Capítulo 03

928 Palavras
ND – O Braço Direito de TH O nome dele é Nando, mas todo mundo na Rocinha só conhece como ND. Desde pequeno, a vida não foi fácil. Nasceu e cresceu no mesmo labirinto de vielas, barracos e desafios que TH. Os dois se conheceram ainda crianças, com cerca de oito ou nove anos, quando a favela era, para eles, apenas um território onde era preciso sobreviver e aprender rápido. A infância de ND foi marcada por perdas e dificuldades. Seu pai era violento, mas não presente, e a mãe se desdobrava entre trabalhos, tentando manter a família unida. ND tinha irmãos menores, e desde cedo aprendeu a cuidar deles. O morro era sua escola: nele, cada passo podia ser decisivo, cada escolha podia salvar ou destruir. Ali, ele conheceu TH, um garoto um pouco mais velho, sério, observador, que tinha o mesmo olhar de quem não se deixa enganar pelo mundo. Os dois se tornaram inseparáveis rapidamente. Corridas pelas vielas, pequenos b***s, disputas com outros moleques do morro e, acima de tudo, a proteção mútua: quando um se metia em problema, o outro estava ali. Crescer lado a lado ensinou a ND muito sobre confiança, lealdade e observação. Ele aprendeu a ler o olhar de TH, a entender quando o amigo estava planejando algo, quando estava sério ou irritado. Era uma amizade construída na necessidade de sobreviver e se proteger. Na adolescência, ambos começaram a se envolver mais com os corres da favela. Nada de imediato ou grandioso, apenas pequenos serviços: entregar pacotes, cuidar de territórios menores, observar quem poderia ser uma ameaça. ND e TH sempre trabalhavam juntos, combinando estratégia, força e silêncio. Enquanto outros meninos brigavam por território ou status, eles observavam, aprendiam e planejavam. ND se destacava por inteligência e frieza, sempre calculando riscos, enquanto TH possuía aquela aura de respeito que impunha medo sem precisar levantar a voz. Com o tempo, os dois viraram dupla inseparável. ND confiava em TH como ninguém, e TH via em ND alguém em quem podia confiar de olhos fechados. Mesmo antes de TH assumir a chefia da Rocinha, a amizade deles já tinha se consolidado em torno de lealdade, estratégia e sobrevivência. Eles enfrentaram brigas com gangues rivais, policiais corruptos e traições dentro da própria comunidade. Cada desafio superado fortalecia o vínculo, e a confiança entre eles se tornava quase inquebrável. Quando TH começou a ganhar respeito e autoridade dentro do morro, ND já estava ao lado dele, pronto para agir. Ele não precisou conquistar a confiança de TH, porque já era merecedor dela. ND conhecia todos os atalhos, conhecia cada ponto da Rocinha, sabia quem podia confiar e quem era perigoso. Ele era a extensão da mente de TH na prática: enquanto o amigo comandava com frieza e calculismo, ND executava, protegia e fortalecia a posição de ambos. ND não era apenas braço direito; ele era a pessoa que mantinha tudo funcionando quando TH precisava de informações, decisões rápidas ou apoio estratégico. Ele entendia o morro como poucos, e sua visão de jogo era fundamental para que TH consolidasse sua autoridade. Nada passava despercebido aos olhos de ND: rumores, ameaças, oportunidades — tudo era analisado e transformado em vantagem para os dois. A lealdade de ND não era cega, mas era inquestionável. Ele sabia que a amizade com TH era o que permitia que ambos crescessem e sobrevivessem naquele mundo perigoso. E, acima de tudo, ele compreendia que confiar em alguém era raro e valioso. Sua vida inteira tinha sido marcada por perdas, traições e desilusões, mas com TH era diferente: juntos, eles eram imbatíveis. Mesmo com o poder e a fama que vieram depois, ND manteve a mesma frieza que cultivou desde cedo. Ele não se deixava levar por emoções ou distrações, não se apaixonava de forma que comprometesse suas decisões, e sempre colocava a lealdade à frente de qualquer sentimento pessoal. Ele era calculista, silencioso, certeiro. Enquanto TH impunha medo e respeito com presença e inteligência, ND era a força discreta que garantia que tudo funcionasse na prática. Hoje, ND é respeitado e temido tanto quanto TH, mas de uma maneira diferente. Ele não é o chefe; ele é o executor, o estrategista silencioso, o braço que mantém o poder funcionando. Mas quem conhece a história deles sabe que nada disso seria possível sem a amizade e a confiança que foram construídas muito antes da Rocinha reconhecer TH como chefe. Eles cresceram juntos, aprenderam juntos, lutaram juntos — e isso fez toda a diferença. A história de ND é, acima de tudo, uma história de sobrevivência, inteligência e lealdade construída na base da necessidade. Ele não escolheu ser braço direito de ninguém; ele escolheu caminhar ao lado de alguém em quem confiava completamente. E essa escolha o transformou em peça fundamental na lenda da Rocinha, um homem que entende a importância de cada decisão, cada movimento, cada aliado e cada inimigo. ND sabe que o respeito não é dado, é conquistado. Ele sabe que a lealdade é rara e preciosa. E ele sabe que, ao lado de TH, a Rocinha se torna um lugar onde poucos ousam desafiar a ordem. Ele é a mente prática, o executor confiável, o braço que mantém a comunidade funcionando. Um homem moldado pelo morro, pelo abandono e pelas dificuldades, mas também pela amizade verdadeira que sobreviveu a tudo. ND e TH são a prova de que, mesmo em um lugar tão c***l como a Rocinha, amizade, lealdade e inteligência podem transformar vidas e construir poder. E ND é o exemplo vivo disso: silencioso, frio, calculista, mas indispensável. ---
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