O sol m*l tinha nascido e Cecília já estava a caminho do trabalho.
O dia começou como qualquer outro: ônibus lotado, calor, cheiro de comida de rua e a cidade acordando aos poucos.
Ela seguia o caminho quase no automático, os pensamentos ainda presos à noite passada — ou melhor, à última semana inteira.
Mais tarde no restaurante da dona Ivonete, tudo parecia igual.
O cheiro de café fresco, o barulho das panelas, o riso das clientes e a correria das mesas.
Mas para Cecília, cada detalhe era um lembrete de que FK não estava ali, não aparecera e, provavelmente, não apareceria tão cedo.
Ela suspirou e tentou se convencer: melhor assim.
Melhor não se envolver. Melhor manter distância. Melhor proteger o coração que, secretamente, batia mais rápido toda vez que pensava nele.
— Tá cabisbaixa de novo? — perguntou Maia, chegando com duas bandejas.
— Não… só pensando. — Cecília respondeu, forçando um sorriso.
Maia se sentou, apoiando o queixo nas mãos.
— Cissa, é normal. — disse, baixinho. — Ser virgem, inocente, ainda acreditar em contos de príncipe… quem nunca se iludiu?
Cecília riu fraco, envergonhada.
— Eu sei… mas… — ela engoliu seco — ele não é… Eu não devia nem pensar nisso.
— Eu sei, amiga. — Maia respondeu, colocando uma mão no ombro dela. — Mas o coração não pergunta se é certo ou errado. Ele só sente. E a gente tem que aprender a lidar com isso.
Cecília respirou fundo, tentando acalmar a confusão interna.
— Talvez você tenha razão… — murmurou. — Melhor mesmo manter distância.
Maia sorriu, compreensiva.
— Isso mesmo. Agora foca no trabalho, no que a gente tem de fazer. O resto a gente deixa pro tempo.
Cecília assentiu, e por alguns minutos, a rotina do restaurante, o som de pratos e risadas, trouxe um pouco de conforto.
Mesmo com o coração inquieto, ela tentava acreditar que o melhor era se afastar de FK.
E, pela primeira vez desde o beijo no beco, sentiu uma pontinha de paz — mesmo sabendo que, por dentro, nada seria mais igual.
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O sol já se punha quando os primeiros convidados começaram a chegar na mansão de FK.
O cheiro de carne assando na churrasqueira misturava-se com o perfume das mulheres que passeavam pelo gramado da piscina e o ronco de motores das motos estacionadas na garagem.
Era o aniversário de PH, e a celebração prometia ser cheia de música, risadas e, claro, poder — o poder de FK pairando sobre todos, silencioso e implacável.
Cecília estava relutante.
— Eu não queria vir… — murmurou para Carla, enquanto ajustava a mochila.
— Relaxa, cê vai se distrair. — respondeu Carla, arrastando-a pelo braço. — E eu não ia perder essa festa, ainda mais que é na casa dele.
Cecília engoliu em seco.
Casa de FK.
Lugar que ela ainda associava a olhares intensos, ao beijo no beco e a uma mistura de medo e desejo que ela não conseguia controlar.
Quando entraram, FK não estava visível de imediato, mas a presença dele parecia ocupar cada canto da mansão.
O escritório ao fundo, a segurança circulando, a postura impecável de quem manda e controla tudo.
Cecília sentiu o estômago apertar.
— Vai lá pegar uma bebida — Carla sussurrou. — Eu te acompanho.
Ela obedeceu, tentando ignorar os olhares inevitáveis do morro, mas não os de FK.
Ele surgia e desaparecia entre os convidados, sempre silencioso, sempre observando.
Cecília ficou petrificada quando percebeu que ele a havia notado ao passar perto da mesa da churrasqueira, sem se aproximar, mas com aquele olhar cor de mel fixo nela.
— Feliz aniversário, PH! — disse Cecília, colocando a bebida na mão do amigo.
— Obrigado, Cecília! — respondeu ele, sorrindo. — Cê sempre anima meu dia.
Enquanto todos se divertiam, Carla conversava com PH, Maia ajudava na cozinha e até Miguel corria pelo gramado, Cecília se mantinha em alerta.
Juliana já tinha chegado com Clara, rindo alto, mexendo com todos ao redor, lembrando de sua presença constante no morro.
O cheiro da carne assando, a música de funk tocando no fundo, o barulho da piscina… tudo isso criava um cenário perfeito e perigoso ao mesmo tempo.
E Cecília sabia que, por mais que quisesse ficar distante, não conseguiria ignorar FK, observando cada movimento dela, escondido em algum canto da festa.
O jogo de proximidade e distância estava só começando, e a tensão podia ser cortada com uma faca.
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O churrasco estava rolando, e o barulho da piscina, da música e das conversas chegava até a cozinha da mansão.
Cecília entrou para buscar água, procurando um momento de paz em meio à agitação da festa.
Tiago estava lá, carregando algumas travessas para o salão.
— Ei, você veio se esconder na cozinha? — perguntou, sorrindo. — O pessoal lá fora tá enlouquecendo com a música, e você vem se trancar aqui?
Cecília riu fraco, aliviada por ver alguém conhecido.
— Só precisava de um momento de tranquilidade.
Tiago assentiu, compreendendo.
— Aqui tá tranquilo, pelo menos ninguém vai te perturbar. — Ele colocou a travessa na bancada e olhou para ela com cuidado, percebendo que ela parecia um pouco tensa.
Do outro lado da cozinha, dona Helena passava entre os utensílios, ajustando pratos e supervisionando a organização da festa. Ela não conhecia Cecília, mas cumprimentou-a brevemente com um aceno discreto, sem quebrar o ritmo do trabalho.
— Boa tarde, moça. — disse, com cordialidade.
— Boa tarde, dona Helena. — respondeu Cecília, mantendo o respeito, mas sem se aproximar.
Tiago deu um meio sorriso.
— Respira fundo, vai ficar tudo bem. — disse, percebendo que Cecília ainda carregava a tensão de estar na mansão de FK.
Ela assentiu, tentando organizar os pensamentos.
— Obrigada, Tiago. Só… preciso me manter ocupada.
— Isso mesmo — ele concordou. — Aqui ninguém vai te incomodar. Pode aproveitar o momento de paz antes de voltar pro quintal.
Cecília respirou fundo, sentindo um leve alívio. Por alguns minutos, apenas ajudou a organizar algumas travessas, esquecendo o morro, a festa e, principalmente, FK.
Mas ao sair da cozinha, voltando para o quintal, ela sabia que a tensão ainda estava lá, escondida em cada canto da mansão, pronta para explodir a qualquer instante.
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O churrasco estava no auge.
O som do funk batia alto, a piscina refletia luzes que dançavam sobre a parede da mansão, e o cheiro de carne assando misturava-se à fumaça do churrasco.
Todos pareciam divertir-se, mas havia tensão no ar.
Juliana, sempre ousada, começou a dançar perto de FK, fazendo graça, provocando, rindo alto.
Ele estava sentado na cadeira ao lado da piscina, observando calmamente.
No início, apenas ignorou. Mas a audácia dela mexeu com algo dentro dele.
— Juliana… — murmurou, a voz baixa e firme, mas sem reação imediata.
Ela apenas riu mais alto, girando provocante, chamando a atenção de todos.
O corpo de FK tremeu de irritação.
O sorriso sarcástico dela cortava mais fundo do que qualquer faca.
Então, em um instante, algo dentro dele explodiu.
O lado frio, implacável e sombrio de FK surgiu em toda a sua força.
Em um movimento rápido, ele a puxou pelo braço e deu um tapa que fez o silêncio cair como uma lâmina sobre a festa.
Juliana cambaleou, surpresa.
Todos pararam.
O riso e a música desapareceram de repente, substituídos pelo choque e pelo medo.
PH foi o primeiro a reagir, tentando amenizar a tensão.
— Ei… calma, chefe. Não precisa disso… — disse, aproximando-se devagar.
Mas ninguém ousou falar mais nada.
A presença de FK, gelada e intensa, fazia o ar tremer.
O olhar dele, cor de mel e vazio, percorria cada pessoa ali, e todos sabiam que qualquer movimento errado poderia ser a gota d’água.
Cecília estava ali perto, observando tudo.
O coração batia acelerado, a respiração presa.
O choque e o medo a dominaram, e ela viu a oportunidade de se afastar.
Discretamente, fingindo buscar algo, se dirigiu ao banheiro, o corpo ainda trêmulo.
— Eu preciso me acalmar … — murmurou para si mesma, tentando se acalmar.
Ela não sabia se sentiria alívio ou ansiedade ao se trancar atrás da porta.
O que sabia era que, por alguns minutos, precisava ficar longe da sombra de FK que pairava sobre todos ali.
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