Capitulo 7

1038 Palavras
A partir daquele dia as semanas passavam lentamente, como se o tempo fosse algo a ser degustado em pequenas porções. Laura no fundo não sabia ao certo como se sentia em relação a isso. Em alguns dias, ela abraçava a calmaria, o ritmo arrastado da vida à beira-mar. Em outros, sentia uma inquietação crescer dentro dela, como se o tempo estivesse à espera que ela fizesse algo mais, algo grandioso, mas ela não sabia o quê. Quando chegou à cidade, Laura não tinha expectativas mas apenas a certeza de que precisava de um novo começo. Após anos sentindo-se perdida nas ruas movimentadas da cidade natal ela apenas se viu atraída pela promessa de algo mais simples, mais natural. E agora a pequena cidade à beira-mar parecia ser o lugar perfeito para uma pausa na sua vida. O começo não foi fácil. Ela sabia que não teria mais os contactos que fez na cidade grande, nem a facilidade de encontrar trabalhos de fotografia. Mas logo percebeu que naquela cidade, a lentidão tinha seu próprio charme. Em vez de correr de um compromisso para o outro, ela começou a aproveitar o tempo de forma diferente, respirando o ar fresco do mar e permitindo que seus pensamentos fluíssem sem pressa. Com seu olhar atento e sensível, logo se apaixonou pelas nuances da cidade. As ruas de paralelepípedos, os casarões antigos com janelas coloridas, as pequenas lojas familiares que vendiam lembranças, frutas frescas e artesanato local. No seu tempo livre, ela passeava sem rumo, fotografando tudo o que encontrava pelo caminho. Às vezes, se sentia como se estivesse a caçar uma história escondida em cada canto da cidade, como se as fotografias fossem pedaços de algo maior, algo que ela ainda não conseguia entender completamente. E quando menos esperou, ela encontrou os primeiros trabalhos de fotografia por acaso. Uma tarde enquanto caminhava pela praça central, foi abordada por o dono de um restaurante que estava a reformar o local e queria algumas fotos para a campanha de marketing. A proposta era simples mas Laura aceitou imediatamente, sentindo que esse trabalho seria o primeiro de muitos. E não estava enganada. Não demorou muito para que ela fosse chamada por outros empresários locais, pequenos cafés, estúdios de yoga e até um hotel boutique. A fotografia aos poucos voltava a ser sua fonte de sustento, mas o que mais gostava não era o dinheiro, e sim a possibilidade de capturar a essência da cidade através das suas lentes. A rotina de Laura se estabeleceu de forma tranquila e quase previsível. Durante o dia ela trabalhava nos seus projetos fotográficos, capturando imagens que retratavam a vida simples mas fascinante dos habitantes da cidade. Os pescadores, as mulheres que vendiam peixe fresco na praia, as crianças que brincavam com as ondas ou andavam de bicicleta pelas ruas estreitas. Cada cena parecia ter sido cuidadosamente desenhada pela própria cidade, e Laura sentia-se privilegiada por poder capturá-las. À noite, quando não estava editando as fotos ou respondendo a e-mails, ela explorava mais a cidade. Caminhava até o final do calçadão onde as dunas se encontravam com o mar, e ficava lá por horas, olhando para o horizonte perdida em pensamentos. Ela tentava ocupar a sua mente e a sua rotina ao máximo para não pensar muito. Pois cada vez que estava sozinha sem algo para ocupar a mente, ela via-se pensando em Ângelo. Não conseguia compreender o seu desaparecimento repentino, e apesar de ter falado com Ana sobre o assunto nada a tranquilizava. Ana dizia que era normal eles passarem alguns dias fora quando saíam para ajudar outros marinheiros na ilha vizinha, mas já se tinham passado 3 semanas e nunca demoravam tanto tempo. Ana sempre tentava manter o pensamento positivo quando o assunto vinha ao de cima, e quando não tocavam no assunto, ela tentava distrair Laura ao máximo para ela não pensar em muitas possibilidades. Ângelo era um rapaz daquela cidade, nunca a iria abandonar sem que os amigos mais próximos soubessem, mas mesmo eles, se sentiam perdidos sobre o assunto. Ninguém sabia nada sobre ele, e mesmo que tentassem esconder, todos começavam a ficar extremamente preocupados. Tinham havido várias tempestades próximas e se ele tivesse saido para o mar, o pior poderia ter acontecido, e ninguém queria pensar nessa possibilidade. Quarta semana sem notícias Na quarta semana sem saberem de nada sobre Ângelo, os amigos decidiram sair para o mar para o procurar. As tempestades tinham terminado e já era seguro começarem com as buscas. Todos queriam ter saído semanas mais cedo para o procurar, mas não iriam arriscar ficar presos também no oceano. Queriam encontrá-lo. Era urgente o fazerem. Mas se também eles ficassem presos no mar, seriam mais vidas em risco e não conseguiriam trazer Ângelo em segurança. E então naquele dia enquanto o sol começava a nascer, tingindo o horizonte de tons dourados, e a calmaria do mar trazia uma sensação de esperança, o barco começou a avançar lentamente pelas águas tranquilas, com todos a bordo atentos ao que poderia surgir à vista. A ausência de notícias sobre Ângelo há semanas gerava um peso silencioso nos corações dos amigos, mas a determinação de encontrá-lo os mantinha firmes. Cada onda que tocava a embarcação parecia carregar consigo a incerteza. O pensamento de que ele poderia estar perdido, à deriva em algum lugar distante, tornou-se uma sombra constante. Mas sabiam que só poderiam ajudar se fossem cuidadosos e seguissem com prudência. O primeiro lugar a procurar seria na ilha próxima dali, onde os habitantes sofriam sempre quando as tempestades mais fortes atacavam. Tinham esperanças que ele tivesse parado por ali por causa do mau tempo, ou até mesmo para ajudar, pois era normal alguns habitantes o chamarem quando precisavam de ajuda. Muitos da cidade não sabiam, mas Ângelo tinha nascido naquela ilha e apesar de já não ter nenhum familiar vivo, era muito querido por todos os ilhéus. E mesmo ele, fazia questão de ajudar quando precisavam e de visitar sempre que podia. Só não era normal estar tanto tempo fora da cidade. O máximo de tempo eram 3 a 4 dias e nunca mais que isso. E com esse pensamento, foram eles rumo à ilha, com toda a esperança do mundo nos seus corações.
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