IVARSEN
— Droga! — rosno, socando o volante com força.
Como eu pude sair assim do seu apartamento, sem ao menos lhe dar uma explicação decente?
Os olhos verdes aflitos de Siena piscam na minha mente, e um nó se forma na minha garganta. Não posso negar o quão insuportável estava resistir a ela. Tem algo acontecendo entre nós, e isso ficou muito claro quando nos beijamos na sala de espelhos. Eu queria mais dela, sentir seus lábios nos meus, o calor da sua pele, o seu cheiro. E, quando a vi tão secretamente linda dentro do seu quarto, o meu instinto falou mais alto. Eu a tomei para mim, reivindiquei Siena como minha e teria ido além, mas, quando olhei para ela, sexy, chamando por mim, por um momento fugaz, foi Grace que eu vislumbrei entregue a todas as sensações avassaladoras do orgasmo. Foi a voz da minha mulher sussurrando e gemendo de prazer. Então eu surtei e o sentimento de traição invadiu o meu peito. É como se eu estivesse sujando todas as nossas lembranças.
Eu me forço a respirar fundo e tentar limpar a minha mente que está um caos. Preciso pedir desculpas a Siena, ela merecia muito mais que eu ofereci. Dirijo o mais rápido possível para casa, encontrando a mansão silenciosa e escura, assim como estou me sentindo por dentro.
Passo no quarto de Paige e a vejo dormir tranquilamente. Sua respiração suave, expressão serena, ela é a dose de tranquilidade que meu coração precisava nesse momento.
Olho para a sua mesinha de cabeceira e vejo o seu porta-retrato favorito. Fecho os olhos e suspiro. Lembro-me perfeitamente dessa fotografia, fui eu que tirei. Grace havia feito um piquenique no jardim, e Paige tinha apenas um ano. Era uma manhã de primavera e o sol estava radiante, assim como o seu sorriso. Ela pegou nossa filha nos braços e olhou para mim.
— “Que tal tirar uma foto das suas meninas favoritas? — cantarola, piscando seus olhos azuis como o mar do caribe. Sorrio e beijo seus lábios, alcançando a minha velha máquina fotográfica.
— Eu amo vocês! — murmuro, afastando-me delas para pegar um melhor ângulo.
E, antes que eu possa tirar a foto, coloco a máquina para baixo e encaro sua face. Admirando-a em silêncio, gravando cada detalhe. Observo seus lindos cachos loiros caídos contra sua face, seus lábios rosados exibindo o sorriso mais lindo e brilhante que os meus olhos já viram. Grace parecia um anjo, o meu anjo. Então seus olhos encontraram os meus e é como se nada à nossa volta existisse.
— Eu amo você, Ivarsen… Sempre vou amar”.
Desvio o meu olhar para longe, obrigando-me a empurrar essas lembranças de volta para a minha mente. Olho novamente para Paige ainda adormecida e inclino-me, deixando um beijo suave em sua testa, a cubro e dou-lhe um último olhar antes de deixá-la e ir para meu quarto.
Esfrego minha face, cansado e completamente atormentado por todas as minhas lembranças. De um lado, tem Grace e todos os momentos que vivemos juntos; do outro, está Siena. O gosto viciante dos seus beijos e o seu olhar que é capaz de despertar uma avalanche de sensações dentro de mim.
Retiro minha camisa e a lanço em um canto qualquer, jogando-me na cama em seguida. Fito o teto e fecho os olhos. Ainda posso sentir o seu cheiro inebriante em meus dedos e o seu gosto que eu não resisti e provei assim que a deixei ofegante e confusa em sua cama.
Porra! Estou ficando louco.
Não posso magoá-la e fazê-la pensar que posso dar-lhe algo mais que sexo. Mas eu a quero tanto.
Siena foi a primeira mulher a balançar o meu mundo e a despertar sensações que eu jurava não poder sentir nunca mais. Mas depois dessa noite… O que eu fiz com ela…
Jesus! Siena deve me achar um completo babaca.
Luto com o turbilhão de pensamentos e finalmente adormeço. Mas nada impediu-me de me afogar em um par de olhos verdes e ouvir sua voz aveludada sussurrando, gemendo o meu nome com verdadeiro fervor.
Na manhã seguinte, após um banho frio, senti-me revigorado e pronto para encarar mais um dia. Olho-me no espelho mais uma vez e termino de ajustar o nó da minha gravata cinza. Checo as abotoaduras e alcanço o meu celular e a pasta sobre a cama. Exalo ruidosamente de repente, sentindo um nervosismo incomum. Siena já deve ter chegado, e eu não sei como reagirei a ela.
Desço para tomar o café da manhã, encontrando Finn na entrada do jardim. Como de costume, adoramos o contato com o ar livre pela manhã, desde a época de Grace.
Sinto uma pontada de decepção quando não a vejo à mesa. Apenas minha mãe, Paige e Adelaide estão presentes. Forço um sorriso e me aproximo delas.
— Bom dia! — cumprimento-as com um sorriso.
Vou até Paige, inclino-me, deixando um beijo rápido no topo da sua cabeleira loira e, em seguida, ando até a minha mãe, beijando sua testa.
Ela olha para mim com um largo sorriso.
— Bom dia, meu filho. Como foi sua noite, se divertiu? — pergunta, m*l disfarçando sua curiosidade.
Aceno com um sorriso, sentando-me ao lado de Paige, tocando a ponta do seu nariz.
Mesmo não fazendo contato visual, posso sentir os olhos da minha mãe em mim.
— Siena… ela não veio hoje? — sondo, erguendo os olhos para a minha mãe.
Ela beberica calmamente o seu suco de laranja e acena com a mão livre.
— Sim. Siena é muito pontual — diz, orgulhosa. — A convidei para se juntar a nós, mas ela recusou, falando que havia tomado café com sua colega de apartamento. Ela está no escritório, organizando a minha agenda da semana.
Concordo, sentindo um arrepio percorrer a minha espinha.
Se minha intuição estiver certa, Siena está me evitando. Isso significa que a magoei mais do que imaginei.
Minha mãe começa a fazer perguntas, querendo saber todos os detalhes da noite. Respondo pacientemente, uma vez ou outra olhando para a mansão.
Quando Adelaide acompanha Paige para escola, aproveito e me despeço da minha mãe. Invento uma desculpa qualquer que acabei esquecendo um documento no meu quarto e retorno para dentro da mansão.