IVARSEN
— Está lindo, meu filho — minha mãe elogia, parando ao meu lado.
De frente ao espelho, sorrio sem mostrar os dentes. Ela se aproxima e ajusta a minha gravata.
— Eu sei que ir a um lançamento não é fácil para você, mas é o CEO da Mackenzie Royal, precisamos da sua presença. — Assinto, recebendo um beijo estalado em minha bochecha.
O som da porta sendo aberta chama a nossa atenção. Uma cabeleireira de cachos loiros surge no limiar da porta e olhos azuis cinzentos disparam em minha direção. Engulo em seco, a observando se aproximar timidamente.
A cada passo dado em minha direção, é como se a ferida que estava lentamente cicatrizando no meu peito se abrisse novamente.
Sete anos se passaram, mas olhando para Paige em minha frente, é como se estivesse vendo-a, a minha Grace.
— Ei, não devia estar na cama? — pergunto e, hesitante, acaricio a sua bochecha.
Paige balança a cabeça com um sorriso travesso. Seus cachos dourados balançando sobre seus ombros.
— Só queria… dar um beijo de boa noite, papai.
Ajoelho-me na sua frente e beijo a sua testa. Paige arregala os olhos, mas não se afasta. Obviamente está surpresa pelo meu gesto de carinho. Confesso que eu também. Levanto-me, esfrego a ponta do seu nariz e me afasto.
— Querida, já está na hora de dormir, seja uma boa garota, ok? — minha mãe fala docemente, se inclinando para beijar o topo da sua cabeça.
Ela assente. Logo Adele, a babá, aparece e leva Paige para dormir.
— Paige, a cada dia que passa, fica ainda mais linda. E muito parecida com a…
— Por favor, mãe — a interrompo com um olhar suplicante.
— Desculpa, filho. Mas já está na hora de sair desse luto eterno. Paige precisa de você. Ela precisa de um pai presente. — Suspira. — Grace não aprovaria isso. Ela se foi e você precisa entender isso de uma vez. Ivar…
Balanço a cabeça, negando.
— Ainda dói aqui dentro, mãe. — Bato em meu peito e vejo seu olhar de pesar sobre mim.
— Vai passar, filho. Você só precisa deixá-la ir. Quem sabe não aparece alguém que te faça feliz, como Grace fez.
Desvio o meu olhar do seu.
Não sei se conseguirei amar alguém como amei Grace. Ela ainda está enraizada dentro do meu peito. Por mais que eu me esforce, é difícil seguir.
— Não é tão fácil assim, mãe. Grace foi minha esposa, namorávamos desde a faculdade, casamos e tivemos nossa filha. Ela… foi arrancada de mim. Nossa história… — Silencio-me quando uma onda de tristeza me invade. Minha mãe se desculpa e me puxa para um abraço caloroso.
— Eu sei como é perder alguém que se ama, Ivar. — Sim, minha mãe sabe, meu pai se foi há três anos, assim como Grace. — Com o tempo, a dor desaparece e somente boas lembranças nos acompanham. Eu sei que lá fora há uma mulher para você e sei que ela o fará muito feliz. — Acaricia minha face e se inclina estendendo o braço direito para mim. — Agora vamos, temos um lançamento para comandar. Anton já está na festa e nos aguarda. Não confio no seu irmão quando se tem bebida e mulheres ao seu alcance — lamenta em tom dramático.
Seguimos para fora da mansão, encontrando Ulisses, o motorista da família, mantendo a porta do Bentley aberta para nós. Ele ajuda minha mãe entrar com um sorriso cortês. Olho para onde minha velha Ferrari vermelha está estacionada e um déjà-vu explode através das minhas pálpebras.
Balanço a cabeça, dissipando esses pensamentos, me sentindo nostálgico. Talvez minha mãe esteja certa, e devo realmente virar a página ou esse sentimento de perda e vazio irá me rasgar de dentro para fora.
— Ivar? — Desvio meu olhar para minha mãe, que franze o cenho em confusão. — Faça-me companhia… — Assinto e deslizo para o banco, pairando ao seu lado.
Minha mãe m*l pode disfarçar o sorriso de satisfação e, pela primeira vez em anos, me sinto bem em fazê-la feliz.
Chegamos ao grande edifício Royal onde está acontecendo o lançamento da nossa nova coleção. Uma comoção nos espera do lado de fora e respiro profundamente, preparando-me para ser o grande CEO que minha mãe e todos esperam. Abotoo o primeiro botão do meu terno Armani preto e desço, estendendo a mão para minha mãe, ajudando-a a descer. Flashes são disparados em nossa direção. Forço um sorriso e, escoltados pelos nossos seguranças, adentramos ao edifício. Meu pai ficaria orgulhoso de ver como a Mackenzie Royal evoluiu. Nossas peças são consideradas a epítome da beleza. Não discordo. Usamos matérias-primas de qualidade, além de ter a melhor design que esse mundo já conheceu. Alicia tem o gosto apurado, sabe aproveitar cada pedacinho que lhe for dado. Seu olhar é delicado, sonhador.
Ela não almeja criar somente joias, ela deseja que quem esteja usando se sinta uma. Exclusiva e única. Nessa coleção, ela combinou a elegância dos diamantes, a cor vibrante da esmeralda e o requinte das pérolas brancas e negras. Cada peça expressa a sensualidade, as formas e as curvas femininas. Notavelmente Alicia acertou em cheio na coleção “Essence” ao julgar pelos olhares apreciativos e encantados de todas as convidadas.
Minha mãe pede licença e se afasta para falar com alguns convidados, e eu faço o mesmo, circulando e socializando com algumas pessoas. Sentindo-me um pouco cansado, vou até o bar e sirvo-me com uma boa dose de uísque, só assim poderei encarar a série de bajuladores que saltam em mim como abutres.
De canto de olho, vejo Alícia se aproximar com um sorriso radiante. Minha prima está perfeita e com um sorriso selvagem. Ao contrário de mim, ela exala frescor e se agarra a vida como pode. Ela para ao meu lado e pisca parecendo satisfeita.
— Senhor Ivarsen Mackenzie Royal. — Faz uma referência que me faz reprimir a vontade insana de revirar os olhos. — Primo, hipoteticamente falando e se você fosse o meu tipo, o que sabemos que obviamente não é, eu pegaria você — murmura com um riso de diversão.
Encolho os ombros, soltando uma risada baixa.
Alícia é minha prima e a nossa principal design de joias. Seu humor sempre se destaca por ser ácido com uma pitada de sarcasmo. Nos damos bem, Alícia sempre foi como uma irmã mais nova, pena que não podemos dizer o mesmo de Anton. Os dois batem de frente sempre que compartilham o mesmo espaço. Anton é mimado e odeia ser contrariado, e Alícia é ousada e não suporta o ego gigantesco do meu irmão caçula.
Seus olhos castanho-escuros estão vidrados em uma mulher de vestido vermelho que acaba de chegar, a quem minha mãe recebe com um sorriso brilhante. Curiosidade me invade e me pego observando a mulher mais do que o necessário.
Ela é linda. Sua beleza é diferente, exótica, letal. O tipo que encanta, seduz e você se dá conta que apenas uma olhada não é o suficiente. Seu corpo é incrível, e o contraste do vermelho aguça ainda mais a sua beleza.
Observo-a morder o lábio inferior discretamente enquanto mamãe acaricia um de seus braços e a encara profundamente. Ela se inclina e sussurra algo em sua orelha e seu corpo estremece.
O que diabos minha mãe falou para ela?
Então acontece tudo muito rápido e, antes que eu pudesse pensar, seus olhos com um lindo tom de verde me olham atentamente.
Tento piscar, mas é inútil. Estou concentrado na sua imagem, que é boa demais para perder um segundo sequer. Seus longos cílios piscam uma, duas, três e seus lábios cheios se separam com um meio suspiro. Ela rapidamente quebra o nosso contato visual.