Ele não é um monstro

1716 Palavras
Justin Bieber — Estão falando de você, Sarah — falei, vendo que ela não deu importância.   — Sempre falam… — falou, pegando o esfregão e um pouco de sabão em pó, mas antes de me ajudar a lavar o banheiro, Sarah bateu uma foto do local, olhando com reprovação — Mas eu não me importo, eu sou sua amiga, não deles.   Sorri para ela, limpando as pias.   — Eles acham que a gente transa — murmurei e ela riu alto, enchendo um balde com água.   — Todos acham e não sabem a verdade, sempre querem opinar — ela se inclinou e eu pude ver um pouco dos seus s***s, cobertos por um casaco de couro elegante, que lhe caí muito bem — Mas nós apenas conversamos, limpamos e você analisa meus s***s.   Cocei a cabeça, olhando seu corpo.   — Está ereto?   Sinceramente, eu não me acho feio, talvez eu esteja acabado por estar aqui sem fazer nada que ajude a minha beleza, mas eu sei que pelo menos ela deve me achar bonito, porque o incidente na minha cela foi inacreditável, a mulher me viu nu e não fez nada, eu estava duro, quase usando as mãos na sua frente e ela agiu como se nada estivesse acontecendo.   — Vocês dois possuem conversas desagradáveis — Montgomery se pronunciou, eu quase esqueci da sua presença — pensei que não iria vir hoje, senhorita, já que veio ontem.   Minha psicóloga riu, torcendo o pano para secar o banheiro e eu fiz o mesmo, começando a deixar tudo organizado.   — Sua presença é desagradável e eu não falo nada, Senhor — segurei o riso, sem acreditar no que ela falou, vendo a cara de babaca do Marcus — eu venho quando tenho disponibilidade na semana.   — Está se achando autoridade em um lugar onde nós fazemos nossas leis, a cadeia não é a clínica de psicologia que você trabalha — Marcus disse, estalando os dedos e eu intercalei o olhar entre os dois.   — Realmente não é, mas eu gosto de mostrar meu distintivo jurídico para as pessoas, ele alega que eu estou aprovada por lei para frequentar até sua casa — Sarah riu — e então, eu posso falar para sua esposa que você foi surrado pelo detento da solitária por ser um babaca petulante.   Fiquei em silêncio e nós pegamos os baldes, levando até a salinha de limpeza. Montgomery passou as algemas em mim e nós seguimos para a solitária.   Sarah entrou comigo e depois que Marcus saiu, ela riu de lado.   — Marcus tem inveja de você — ela se sentou e eu cruzei o cenho.   — Inveja de mim? — eu ri descrente, sentando ao seu lado — ele só gosta de me ver com raiva.   — Ele sente inveja — ela afirmou — porque você tem a língua afiada e é melhor nos socos do que ele, Marcus tem medo de você.   — Disso eu sei, todos têm.   Sarah me olhou e retirou um bloquinho de anotação da bolsa.   — Eu não tenho.   — Deveria — murmurei — eu sei que te intimido.   — Não, nem um pouco, você quer ser intimidador para afastar todos de você, mas não adianta nada, não pra mim.   Eu ri e a encarei, mudando minha expressão, olhando diretamente nos seus olhos. Sarah também ficou séria e me encarou de volta, pude sentir seus olhos escuros julgar cada traço de mim, ela ao menos piscou, ficamos cerca de dois minutos sustentando o olhar, e em todo esse tempo ela não se mostrou com medo.   — Por que não tem medo?! — fiquei enfurecido, ela suavizou a expressão, olhando o bloquinho — em? Eu estou falando com você!   — Eu te intimido, Bieber — Ela sorriu, voltando a me olhar — você quer alguma reação negativa da minha parte, mas não vai ter, eu não te vejo como os outros vêem, não te vejo como monstro, mas sim como pessoa.   Torci a boca, sem ter o que argumentar.   — Quero te fazer algumas perguntas.   — Quantas? — encostei—me na parede.   — Poucas — Sarah folheou o bloco de notas, lendo algumas coisas para si — Como era a sua relação com sua mãe?   Respirei fundo e abaixei a cabeça, dedilhando o colchão.   — Não precisa responder se te machucar — ela falou com cautela — eu só preciso saber mais de você.   — Tudo bem, Sarah — olhei para a mesma — era ótima, até o Nicholas chegar.   Ela anotou rapidamente e bateu o lápis na perna, lendo a outra pergunta, parecendo analisar.   — E com seu pai? Como era?   — Boa… ele sempre foi atencioso e muito bom comigo, mesmo estando casado com outra mulher, a Erin e ele sempre se importaram comigo.   — Você tem irmãos?   — Tenho…, mas eu nem sei como eles estão — olhei para a parede, secando meus olhos antes que ela percebesse alguma lágrima.   — Você os ama?   Molhei meu lábio, sorrindo, talvez esse seja o sorriso mais verdadeiro que eu dei desde que entrei aqui.   — Não sei o que é amar, mas se for o que todos dizem, eu os amo.   Sarah pareceu surpresa, ela retribuiu meu sorriso calorosamente.   — Gostaria de ver seus irmãos e seus pais?   — Adoraria — falei para mim mesmo — mas tem dois anos que eu não vejo meu pai… não sei nem a idade dos meus irmãos direito e, bom, minha mãe me odeia, ela me abomina, acho que eu não tenho mais mãe.   — Não fala isso, uma mãe nunca para de amar os filhos, por mais que aconteça tudo de r**m, filhos são uma bênção, é como uma luz.   — Você é boa com as palavras.   — Obrigada — ficamos em silêncio por um tempo, analisei o que ela escrevia no papel e cruzei o cenho.   — Normalmente as mulheres têm a letra bonita, como consegue ler o que escreve? — eu ri e ela revirou os olhos.   — Obrigada por falar que a minha letra é horrível — Sarah fechou o bloquinho e guardou, mordendo o lábio, querendo dizer algo.   — O que foi?   — Por que você vai ficar vinte anos na solitária e os outros cinco anos como réu secundário?   Travei a mandíbula, dilatando as narinas.   — São meus problemas — resmunguei insatisfeito — não me pergunte sobre isso!   Ela estranhou e assentiu.   — Perdão, Justin, não foi a intenção te enfurecer — Sua mão tocou a minha e eu puxei, apertando o colchão.   — Acho que por hoje está bom — fui ríspido e apontei pra porta — Por essa semana está bom.   Ela ajeitou a bolsa e se levantou, batendo na porta para abrirem, me olhando reticente.   Arranquei os sapatos e me deitei, olhando para a parede.   — Até breve — ouvi sua voz e a porta abriu, seus saltos fizeram barulho e eu soltei o ar do pulmão, ouvindo a porta bater, mas com a presença de alguém dentro da cela.   Me virei e vi o coronel me observando, com o cacetete na mão.   — O que quer, Yale? — sentei-me e ele acertou o cacetete no meu rosto, me fazendo urrar de dor, começando a me golpear violentamente por todo meu corpo.   Desviei de alguns golpes fugindo pelo local, pois o cara tem o dobro do meu tamanho e da minha força.   — Que p***a é essa?! — falei alto e ele bateu nas minhas pernas, me fazendo cair com tudo no chão.   — Segura a sua psicóloga de merda — ele me ergueu pela camiseta e me pressionou na parede.   — O que ela fez? — falei entrecortado e ele apertou ainda mais meu pescoço.   — Mais um processo direcionado ao nosso presídio e você vai pagar! A sua amiga nova entrou com pedido de justiça contra nós, ela tirou fotos e nos processou ontem pela tarde.   Eu ri, cuspindo sangue.   — Sarah é uma pessoa justa, que gosta das coisas certas — falei e ele apertou ainda mais.   — Aqui nós fazemos justiça — Yale me jogou nos pés da cama — é bom você dar um jeito de afastá-la.   Respirei fundo e passei a mão no meu nariz, sentindo minha cabeça doer.   — Não por muito tempo… — murmurei para mim e ele saiu, trancando a cela mais uma vez.   (...)    Sarah Montserrat   — Que bom que pode vir — falei sorrindo, estendendo a mão para Jeremy, cumprimentando sua esposa.   — Assim que recebi seu e—mail eu precisei saber o motivo que me chamou aqui na clínica, senhorita — Jeremy falou e beijou a mão da esposa, parecendo ansioso.   — Bom — peguei as fichas do Justin junto com as minhas anotações — para nós reduzirmos ou abolimos a pena, precisamos de provar algum transtorno mental que o induziu ao homicídio, então, eu fiz algumas perguntas para ele e notei que ele se sente muito sozinho, ele se sente como um monstro, Justin quer afastar as pessoas e quer passar medo pra todos, quer que nós o vejamos como um assassino, não como pessoa.   Jeremy assentiu, pensativo.   — Preciso que você faça um esforço de ir vê-lo, por mais que ele esteja proibido de socializar, ele precisa de ver você pelo menos uma vez por mês, tanto você quando a senhora Mallette — falei, olhando para ele, vendo—o pensativo — Preciso da sua ajuda para descobrir os motivos reais do assassinato de Nicholas Joel Hank.   Jeremy abaixou a cabeça, respirando fundo.   — Eu sei que é difícil, mas preciso de você, de vocês, na verdade — olho para sua esposa e ela ergue o rosto dele, assentindo.   — Tudo bem, quando posso vê-lo? — Jeremy sorriu fraco e eu me senti aliviada.   — Vá amanhã — falei, sorrindo — vá amanhã e leve à ele algo para comer, sabonetes… só mostre que você ama seu filho, eu tenho certeza que Justin não é r**m, ele precisa de um ombro amigo e nada melhor do que você ser o ombro amigo.   — Obrigado, Senhorita Montserrat.   O acompanhei até a porta, me despedindo.   — Eu que agradeço — sussurrei e chamei o próximo paciente.    Eu vou descobrir esse enigma, Justin Bieber é o meu melhor caso e eu vou conseguir inocentá-lo.
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