Helena não voltou para casa naquela noite.
Caminhou sem destino, como se o corpo estivesse em movimento apenas para fugir da mente. As ruas pareciam irreais, distantes, como se ela estivesse observando a própria vida através de um vidro embaçado.
Cada passo ecoava uma pergunta.
Eu fiz aquilo?
Eu machuquei pessoas?
Eu sou… perigosa?
Quando finalmente entrou no apartamento, trancou a porta com força demais. Escorregou pela parede até sentar no chão, puxando os joelhos contra o peito.
A memória não vinha inteira.
Vinham fragmentos.
Calor.
Gritos abafados.
O cheiro de fumaça que sempre voltava nos pesadelos.
— Não… — ela sussurrou, pressionando as mãos contra a cabeça. — Isso não sou eu.
Mas era.
Ou pelo menos, tinha sido.
O espelho do corredor refletia seu rosto pálido. Helena se levantou devagar e se aproximou. Observou os próprios olhos, como Rafael havia dito que ela evitava.
— Quem é você? — perguntou ao reflexo.
O silêncio respondeu.
⸻
Rafael passou a noite em claro.
O telefone vibrava sobre a mesa, ignorado. O dossiê de Helena estava aberto, exposto como uma ferida que ele nunca conseguiu fechar de verdade.
Ele tinha quebrado todas as regras.
Não era apenas vigilância.
Nunca foi.
— Eu devia ter me afastado — murmurou, passando a mão pelo rosto.
Mas então o celular vibrou de novo.
Dessa vez, ele atendeu.
— Cruz — uma voz masculina disse do outro lado. — Precisamos conversar.
Rafael ficou tenso.
— Não temos mais nada para conversar.
— Temos sim — a voz respondeu, fria. — Especialmente sobre ela.
O ar ficou pesado.
— O arquivo está selado — Rafael disse. — Você sabe disso.
— Estava — o homem respondeu. — Até alguém decidir reabrir.
Rafael fechou os olhos.
— Não encosta nela.
— Isso não depende mais só de você.
A ligação caiu.
Rafael ficou imóvel por alguns segundos.
Então pegou as chaves.
⸻
Helena estava sentada no escuro quando ouviu a batida na porta.
Seu corpo inteiro reagiu.
— Helena — a voz de Rafael soou do outro lado. — Abre. Por favor.
Ela demorou. Mas abriu.
Ele a encarou e sentiu o impacto.
Ela parecia menor. Mais frágil. Como se tivesse perdido algo essencial.
— Você não devia estar aqui — ela disse, a voz baixa.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas você também não devia ficar sozinha agora.
— Você decidiu isso por mim de novo?
Rafael respirou fundo.
— Alguém mexeu no seu arquivo.
O chão pareceu se mover sob os pés dela.
— O quê?
— Seu passado não está mais tão enterrado quanto eu prometi.
— Prometeu? — Helena riu, sem humor. — Você prometeu muitas coisas sem me perguntar nada.
— Eu sei — ele se aproximou um passo. — E eu vou pagar por isso.
— O que eles querem? — ela perguntou.
— Controle — Rafael respondeu. — E você é a moeda perfeita.
Helena sentiu o medo subir pela garganta.
— Eles acham que eu posso… perder o controle de novo?
— Eles querem que isso pareça possível.
Ela começou a tremer.
— Eu não confio em mim mesma — sussurrou. — E isso é o que mais me assusta.
Rafael a segurou pelos ombros, firme, mas cuidadoso.
— Olha pra mim.
Ela levantou o olhar.
— Você não é o que aconteceu com você — ele disse, com intensidade. — Você sobreviveu.
— E se eu machucar alguém outra vez?
— Então eu estarei entre você e o mundo — ele respondeu, sem hesitar.
Ela engoliu em seco.
— Isso vai te destruir.
— Talvez — ele disse. — Mas já destruiu no momento em que eu me apaixonei por alguém que eu devia apenas vigiar.
O silêncio explodiu entre eles.
— Não diz isso — Helena sussurrou.
— É tarde demais.
Ela se afastou um passo.
— Se eles me usarem… se fizerem você escolher…
— Eu já escolhi — Rafael respondeu. — E essa é a parte que ninguém pode desfazer.
Helena se aproximou lentamente. Não houve toque imediato. Apenas proximidade. Respirações desencontradas.
— Se ficarmos aqui — ela disse — não tem volta.
Rafael apoiou a testa na dela, os olhos fechados.
— Eu sei.
— Isso pode acabar muito m*l.
— Quase tudo que importa acaba — ele respondeu.
Ela fechou os olhos.
E naquele instante, sem precisar dizer mais nada, os dois cruzaram a linha invisível que ainda os separava do abismo.
Não houve promessa de salvação.
Apenas a certeza de que, a partir dali,
qualquer queda seria juntos.