SIENA
Encolho-me contra a janela, escutando a porta deslizar suavemente, e uma respiração trêmula escapa meus lábios.
Há quem eu quero enganar? Ivarsen me afeta muito mais do que imaginei e a nossa noite foi só a ponta do iceberg. Eu não posso continuar com isso, não posso. Quando olhei em seus olhos e vi arrependimento e vulnerabilidade brilhando através deles, a armadura que construí para me proteger se partiu um pouco e, antes que ela pudesse se desfazer por completo aos seus pés, coloquei a máscara da indiferença e o afastei para longe.
— Está tudo bem, Siena? — A voz suave de Josephine me faz ficar alerta.
— Está, sim — respondo-a com esboço de um sorriso gentil brincando em meus lábios.
Josephine acena e contorna a mesa, sentando-se atrás dela.
Gestos contidos, olhar atento, avaliando-me como se pudesse ver através de mim.
— Certo — diz lentamente, sua voz soando divertida, arrastando o indicador em um porta-retrato sobre a madeira.
— Falei com Alícia mais cedo e ela comentou sobre o acidente com o seu vestido e que Ivarsen deixou a festa para levá-la em casa — murmura, seus olhos azuis encontrando os meus. — Ivarsen está diferente, eu posso sentir isso. — Respiro internamente. — Em que pé estamos, querida? — Sua pergunta é acompanhada de um sorriso esperançoso.
Eu respiro quando começo a sentir a pressão esmagadora no meu peito só de lembrar dos nossos breves momentos juntos. E, encarando seus olhos, eu sei que não posso ir mais adiante.
— Nós nos beijamos — digo, abaixando o olhar. — Na verdade, Ivarsen tomou a iniciativa, mas logo se fechou e mostrou-se extremamente arrependido. Fico em silêncio escutando somente as batidas erráticas do meu coração.
Ergo o olhar novamente e a vejo suspirar fundo com um sorriso triste espalhado em seus lábios.
— Imaginei que meu filho teria muito que lidar, eu o conheço bem. Mas sei que logo seu coração fechado voltará a se abrir novamente.
Balanço a cabeça, tomando um minuto para respirar. Ando até ela e me sento na cadeira à sua frente.
— Eu… achei que poderia fazer isso, mas, na verdade, não posso — solto, o olhar cravado em minhas mãos descansando sobre o meu colo.
— Não pode ou não quer? — Sua pergunta direta me faz erguer a cabeça e olhá-la.
— Senhora MacKenzie, Ivarsen é diferente de todos os homens que eu conheci. — Suspiro fracamente. — Arrisco-me a dizer que é o melhor deles, e eu estou jogando com ele. Isso não é justo, eu só…
— Eu entendo, querida. Mas não minta para si mesma, sabemos o que está acontecendo aqui. Você está atraída por ele e isso só torna as coisas complicadas. Se quer desistir, entenderei e respeitarei a sua decisão, mas gostaria que continuasse trabalhando para mim.
Eu engulo em seco, surpresa por seu pedido. Abro minha bolsa, resgato o cheque do nosso acordo e estendo-o sobre a mesa. Seus olhos acompanham o meu movimento em silêncio.
— Eu sinto muito — sussurro para ela.
Ela recolhe o cheque e o guarda em uma gaveta, seus lábios franzidos em uma linha fina.
— Não sinta, não se aceitar o meu pedido.
Mordo o lado interno da minha bochecha e assinto sutilmente.
— Tudo bem. Eu aceito.
Sorrio. No fundo, me sentindo aliviada por não ter que voltar a minha velha vida. Acompanhante de luxo não faz mais parte dos meus planos.
— Ótimo! — exclama, satisfeita. — Voltemos ao trabalho então. Como está a minha agenda para hoje? — pergunta com um tom divertido.
Sorrio, alcançando o tablet em minhas mãos e começando a colocá-la a par de todos os seus compromissos quando um timbre conhecido me faz arrepiar. Droga! Estava ciente que uma hora ou outra iríamos nos encontrar, desde que Josephine deixou claro que ele tinha seu próprio apartamento, não achei que iria vê-lo tão cedo.
— Finalmente lembrou que tem mãe, não é, filho ingrato? — Josephine queixa-se, recebendo uma longa risada rouca em resposta.
— Mamãe… A senhora sabe que nenhuma mulher no mundo irá roubar o seu lugar no meu coração. Tem Anton para todas! — murmura, andando até ela, deixando um beijo no topo da sua cabeça, arrancando uma gargalhada forte e intensa de Josephine.
Fico em silêncio até seus olhos devassos encontrarem os meus. Anton arqueia uma sobrancelha, seus olhos inelegíveis em minha direção piscando enquanto me estudam calmamente.
— Mmm… Siena Leblanc… — exala, uma pontada de um sorriso zombeteiro aparecendo em seus lábios. Ele se afasta e olha para sua mãe como se exigisse uma explicação.
— Ela é a minha nova assistente — explica com um simples encolher de ombros, recebendo um sorriso condescendente dele.
Anton esfrega seu queixo, olhando-me de cima a baixo.
— Acho que fez um ótimo negócio, mãe. Siena é muito… eficiente. — Estala com uma risada maliciosa.
Josephine bufa e lhe envia um olhar de alerta.
— Não seja grosseiro, Anton. E exijo que a trate com respeito. Não vou tolerar esse tipo de comportamento com os meus funcionários.
Anton parece não se afetar pelo alerta da sua mãe e pisca para mim com um sorriso.
— Mãe, qual é? Siena e eu já nos conhecemos, muito bem por sinal. Não é como se eu estivesse desrespeitando-a. Não é mesmo, gata? — Anda em minha direção, segurando o meu queixo, obrigando-me a olhar para ele.
Desvio meu olhar e retiro o seu toque com um leve grunhido.
— Anton! — Josephine diz entredentes, o fazendo levantar as mãos em rendição.
— Eu sei o que está acontecendo aqui, mamãe. Não pense que sou como Ivarsen, que não consegue enxergar um palmo diante do seu nariz — debocha em tom amargo. — Primeiro enche-me de perguntas sobre ela, depois obriga-me a enviar convites do lançamento e agora isso… — Olha para mim, deixando muitas palavras não ditas em suspense entre nós. — Não desistiu ainda? Ivarsen não é um fantoche que pode manipular sempre que tiver vontade, já devia ter aprendido sobre isso. O que ele dirá quando souber…
— Cale-se! — ela ordena com um olhar afiado.
— Eu sou sua mãe e me deve respeito. Não devia me julgar, você mais que ninguém sabe o quão doloroso é ver alguém que você ama se afundar e não poder fazer nada a respeito — sussurra e vejo um lampejo de emoção cruzando os seus olhos.