IVARSEN
— Linda, secreta e mortal. — Ouço Alicia sussurrar na minha orelha. Balanço a cabeça, voltando minha atenção para ela. — Ela! — Aponta discretamente com o queixo. Não preciso me virar, sei de quem ela está falando. — Não concorda, primo?
Encolho os ombros e bebo mais uma dose de uísque. Alícia continua divagando, e não me contenho, meus olhos a procuram novamente. A vejo ao lado do bar, na companhia de uma loira. As duas sorriem e algo inquietante percorre o meu peito.
Aperto o copo que está entre meus dedos com mais força que o necessário e a marca da minha antiga aliança me chama a atenção.
Droga, o que estou fazendo?
Viro-me como se meu corpo estivesse pegando fogo e peço licença para Alícia, saindo para longe.
— Onde está indo? Esqueceu que temos o lançamento acontecendo? — Anton diz, atravessando o meu caminho.
Respiro fundo e tento manter a calma, pelo menos até a festa acabar. Ele tem razão. Sou o CEO da Mackenzie, não posso sair e deixá-los no comando de tudo. É o que sempre venho fazendo desde a morte da minha esposa. É hora de tomar as rédeas da minha vida.
— Eu só estava indo tomar um pouco de ar.
Anton estreita os olhos castanhos, parecendo não convencido com o que falei.
— Certo. Prepare-se, mamãe, com certeza, fará você discursar.
Assinto, eu já esperava por isso e digamos que estou mais do que preparado. Enfio a mão no bolso da minha calça, tocando o meu trunfo, o rápido discurso que anotei em um guardanapo de papel. Levanto meu copo de uísque para ele, que dá de ombros, girando em seus calcanhares, indo em direção a um grupo de modelos que acaba de chegar.
— É uma linda festa, Ivarsen. Seu pai ficaria orgulhoso de você — Garrett, um dos sócios, diz ao se aproximar.
Nós nos cumprimentamos com um aperto de mão e ele apresenta a sua jovem acompanhante. Header é uma ruiva bonita e, seguindo os padrões do meu sócio, deve ter dez anos a menos que ele. Não é segredo para ninguém que ele tem um fraco por mulheres mais jovens e às vezes recorre a serviços de acompanhantes.
— Obrigado, Garrett. Realmente amo o que eu faço. — Ele acena. Conhecimento passando através dos seus olhos negros.
Garrett sabe que, depois do que houve com Grace, vivi para Mackenzie e, por consequência, me afastei de Paige. Por mais que eu quisesse aparentar que estava tudo bem, não estava. Afundei minha cabeça no trabalho como uma avestruz na areia e esqueci que existia um mundo à minha volta. Não me dei conta de como deixei minha única filha solitária.
Novamente luto contra os meus pensamentos. Eles são sombrios, melancólicos, não posso deixá-los me dominar mais uma vez. Paige precisa de mim, e é isso que eu darei a ela.
Algumas poucas palavras são trocadas entre nós, até ele e Header pedirem licença. Giro meu corpo, avistando a bela morena de minutos atrás à frente da grande vitrine de exposição. A loira ao seu lado aponta para um colar de ouro com uma linda esmeralda adornando o centro dele. Ando em direção a ela, parando a poucos centímetros.
— Ficaria linda com esse colar, Si. Seus olhos são como essa esmeralda.
Fico em silêncio, escutando a loira sussurrar para a garota, que sorri e balança a cabeça negando.
— Joias como essa são superestimadas.
Sua voz é quente e aveludada, e é sútil ao ponto de querer escutá-la mais e mais.
Venço a pequena distância e limpo a garganta, chamando a atenção das duas. Percebo que a morena entreabre os lábios com um olhar de surpresa. A loira é ativa e sorri, acenando levemente. Ando até a vitrine e recolho o colar, viro-me para a mulher que tem os olhos verdes mais lindos em formato de pires que eu já vi e digo:
— Tem razão, a joias são superestimadas — inclino-me para mais perto, como se quisesse confessar-lhe algo —, mas eu sou o herdeiro de uma grande rede de joalherias, então risque o que eu acabei de dizer, isso será um segredo só nosso. — Dou de ombros e me afasto, embriagado pelo aroma marcante do seu perfume.
— Ivarsen Mackenzie… — sussurra meu nome, como se experimentasse o som saindo de seus lábios carnudos.
Arqueio uma sobrancelha e estendo o colar gentilmente em sua direção.
— Como já compartilhamos a mesma opinião, deixe-me pelo menos mostrar-lhe que superestimados podem surpreender.
Ela morde o lábio inferior, mantendo a carne delicada entre os dentes. Sua amiga, que nos observava sem ao menos disfarçar, se aproxima dela, segurando seu pulso.
— É só por essa noite. E eu te disse, essa joia foi feita para você, Siena.
Seus olhos verdes deslizam para os meus e, com um pequeno sorriso, ela acena. Circulo o seu corpo e resisto a vontade de tocar a sua pele levemente bronzeada. Não ousaria, por mais que meu corpo esteja esboçando sinais estranhos quando estou tão próximo dela. Peço para segurar seus fios castanhos para que eu possa prender o feixe. Após ter colocado o colar em seu pescoço delgado, ela gira em seus calcanhares.
— Como estou? Já posso ver o seu ponto?
Meus lábios se contraem com sua pergunta. Novamente tomado por um impulso e invadindo seu espaço pessoal, seguro seus ombros e o contato quente da sua pele me faz paralisar por alguns segundos. Reajo, reassumindo os meus sentidos, e a conduzo para o grande espelho que fica à direita, nossa imagem é refletida em alta definição e seus olhos brilham quando ela vê o resultado.
— Veja, a peça ficou linda em você e realçou a cor dos seus olhos. Talvez não seja superestimada ter uma joia adornando outra. Mas o encanto é o mesmo, quase letal, Siena.
Ouvir-me pronunciando seu nome a fez estremecer. Percebi como isso a deixou atordoada. Ela não falou o seu nome, mas sua amiga, sim, e seu nome ecoa em minha mente desde então.
— Senhor? — Desvio o meu olhar dela e vejo Pierre, responsável por cada joia em exposição no lançamento, trajando um elegantíssimo terno preto, olhando entre mim e Siena.
Obviamente o fato de Ivarsen Mackenzie colocar umas das nossas peças mais valiosas no pescoço de uma desconhecida chamou a atenção.
— Essa noite a senhorita Siena…
Olho para ela.
— Leblanc — responde.
— Leblanc — repito —, usará uma de nossas peças.
— Mas…
Arqueio uma sobrancelha, e ele se cala, assentindo e anotando o nome de Siena em um grande caderno de couro preto em suas mãos.
— Tenho que ir, aproveite a noite, Siena — digo, vendo um misto de constrangimento e algo mais brilhar em seus olhos verdes.
Ela pende a cabeça levemente.
— Obrigada — diz e sorri em agradecimento.
Apenas concordo com a cabeça e meus olhos viajam para o seu colo, onde a benevolente esmeralda repousa. Observo a queda e a ascensão do seu peito e como a pedra se encaixa e contrasta perfeitamente com sua pele bronzeada. Eu poderia ficar horas embebido por essa imagem, mas não posso. Não costumo ter esse comportamento e muito menos essa reação com uma mulher, desde… Grace. E isso me assusta. Ergo a cabeça e meu olhar encontra o verde profundo de Siena. Nós nos olhamos por breves segundos e, dessa vez, sou o primeiro a quebrar o contato visual.
Aceno para a sua amiga e, com um último olhar para a bela morena, me despeço sem esperar por sua resposta.
— Tenha uma ótima noite, Siena Leblanc.