Capítulo 7 — O Nome Que Nunca Foi Esquecido

799 Palavras
O lugar para onde Rafael levou Helena não constava em mapas comuns. Era um prédio antigo do governo, escondido atrás de uma fachada abandonada, onde o concreto rachado escondia segredos que jamais deveriam voltar à luz. O ar ali dentro era frio demais, pesado demais. — Se ainda quiser ir embora, é agora — Rafael disse, a mão pousada sobre a maçaneta. Helena respirou fundo. — Se eu fugir de novo… eles vencem. Rafael a encarou por alguns segundos. Havia orgulho e medo misturados no olhar. — Então fica perto de mim. Não importa o que aconteça. Eles entraram. Um homem os esperava na sala principal. Terno escuro, postura rígida, olhos calculistas demais para alguém que dizia servir à justiça. Helena sentiu o estômago afundar antes mesmo de reconhecê-lo. — Não… — sussurrou. A memória veio como um impacto violento. Ela tinha quinze anos. Uma sala branca. Esse mesmo homem sentado à sua frente, dizendo que tudo ficaria bem… se ela esquecesse. — Doutor Álvaro Menezes — Helena disse, a voz trêmula. — Ou devo chamá-lo de diretor agora? O sorriso dele foi lento. Perigoso. — Fico impressionado que tenha se lembrado de mim. Rafael ficou tenso. — Então é você — disse, frio. — O senhor puxou os arquivos. — Eu criei os arquivos — Álvaro respondeu. — Eu criei vocês dois, de certa forma. — O que isso quer dizer? — Helena perguntou. Álvaro caminhou em círculos, como quem aprecia uma obra antiga. — O incêndio não foi um acidente isolado, Helena. Foi o resultado de anos de testes psicológicos. Você não foi a única criança observada. Helena sentiu a cabeça girar. — Testes…? — repetiu. — Traumas controlados — ele disse. — Gatilhos. Quebras emocionais. Queríamos saber até onde a mente humana podia ir… e voltar. — Você destruiu vidas — Rafael rosnou. — E salvamos outras — Álvaro rebateu. — Você mesmo é prova disso, Rafael. O silêncio caiu como uma bomba. Helena virou-se lentamente. — O que ele quer dizer? Rafael fechou os olhos. — Eu também fui um caso — confessou. — Antes de ser policial. Antes de te encontrar. O mundo de Helena desabou. — Então você não só me vigiava… — ela sussurrou. — Você fazia parte disso. — Não — Rafael se apressou. — Eu fugi quando entendi o que eles faziam. Mas você… você já estava marcada. Álvaro bateu palmas, satisfeito. — Um encontro perfeito, não acha? Dois sobreviventes. Duas bombas emocionais ambulantes. — Você nos reuniu de propósito — Helena disse, a raiva finalmente substituindo o medo. — Claro — ele respondeu. — Queria ver se vocês se estabilizariam… ou se explodiriam juntos. Nesse instante, alarmes soaram. Luzes vermelhas piscaram. — O que está acontecendo? — Helena perguntou. Álvaro suspirou, entediado. — O evento final. Rafael puxou Helena para trás de si. — Ele armou isso. Quer provocar um colapso. — Ou uma reação violenta — Álvaro corrigiu. — Precisamos de dados reais. — Você é um monstro — Helena disse. — Não — ele respondeu. — Sou um cientista. O chão tremeu levemente. Portas começaram a se fechar automaticamente. — Rafael… — Helena sussurrou. — Estamos presos. Rafael encarou Álvaro, o olhar carregado de ódio. — Cancela isso agora. — Não posso — ele disse. — Mas você pode. Rafael sentiu o golpe. — O quê? — Se você entregar Helena oficialmente como instável — Álvaro explicou —, o sistema é desligado. Ela volta a ser minha responsabilidade. Você sai limpo. Helena o encarou, em choque. — Rafael…? A escolha estava ali. Crua. Brutal. Traí-la… ou morrer com ela. Rafael olhou para Helena. Viu medo, sim. Mas também confiança. — Eu já fiz isso uma vez — ele disse, baixo. — Obedecer. Ele se virou para Álvaro. — Não desta vez. Puxou Helena pela mão e correu pelo corredor lateral enquanto o prédio tremia. — Confia em mim! — ele gritou. — Eu confio! — ela respondeu, mesmo com o coração em pânico. Uma explosão ecoou atrás deles. Vidros estilhaçaram. O calor voltou — e com ele, a memória final. Helena parou abruptamente. — Eu lembro… — disse, ofegante. — Eu não causei o incêndio. Rafael virou-se. — O quê? — Fui eu quem tentou salvar as outras crianças — ela disse, lágrimas misturadas à fuligem imaginária. — O fogo começou fora. Eles nos trancaram. Rafael sentiu o sangue gelar. — Então eles mentiram o tempo todo. — Sim — Helena disse. — E agora… eles vão pagar. Do lado de fora, o prédio começou a ceder. Mas Helena não era mais a garota que esqueceram no fogo. E Rafael não era mais o homem disposto a obedecer. Eles saíram correndo para a noite, sabendo que, a partir dali, não eram apenas sobreviventes. Eram uma ameaça.
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