Capítulo 6 — Quando a Verdade Começa a Caçar

661 Palavras
Helena não dormiu. Mesmo com Rafael ali, sentado no sofá, em silêncio, como uma sentinela, o corpo dela se recusava a descansar. Cada vez que fechava os olhos, imagens desconexas surgiam — luzes vermelhas, vozes distantes, alguém gritando seu nome com desespero. Ela se levantou de repente. — Você não precisa ficar — disse, abraçando os próprios braços. Rafael levantou o olhar lentamente. — Preciso sim. — Isso vai acabar m*l — ela insistiu. — Já está acabando — ele respondeu. — A diferença é que agora eu sei de que lado estou. Helena caminhou até a janela, afastando levemente a cortina. A rua parecia normal demais. Pessoas comuns. Vidas comuns. — Eu queria ser como eles — sussurrou. — Ignorar o passado. Acordar sem medo do que posso ser. Rafael se aproximou, mantendo uma distância mínima, respeitosa — mas carregada. — Você não é perigosa por sentir — ele disse. — É perigosa porque tentaram te quebrar e falharam. Ela virou o rosto. — E se eles estiverem certos? E se eu for… instável? — Então eles vão tentar te empurrar até cair — Rafael respondeu. — E é exatamente isso que não vou permitir. O celular dele vibrou. Helena percebeu o instante exato em que o rosto de Rafael mudou. — É eles, não é? — perguntou. Rafael não respondeu de imediato. — Fala comigo — ela exigiu, a voz tremendo. — Eles querem te ver — ele disse por fim. — Querem provocar. Forçar uma reação. — Eu sou um experimento pra eles. — Não — Rafael corrigiu. — Você é uma ameaça ao sistema que eles controlam. Helena sentiu um arrepio. — O que você vai fazer? Rafael respirou fundo. — Eles me deram uma escolha. — Qual? — Entregar você… ou te proteger e me tornar o próximo alvo. Ela riu, nervosa. — Isso nem é uma escolha. — É — ele respondeu. — Porque se eu cair, você fica sozinha. Helena se aproximou dele, o olhar fixo. — Você acha que eu sobrevivi tudo isso pra assistir você se destruir por mim? — Eu sobrevivi coisas demais pra fingir que não me importo — ele rebateu. O silêncio entre eles era elétrico. — Eles sabem onde eu moro? — ela perguntou. — Ainda não — Rafael disse. — Mas estão perto. Como se o universo quisesse confirmar suas palavras, um barulho metálico ecoou do lado de fora do prédio. Helena gelou. — Você ouviu isso? Rafael fez um gesto para que ela ficasse atrás dele. Caminhou até a porta, observando pelo olho mágico. — Tem alguém no carro em frente — murmurou. — Motor ligado. Vidros escuros. — Eles vieram me buscar? — Não — ele respondeu, sério. — Vieram te lembrar que podem. Helena sentiu o peito apertar. — Eu não aguento mais ser controlada. — Então não seja — Rafael disse, virando-se para ela. — Faz exatamente o que eles não esperam. — O quê? — Confia em mim. Ela o encarou, os olhos cheios de medo e algo mais profundo. — Essa confiança pode me destruir. — Ou pode te libertar. Ela hesitou. Então assentiu. — O que eu faço? Rafael se aproximou, a voz baixa, firme. — Amanhã, você vai comigo. Vai ouvir tudo. Vai lembrar do que tentaram apagar. — E se eu quebrar? Rafael tocou o próprio peito, uma promessa silenciosa. — Então eu quebro com você. Helena sentiu lágrimas escorrerem. — Isso é loucura. — Não — ele disse. — Isso é guerra. Do lado de fora, o carro finalmente foi embora. Mas a ameaça ficou. Helena encostou a testa no peito de Rafael, sem pedir permissão, apenas buscando equilíbrio. Ele não a abraçou de imediato — deu a ela a escolha. Quando ela não se afastou, ele pousou a mão em suas costas, firme, protetor. Ali, naquele gesto silencioso, algo se consolidou. Não era segurança. Era aliança. E alianças feitas no escuro sempre cobram um preço alto.
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