Capitulo 9

1081 Palavras
Ângelo tinha chegado à cidade na madrugada anterior e depois de descansar como devia, levantou-se bem cedo para conseguir resolver tudo o que tinha na sua mente. Enquanto caminhava pelas ruas da cidade, com os seus passos ressoando nas calçadas vazias, uma sensação de inquietação tomava conta do seu peito. O mês que passou fora isolado na ilha vizinha, tinha sido um turbilhão de emoções que ele ainda tentava processar. As tempestades que devastaram a ilha impedindo o seu retorno, foram apenas uma parte da sua experiência. Mas havia algo mais profundo, algo que ele não podia ignorar: a conexão que ele sentira com Laura, mesmo antes de partir, algo que ele sabia que não poderia deixar para trás. Desde que a conhecera no festival teve a certeza que havia algo de diferente nela. Um magnetismo silencioso, que o fez parar e observá-la por mais tempo do que o normal. Os olhos de Laura, atentos e curiosos, transmitiam uma energia que o tocou imediatamente. Não era algo explícito, mas uma sensação de que ela e ele estavam de alguma forma ligados por um fio invisível, uma conexão inexplicável que parecia ter nascido ali, naquele instante. Durante as semanas que passou preso na ilha, ele pensou em Laura mais vezes do que imaginava. No começo, estava tão focado em ajudar os moradores da ilha a reconstruírem as suas vidas e a lidar com a destruição ao seu redor, que quase não teve tempo para processar os seus próprios sentimentos. Mas em meio ao caos, aos dias chuvosos e às noites solitárias, ele se deu conta de que algo em seu coração ainda estava lá, preso na cidade, preso a uma mulher que ele m*l conhecia, mas que de algum jeito, já ocupava um lugar central na sua vida. Ele sentiu falta de Laura de maneiras que não soubera que era capaz de sentir falta de alguém. Era mais do que uma saudade física. Era uma falta de conexão, de uma energia que parecia vibrar sempre que ela estava perto. Ele tentava se convencer de que era apenas o cansaço e a solidão que o faziam pensar nela, mas quanto mais ele tentava ignorar, mais forte a sensação se tornava. Quando finalmente embarcou no barco de volta à cidade, a primeira coisa que ele queria fazer era procurá-la e de algum modo, explicar tudo o que tinha sentido, tudo o que tinha acontecido naquele tempo de afastamento. Ao chegar à cidade, o cenário parecia diferente. A mesma cidade que ele lembrava, com as suas ruas e prédios familiares, agora tinha uma aura estranha. Ele passou por todas as esquinas que costumava caminhar, mas agora elas pareciam vazias, desabitadas, como se algo tivesse se quebrado dentro de si, e com isso a sua percepção do mundo ao redor também tivesse mudado. Antes de ir até à casa de Laura, ele foi até a uma pequena cafeteria na praça central para levar um miminho para ela. O cheiro familiar de café invadiu suas narinas assim que entrou, mas ao contrário das outras vezes, ele não se sentiu em casa. O peso do que sentia e a ansiedade para ver Laura, tornava tudo mais difícil. Assim que chegou ao balcão para fazer o pedido, ele a viu. Estava sentada numa mesa perto da janela e o seu coração deu um salto. Ela estava lendo, como se estivesse à espera dele, ou talvez apenas seguindo a sua rotina. Mas a percepção de que ele não fazia parte dela naquele momento lhe deu uma sensação de vazio. Ele hesitou antes de se aproximar, mas finalmente decidiu que precisava enfrentar a situação, não importa o que acontecesse. Aproximou-se da mesa com passos lentos e quando ela levantou os olhos, ele viu nela uma mistura de surpresa e algo mais, uma quietude que refletia uma insegurança que ele não esperava. - Ângelo - disse ela, a voz suave, mas com um tom que ele não conseguia identificar. - Você… voltou. Ele sentou-se diante dela com o seu peito apertado. Não sabia por onde começar, mas precisava falar, precisava explicar tudo. - Eu sei que você deve se estar a perguntar o que aconteceu - começou ele com a voz falhando um pouco. - Eu… eu não sabia o que estava a acontecer Laura. Quando fui chamado para aquela missão de ajuda, as coisas rapidamente saíram do controle. As tempestades… foram mais fortes do que qualquer previsão indicava. Fiquei preso lá, na ilha. Não consegui voltar a tempo, nem consegui dar um simples sinal de vida. Ele pausou, tentando organizar as suas palavras. Os dias isolado sem comunicação, o fizeram sentir desorientado. E a cada dia que passava, a ausência de Laura parecia ser a única coisa com que ele não conseguia lidar. - Quando eu fui embora, nós tínhamos acabado de nos conhecer. Eu sei disso. E pensei que, talvez, fosse apenas uma atração passageira. Mas lá, nas semanas de tempestades e solidão, percebi que era muito mais do que isso. Eu… senti a tua falta de uma maneira que eu não sabia que era possível. Não é apenas saudade, é algo que eu não sei explicar. E eu não sei por que estou a dizer isto agora, mas… eu precisava que soubesses. Laura olhou para ele em silêncio, e o silêncio entre eles foi mais pesado do que qualquer palavra. Ela parecia absorver cada palavra que ele acabava de dizer, mas havia algo no seu olhar que ele não conseguia decifrar. - Eu não esperava que … que tu ainda me viesses procurar - ela finalmente disse com a sua voz baixa, mas firme. - Não sabia o que realmente tinha acontecido para desapareceres. Mas mesmo assim, eu não conseguia parar de pensar no que poderia ter acontecido entre nós se não tivesses desaparecido. Eu senti a mesma coisa, Ângelo. Não era só curiosidade, era algo mais. Algo que parecia ser mais forte do que qualquer explicação lógica. Ele a observou atentamente. O que ela dizia ressoava com o que ele sentia, mas o medo de que tudo fosse perdido agora, de que fosse tarde demais para se aproximar de alguém que ele m*l conhecia, mas que sentia como se fosse parte dele, o deixava tenso. - Eu não sei o que isto tudo significa, Laura. Não sei o que pode vir disso, ou se é tarde demais para tentar algo entre nós. Mas eu… eu não queria voltar e não dizer nada, depois de tudo o que aconteceu
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