Capítulo 4 — A Verdade Não Observa. Ela Espera.

901 Palavras
Helena acordou com o coração disparado. O quarto estava escuro, o silêncio pesado demais para ser confortável. Por um segundo, ela não soube onde estava. O cheiro de fumaça parecia real demais. O calor, sufocante. Ela sentou na cama ofegante. — Não… — sussurrou. Outro pesadelo. Mas dessa vez, havia algo diferente. No sonho, ela não estava sozinha. Havia alguém puxando-a para fora das chamas. E quando ela tentou ver o rosto… era Rafael. Helena passou o dia inteiro inquieta. A sensação de que algo estava prestes a explodir a acompanhava como uma sombra. Clara tentou conversar, mas ela m*l ouviu. — Você precisa parar de sumir assim — Clara disse. — Parece que está sempre… fugindo. Helena levantou os olhos. — Fugindo de quê? Clara hesitou. — De si mesma. A frase caiu como um golpe. Naquela noite, Helena não tentou evitar. Não correu. Não mudou o caminho. Ela sabia que ele estaria lá. E estava. — Você demorou — Rafael disse, encostado no carro, como sempre. — Eu tive um pesadelo com você — Helena respondeu, direta. Ele ficou imóvel. — O que aconteceu no sonho? — Você me salvava de algo que eu não conseguia ver. Rafael desviou o olhar pela primeira vez. — Então está na hora de você ver. Ela sentiu o estômago gelar. — Ver o quê? Rafael abriu a porta do carro. — Entra. — Não. — Helena — a voz dele estava diferente. Mais dura. Mais real. — O que eu vou te mostrar não pode ser dito no meio da rua. — Isso está indo longe demais. — Sempre esteve — ele respondeu. — Você só começou a perceber agora. Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, ela entrou. O trajeto foi silencioso. A cidade passava pela janela como um borrão de luzes e sombras. Helena tentava controlar a respiração. — Para onde estamos indo? — perguntou. — Para o lugar onde tudo começou. O carro parou diante de um prédio antigo, parcialmente abandonado. Janelas quebradas. Marcas escuras nas paredes. Helena sentiu as pernas fraquejarem. — Não… — sussurrou. — Isso não. Rafael desligou o carro. — Você já esteve aqui antes. — Eu nunca vim a esse lugar. Ele a encarou. — Veio sim. Há sete anos. Helena riu, nervosa. — Eu lembraria. — Não lembraria — ele corrigiu. — Porque sua mente fez o que precisou para sobreviver. Ele abriu o porta-luvas e tirou uma pasta. Dentro, fotos. Do prédio em chamas. De ambulâncias. De uma garota coberta de fuligem sendo retirada pelos bombeiros. Helena sentiu o mundo girar. — Essa garota… — sua voz falhou. — É você. Ela negou com a cabeça. — Isso é mentira. — Não — Rafael disse, firme. — Isso é um relatório oficial. Ela folheou os papéis com as mãos trêmulas. — Tentativa de incêndio criminoso…? — leu em voz alta. — Duas vítimas fatais… O ar desapareceu dos pulmões dela. — Eu… eu nunca machucaria ninguém. — Não intencionalmente — Rafael respondeu. — Você estava em dissociação. Presa em um episódio traumático severo. Ela o encarou, os olhos cheios de lágrimas. — Como você sabe tudo isso? Rafael respirou fundo. — Porque eu estava lá. — Você… — Helena engoliu em seco. — Você era um bombeiro? — Não — ele disse. — Eu era o primeiro policial a entrar naquele prédio. O silêncio explodiu dentro dela. — Você me conhece desde então… — sussurrou. — Eu te encontrei inconsciente, segurando um isqueiro — Rafael continuou. — Repetindo o nome de alguém que te machucou por anos. Helena começou a chorar. — Eu não lembrava… — Não lembrar foi o acordo — ele disse. — Arquivo selado. Novo nome. Nova vida. Ela o encarou, em choque. — Então tudo isso… não foi coincidência. — Nunca foi. — Você me observava porque…? — Porque eu fui designado para te monitorar — Rafael confessou. — Para garantir que aquilo não acontecesse de novo. Helena sentiu algo se quebrar dentro do peito. — Então você se aproximou por obrigação. — No começo — ele disse. Ela riu em meio às lágrimas. — Claro. — Mas isso mudou — Rafael deu um passo à frente. — Mudou quando eu percebi que você não era o monstro que todos temiam. — E agora? — ela perguntou, a voz baixa. — O que eu sou para você agora? Rafael hesitou. — Agora você é o meu maior erro. — Porque se eu machucar alguém outra vez… — Helena sussurrou. — Não — ele a interrompeu. — Porque se eu continuar perto, eu perco tudo. Ela se aproximou dele, o rosto a poucos centímetros do seu. — E mesmo assim você não se afasta. Rafael fechou os olhos por um instante. — Porque toda vez que eu olho para você… — disse, a voz falha — eu esqueço de quem deveria estar protegendo quem. O silêncio entre eles era carregado de tudo que não podia ser dito. — Você mentiu para mim — Helena disse. — Eu te observei — ele respondeu. — Mas nunca deixei de te ver. Ela deu um passo para trás. — Eu preciso ficar sozinha. — Eu sei. Ela saiu do carro com o coração em ruínas. Rafael ficou ali, encarando o prédio em silêncio. Porque o maior perigo nunca foi Helena lembrar. Foi ele começar a desejar alguém que jamais deveria amar.
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