Capitulo 8

1022 Palavras
Na quarta semana após a tempestade que havia assolado a ilha, Ângelo acordou cedo como de costume, mas naquele dia o céu estava diferente. O mar, que antes se mostrava revoltado e implacável, parecia mais calmo com as ondas batendo suavemente na costa, como se o próprio oceano tivesse finalmente se acalmado. Ele respirou fundo, com a sensação de que finalmente algo estava prestes a mudar. Nos últimos dias, ele já se começava a acostumar com a rotina de ajuda à comunidade local. Quando a tempestade tinha começado, os habitantes da ilha que já eram simples e acostumados a enfrentar dificuldades, estavam completamente desamparados. Eles não possuíam infraestrutura adequada para lidar com aquele tipo de desastre natural. As linhas de comunicação tinham ficado todas cortas, e as redes de pesca que eram a sua principal fonte de sustento, estavam danificadas. A ilha estava em total caos. Ângelo assim que a tempestade começou tinha sido contactado pelos habitantes para ajudar com os reparos, inicialmente com a esperança de que a situação fosse resolvida em alguns dias. No entanto, as tempestades e os danos no seu próprio barco o mantiveram preso na ilha por semanas. Ele estava ali para dar apoio, mas com o tempo, o que parecia uma missão temporária transformou-se numa estadia forçada. O isolamento e a falta de comunicação começaram a pesar, e as semanas começavam a parecer cada vez mais longas. Foi quando nessa manhã, um som familiar que cortou a tranquilidade do mar o fez parar no meio de seus pensamentos. O barulho de um motor ao longe, vindo do horizonte. Ele correu até a praia e com os olhos fixos no ponto onde o som se intensificava, viu finalmente o que tanto esperava: um barco pequeno, mas com um movimento seguro, se aproximando da costa. Ao se aproximar mais, Ângelo reconheceu as figuras a bordo. Não eram pescadores da ilha, nem desconhecidos. Eram os seus amigos de infância, os pescadores da sua cidade. Eles tinham vindo procurá-lo, depois de semanas sem notícias. - Ângelo! - gritou Tomás, o mais velho dos amigos, assim que viu o pescador à beira da praia. - Estávamos desesperados. Achávamos que tinhas desaparecido! Como estás ? O alívio no rosto de Ângelo foi evidente. Ele correu até o barco, sem saber se ria ou se chorava. Estava finalmente a ver rostos conhecidos, pessoas com quem sempre havia compartilhado risadas e dias de pesca. A viagem até a ilha tinha sido longa e árdua, mas agora ele sentia que tudo tinha valido a pena. Eles tinham vindo resgatá-lo, e com isso, acabavam de trazer-lhe a possibilidade de retornar à sua vida anterior. - Eu... eu estava a começar a perder as esperanças - respondeu Ângelo, tentando esconder a emoção - Começava a achar que ficaria aqui para sempre, sem saber o que estava a acontecer lá fora - Sempre achámos que estavas na ilha para ajudar, mas com as tempestades e a falta de comunicação começámos a ficar preocupados e a pensar o pior - disse Pedro, um outro amigo, enquanto ajudava a manobrar o barco na areia. Ângelo olhou para os seus amigos com um sorriso, mas a sua mente estava cheia de pensamentos conflitantes. Ao mesmo tempo que queria voltar para a sua cidade, ainda havia muito para fazer pelo ilha, como restaurar as comunicações e os barcos, mas para isso, ele teria que ir buscar várias ferramentas e materiais à cidade, que não haviam por ali, e só depois podia voltar. E mais, havia algo que não saía da sua mente durante todo este tempo. Algo não, alguém... Tinha pensado em Laura em todos os momentos possíveis, e queria retornar à cidade o mais rápido possível para lhe explicar porque tinha desaparecido sem aviso. Enquanto o barco começava a ser preparado para a partida, Hector o chefe da aldeia, aproximou-se silenciosamente. Ele observava a cena com um olhar sério, mas com um toque de compreensão em seu semblante. Ângelo respirou fundo, sentindo a brisa salgada do mar acariciar seu rosto enquanto o barco estava quase pronto para partir. O olhar de Hector permanecia fixo, como se quisesse transmitir algo mais do que as palavras poderiam. Ângelo olhou de volta, percebendo que, embora o chefe da aldeia não falasse, seus olhos diziam muito sobre o peso da responsabilidade que ele estava deixando para trás, mesmo que temporariamente. - Eu voltarei - Ângelo disse com firmeza enquanto olhava para os habitantes da ilha que se agrupavam na margem - Não se preocupem, vou trazer os materiais e as ferramentas necessárias para reconstruir o que foi perdido e restaurar o que está quebrado. Tudo o que preciso agora é retornar à cidade, buscar os reforços e garantir que a ilha tenha tudo o que precisa para prosperar novamente. Hector deu um leve aceno, como se já soubesse que isso era o que Ângelo precisava dizer para manter a esperança viva. Hector não falava muito, mas os gestos e a postura eram claros. A ilha precisava de alguém que fosse capaz de fazer o que fosse necessário para ajudar a reconstruir o que foi destruído. E era exatamente isso que ele via em Ângelo e nos seus amigos. Os outros habitantes ouviram atentamente, alguns com expressões de apreensão, outros com um vislumbre de alívio. Alguns dos mais velhos acenaram com a cabeça, como se vissem essa partida como uma promessa antiga que estava sendo finalmente cumprida. Ângelo sabia que não poderia ficar ali para sempre. A ilha, por mais importante que fosse para ele, não seria reconstruída sem o auxílio da cidade, das ferramentas e dos homens que ela poderia oferecer. E algo muito importante tinha que ser feito. Por mais que tivesse conhecido Laura há pouco tempo, ele sentia-se no dever de se explicar e de a encontrar novamente. Nestes dias que esteve preso na ilha, ele percebeu que a conexão que tinha criado com ela em tão pouco tempo, era maior que qualquer coisa que ele tinha vivido em tantos anos. Queria construir algo com ela, mas para isso tinha que voltar à cidade e falar com ela sobre tudo o que sentia.
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