O lugar para onde Rafael levou Helena não constava em mapas comuns.
Era um prédio antigo do governo, escondido atrás de uma fachada abandonada, onde o concreto rachado escondia segredos que jamais deveriam voltar à luz. O ar ali dentro era frio demais, pesado demais.
— Se ainda quiser ir embora, é agora — Rafael disse, a mão pousada sobre a maçaneta.
Helena respirou fundo.
— Se eu fugir de novo… eles vencem.
Rafael a encarou por alguns segundos. Havia orgulho e medo misturados no olhar.
— Então fica perto de mim. Não importa o que aconteça.
Eles entraram.
Um homem os esperava na sala principal. Terno escuro, postura rígida, olhos calculistas demais para alguém que dizia servir à justiça.
Helena sentiu o estômago afundar antes mesmo de reconhecê-lo.
— Não… — sussurrou.
A memória veio como um impacto violento.
Ela tinha quinze anos.
Uma sala branca.
Esse mesmo homem sentado à sua frente, dizendo que tudo ficaria bem… se ela esquecesse.
— Doutor Álvaro Menezes — Helena disse, a voz trêmula. — Ou devo chamá-lo de diretor agora?
O sorriso dele foi lento. Perigoso.
— Fico impressionado que tenha se lembrado de mim.
Rafael ficou tenso.
— Então é você — disse, frio. — O senhor puxou os arquivos.
— Eu criei os arquivos — Álvaro respondeu. — Eu criei vocês dois, de certa forma.
— O que isso quer dizer? — Helena perguntou.
Álvaro caminhou em círculos, como quem aprecia uma obra antiga.
— O incêndio não foi um acidente isolado, Helena. Foi o resultado de anos de testes psicológicos. Você não foi a única criança observada.
Helena sentiu a cabeça girar.
— Testes…? — repetiu.
— Traumas controlados — ele disse. — Gatilhos. Quebras emocionais. Queríamos saber até onde a mente humana podia ir… e voltar.
— Você destruiu vidas — Rafael rosnou.
— E salvamos outras — Álvaro rebateu. — Você mesmo é prova disso, Rafael.
O silêncio caiu como uma bomba.
Helena virou-se lentamente.
— O que ele quer dizer?
Rafael fechou os olhos.
— Eu também fui um caso — confessou. — Antes de ser policial. Antes de te encontrar.
O mundo de Helena desabou.
— Então você não só me vigiava… — ela sussurrou. — Você fazia parte disso.
— Não — Rafael se apressou. — Eu fugi quando entendi o que eles faziam. Mas você… você já estava marcada.
Álvaro bateu palmas, satisfeito.
— Um encontro perfeito, não acha? Dois sobreviventes. Duas bombas emocionais ambulantes.
— Você nos reuniu de propósito — Helena disse, a raiva finalmente substituindo o medo.
— Claro — ele respondeu. — Queria ver se vocês se estabilizariam… ou se explodiriam juntos.
Nesse instante, alarmes soaram.
Luzes vermelhas piscaram.
— O que está acontecendo? — Helena perguntou.
Álvaro suspirou, entediado.
— O evento final.
Rafael puxou Helena para trás de si.
— Ele armou isso. Quer provocar um colapso.
— Ou uma reação violenta — Álvaro corrigiu. — Precisamos de dados reais.
— Você é um monstro — Helena disse.
— Não — ele respondeu. — Sou um cientista.
O chão tremeu levemente. Portas começaram a se fechar automaticamente.
— Rafael… — Helena sussurrou. — Estamos presos.
Rafael encarou Álvaro, o olhar carregado de ódio.
— Cancela isso agora.
— Não posso — ele disse. — Mas você pode.
Rafael sentiu o golpe.
— O quê?
— Se você entregar Helena oficialmente como instável — Álvaro explicou —, o sistema é desligado. Ela volta a ser minha responsabilidade. Você sai limpo.
Helena o encarou, em choque.
— Rafael…?
A escolha estava ali. Crua. Brutal.
Traí-la…
ou morrer com ela.
Rafael olhou para Helena. Viu medo, sim. Mas também confiança.
— Eu já fiz isso uma vez — ele disse, baixo. — Obedecer.
Ele se virou para Álvaro.
— Não desta vez.
Puxou Helena pela mão e correu pelo corredor lateral enquanto o prédio tremia.
— Confia em mim! — ele gritou.
— Eu confio! — ela respondeu, mesmo com o coração em pânico.
Uma explosão ecoou atrás deles. Vidros estilhaçaram. O calor voltou — e com ele, a memória final.
Helena parou abruptamente.
— Eu lembro… — disse, ofegante. — Eu não causei o incêndio.
Rafael virou-se.
— O quê?
— Fui eu quem tentou salvar as outras crianças — ela disse, lágrimas misturadas à fuligem imaginária. — O fogo começou fora. Eles nos trancaram.
Rafael sentiu o sangue gelar.
— Então eles mentiram o tempo todo.
— Sim — Helena disse. — E agora… eles vão pagar.
Do lado de fora, o prédio começou a ceder.
Mas Helena não era mais a garota que esqueceram no fogo.
E Rafael não era mais o homem disposto a obedecer.
Eles saíram correndo para a noite, sabendo que, a partir dali, não eram apenas sobreviventes.
Eram uma ameaça.