazer, nesse casarão velho; e sozinha?!
Apesar de ser um pouco metida, ela tinha razão.
- Mas, só se não for incomodar...
- Se fosse incomodar, não viria lhe chamar.
- Então... Agradeço o convite e digo que sim. Irei.
- Ótimo! – disse dando pulinhos – estarei esperando você.