Capítulo 13 - Churrasco

1379 Palavras
O sol m*l tinha nascido e Cecília já estava a caminho do trabalho. O dia começou como qualquer outro: ônibus lotado, calor, cheiro de comida de rua e a cidade acordando aos poucos. Ela seguia o caminho quase no automático, os pensamentos ainda presos à noite passada — ou melhor, à última semana inteira. Mais tarde no restaurante da dona Ivonete, tudo parecia igual. O cheiro de café fresco, o barulho das panelas, o riso das clientes e a correria das mesas. Mas para Cecília, cada detalhe era um lembrete de que FK não estava ali, não aparecera e, provavelmente, não apareceria tão cedo. Ela suspirou e tentou se convencer: melhor assim. Melhor não se envolver. Melhor manter distância. Melhor proteger o coração que, secretamente, batia mais rápido toda vez que pensava nele. — Tá cabisbaixa de novo? — perguntou Maia, chegando com duas bandejas. — Não… só pensando. — Cecília respondeu, forçando um sorriso. Maia se sentou, apoiando o queixo nas mãos. — Cissa, é normal. — disse, baixinho. — Ser virgem, inocente, ainda acreditar em contos de príncipe… quem nunca se iludiu? Cecília riu fraco, envergonhada. — Eu sei… mas… — ela engoliu seco — ele não é… Eu não devia nem pensar nisso. — Eu sei, amiga. — Maia respondeu, colocando uma mão no ombro dela. — Mas o coração não pergunta se é certo ou errado. Ele só sente. E a gente tem que aprender a lidar com isso. Cecília respirou fundo, tentando acalmar a confusão interna. — Talvez você tenha razão… — murmurou. — Melhor mesmo manter distância. Maia sorriu, compreensiva. — Isso mesmo. Agora foca no trabalho, no que a gente tem de fazer. O resto a gente deixa pro tempo. Cecília assentiu, e por alguns minutos, a rotina do restaurante, o som de pratos e risadas, trouxe um pouco de conforto. Mesmo com o coração inquieto, ela tentava acreditar que o melhor era se afastar de FK. E, pela primeira vez desde o beijo no beco, sentiu uma pontinha de paz — mesmo sabendo que, por dentro, nada seria mais igual. --- O sol já se punha quando os primeiros convidados começaram a chegar na mansão de FK. O cheiro de carne assando na churrasqueira misturava-se com o perfume das mulheres que passeavam pelo gramado da piscina e o ronco de motores das motos estacionadas na garagem. Era o aniversário de PH, e a celebração prometia ser cheia de música, risadas e, claro, poder — o poder de FK pairando sobre todos, silencioso e implacável. Cecília estava relutante. — Eu não queria vir… — murmurou para Carla, enquanto ajustava a mochila. — Relaxa, cê vai se distrair. — respondeu Carla, arrastando-a pelo braço. — E eu não ia perder essa festa, ainda mais que é na casa dele. Cecília engoliu em seco. Casa de FK. Lugar que ela ainda associava a olhares intensos, ao beijo no beco e a uma mistura de medo e desejo que ela não conseguia controlar. Quando entraram, FK não estava visível de imediato, mas a presença dele parecia ocupar cada canto da mansão. O escritório ao fundo, a segurança circulando, a postura impecável de quem manda e controla tudo. Cecília sentiu o estômago apertar. — Vai lá pegar uma bebida — Carla sussurrou. — Eu te acompanho. Ela obedeceu, tentando ignorar os olhares inevitáveis do morro, mas não os de FK. Ele surgia e desaparecia entre os convidados, sempre silencioso, sempre observando. Cecília ficou petrificada quando percebeu que ele a havia notado ao passar perto da mesa da churrasqueira, sem se aproximar, mas com aquele olhar cor de mel fixo nela. — Feliz aniversário, PH! — disse Cecília, colocando a bebida na mão do amigo. — Obrigado, Cecília! — respondeu ele, sorrindo. — Cê sempre anima meu dia. Enquanto todos se divertiam, Carla conversava com PH, Maia ajudava na cozinha e até Miguel corria pelo gramado, Cecília se mantinha em alerta. Juliana já tinha chegado com Clara, rindo alto, mexendo com todos ao redor, lembrando de sua presença constante no morro. O cheiro da carne assando, a música de funk tocando no fundo, o barulho da piscina… tudo isso criava um cenário perfeito e perigoso ao mesmo tempo. E Cecília sabia que, por mais que quisesse ficar distante, não conseguiria ignorar FK, observando cada movimento dela, escondido em algum canto da festa. O jogo de proximidade e distância estava só começando, e a tensão podia ser cortada com uma faca. --- O churrasco estava rolando, e o barulho da piscina, da música e das conversas chegava até a cozinha da mansão. Cecília entrou para buscar água, procurando um momento de paz em meio à agitação da festa. Tiago estava lá, carregando algumas travessas para o salão. — Ei, você veio se esconder na cozinha? — perguntou, sorrindo. — O pessoal lá fora tá enlouquecendo com a música, e você vem se trancar aqui? Cecília riu fraco, aliviada por ver alguém conhecido. — Só precisava de um momento de tranquilidade. Tiago assentiu, compreendendo. — Aqui tá tranquilo, pelo menos ninguém vai te perturbar. — Ele colocou a travessa na bancada e olhou para ela com cuidado, percebendo que ela parecia um pouco tensa. Do outro lado da cozinha, dona Helena passava entre os utensílios, ajustando pratos e supervisionando a organização da festa. Ela não conhecia Cecília, mas cumprimentou-a brevemente com um aceno discreto, sem quebrar o ritmo do trabalho. — Boa tarde, moça. — disse, com cordialidade. — Boa tarde, dona Helena. — respondeu Cecília, mantendo o respeito, mas sem se aproximar. Tiago deu um meio sorriso. — Respira fundo, vai ficar tudo bem. — disse, percebendo que Cecília ainda carregava a tensão de estar na mansão de FK. Ela assentiu, tentando organizar os pensamentos. — Obrigada, Tiago. Só… preciso me manter ocupada. — Isso mesmo — ele concordou. — Aqui ninguém vai te incomodar. Pode aproveitar o momento de paz antes de voltar pro quintal. Cecília respirou fundo, sentindo um leve alívio. Por alguns minutos, apenas ajudou a organizar algumas travessas, esquecendo o morro, a festa e, principalmente, FK. Mas ao sair da cozinha, voltando para o quintal, ela sabia que a tensão ainda estava lá, escondida em cada canto da mansão, pronta para explodir a qualquer instante. --- O churrasco estava no auge. O som do funk batia alto, a piscina refletia luzes que dançavam sobre a parede da mansão, e o cheiro de carne assando misturava-se à fumaça do churrasco. Todos pareciam divertir-se, mas havia tensão no ar. Juliana, sempre ousada, começou a dançar perto de FK, fazendo graça, provocando, rindo alto. Ele estava sentado na cadeira ao lado da piscina, observando calmamente. No início, apenas ignorou. Mas a audácia dela mexeu com algo dentro dele. — Juliana… — murmurou, a voz baixa e firme, mas sem reação imediata. Ela apenas riu mais alto, girando provocante, chamando a atenção de todos. O corpo de FK tremeu de irritação. O sorriso sarcástico dela cortava mais fundo do que qualquer faca. Então, em um instante, algo dentro dele explodiu. O lado frio, implacável e sombrio de FK surgiu em toda a sua força. Em um movimento rápido, ele a puxou pelo braço e deu um tapa que fez o silêncio cair como uma lâmina sobre a festa. Juliana cambaleou, surpresa. Todos pararam. O riso e a música desapareceram de repente, substituídos pelo choque e pelo medo. PH foi o primeiro a reagir, tentando amenizar a tensão. — Ei… calma, chefe. Não precisa disso… — disse, aproximando-se devagar. Mas ninguém ousou falar mais nada. A presença de FK, gelada e intensa, fazia o ar tremer. O olhar dele, cor de mel e vazio, percorria cada pessoa ali, e todos sabiam que qualquer movimento errado poderia ser a gota d’água. Cecília estava ali perto, observando tudo. O coração batia acelerado, a respiração presa. O choque e o medo a dominaram, e ela viu a oportunidade de se afastar. Discretamente, fingindo buscar algo, se dirigiu ao banheiro, o corpo ainda trêmulo. — Eu preciso me acalmar … — murmurou para si mesma, tentando se acalmar. Ela não sabia se sentiria alívio ou ansiedade ao se trancar atrás da porta. O que sabia era que, por alguns minutos, precisava ficar longe da sombra de FK que pairava sobre todos ali. ---
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