Helena não dormiu.
Mesmo com Rafael ali, sentado no sofá, em silêncio, como uma sentinela, o corpo dela se recusava a descansar. Cada vez que fechava os olhos, imagens desconexas surgiam — luzes vermelhas, vozes distantes, alguém gritando seu nome com desespero.
Ela se levantou de repente.
— Você não precisa ficar — disse, abraçando os próprios braços.
Rafael levantou o olhar lentamente.
— Preciso sim.
— Isso vai acabar m*l — ela insistiu.
— Já está acabando — ele respondeu. — A diferença é que agora eu sei de que lado estou.
Helena caminhou até a janela, afastando levemente a cortina. A rua parecia normal demais. Pessoas comuns. Vidas comuns.
— Eu queria ser como eles — sussurrou. — Ignorar o passado. Acordar sem medo do que posso ser.
Rafael se aproximou, mantendo uma distância mínima, respeitosa — mas carregada.
— Você não é perigosa por sentir — ele disse. — É perigosa porque tentaram te quebrar e falharam.
Ela virou o rosto.
— E se eles estiverem certos? E se eu for… instável?
— Então eles vão tentar te empurrar até cair — Rafael respondeu. — E é exatamente isso que não vou permitir.
O celular dele vibrou.
Helena percebeu o instante exato em que o rosto de Rafael mudou.
— É eles, não é? — perguntou.
Rafael não respondeu de imediato.
— Fala comigo — ela exigiu, a voz tremendo.
— Eles querem te ver — ele disse por fim. — Querem provocar. Forçar uma reação.
— Eu sou um experimento pra eles.
— Não — Rafael corrigiu. — Você é uma ameaça ao sistema que eles controlam.
Helena sentiu um arrepio.
— O que você vai fazer?
Rafael respirou fundo.
— Eles me deram uma escolha.
— Qual?
— Entregar você… ou te proteger e me tornar o próximo alvo.
Ela riu, nervosa.
— Isso nem é uma escolha.
— É — ele respondeu. — Porque se eu cair, você fica sozinha.
Helena se aproximou dele, o olhar fixo.
— Você acha que eu sobrevivi tudo isso pra assistir você se destruir por mim?
— Eu sobrevivi coisas demais pra fingir que não me importo — ele rebateu.
O silêncio entre eles era elétrico.
— Eles sabem onde eu moro? — ela perguntou.
— Ainda não — Rafael disse. — Mas estão perto.
Como se o universo quisesse confirmar suas palavras, um barulho metálico ecoou do lado de fora do prédio.
Helena gelou.
— Você ouviu isso?
Rafael fez um gesto para que ela ficasse atrás dele. Caminhou até a porta, observando pelo olho mágico.
— Tem alguém no carro em frente — murmurou. — Motor ligado. Vidros escuros.
— Eles vieram me buscar?
— Não — ele respondeu, sério. — Vieram te lembrar que podem.
Helena sentiu o peito apertar.
— Eu não aguento mais ser controlada.
— Então não seja — Rafael disse, virando-se para ela. — Faz exatamente o que eles não esperam.
— O quê?
— Confia em mim.
Ela o encarou, os olhos cheios de medo e algo mais profundo.
— Essa confiança pode me destruir.
— Ou pode te libertar.
Ela hesitou. Então assentiu.
— O que eu faço?
Rafael se aproximou, a voz baixa, firme.
— Amanhã, você vai comigo. Vai ouvir tudo. Vai lembrar do que tentaram apagar.
— E se eu quebrar?
Rafael tocou o próprio peito, uma promessa silenciosa.
— Então eu quebro com você.
Helena sentiu lágrimas escorrerem.
— Isso é loucura.
— Não — ele disse. — Isso é guerra.
Do lado de fora, o carro finalmente foi embora.
Mas a ameaça ficou.
Helena encostou a testa no peito de Rafael, sem pedir permissão, apenas buscando equilíbrio. Ele não a abraçou de imediato — deu a ela a escolha.
Quando ela não se afastou, ele pousou a mão em suas costas, firme, protetor.
Ali, naquele gesto silencioso, algo se consolidou.
Não era segurança.
Era aliança.
E alianças feitas no escuro
sempre cobram um preço alto.