Sarah Montserrat
Quando a água quente entrou em contato com a minha pele, relaxei meus músculos lentamente. Molhei meus cabelos e meu rosto, peguei o sabonete e a esponja, um banho demorado, é disso que eu preciso.
Coloquei meus pensamentos em ordem, separando tudo relacionado ao meu trabalho, deixando para pensar em ordens jurídicas, presídios e arquivos depois de um boa noite de sono.
Agora eu só preciso jantar com a minha pequena família e perguntar como foi seu dia.
Coloquei uma calça de seda, junto com uma camiseta de malha macia. Saí do quarto e fui até o corredor, dando duas batidinhas na porta.
— Madeline? — chamei e logo a mesma abriu a porta — pode ir, volte amanhã mais cedo, tenho compromissos.
— Obrigada, Sarah — Madeline falou e eu a abracei, entrando no quarto.
Sorri assim que vi minha pequena no meio das cobertas, com o bumbum para cima, fazendo graça.
— Sun? — chamei — Oh, meu Deus, onde está minha pequena Sun? — fingi procura-la no guarda roupa e olhei atrás das cortinas.
— Aqui, mamãe, aqui! — sua voz me fez rir.
— Não estou achando você, princesinha — puxei a coberta e dei risada — Sun, não pode se esconder assim, fiquei preocupada.
Ela riu e eu a peguei no colo.
— Desculpa? — ela falou baixinho e beijou minha bochecha.
— Depois desse beijão eu desculpo — a abracei — Como foi seu dia?
— Ah, mamãe… — Sunshine deixou as mãos no rosto — a tia Madeline me levou no parque… nós compramos um pote de sorvete, mas eu não comi tudo sozinha como no outro dia, eu guardei para você — ela falou enrolado, mas eu fiquei contente em ver como minha pequena guerreira de quatro anos conversa como gente grande, apesar de eu ter que prestar muito atenção no que ela diz, porque às vezes a pequena fala tudo completamente rápido e errado.
— Guardou aquele sorvete delicioso de flocos e calda de morango para mim? — fiz carinho em seu rosto — Obrigada, meu amor!
— De nada, mamãe.
Peguei minha filha nos braços e nós fomos até a cozinha, olhei para o fogão, vendo que Madeline havia preparado nosso jantar.
Teimosa Madeline, eu avisei que queria cozinhar hoje.
Coloquei um pouco de comida para a Sun e me sentei de frente para ela, com meu prato feito.
— Quem a senhora ajudou hoje, mamãe? — ela falou, levando a colher até a boca, mantendo os olhos escuros em mim.
— Ajudei? — eu ri baixinho — Madeline disse que eu ajudo as pessoas?
— Sim, mamãe, ela falou que você cuida para que seus pacientes não fiquem com biquinho de tristeza.
Dei risada.
— Entendi… então, respondendo a sua pergunta, Sun — bebi um pouco de suco, dando a ela uma garrafinha colorida — hoje eu conheci um paciente bem feliz, a mamãe dele ficou até com medo de ele ser mais especial que o normal, mas o outro paciente que eu conheci ontem estava com biquinho de tristeza.
Ela parou de mastigar e me olhou, curiosa.
— Ele estava com biquinho triste? Era muito triste? — Sunshine arregalou os olhos, curiosa — Ele estava como eu fico quando você briga comigo?
Lembrei da expressão vazia do senhor Bieber e assenti.
— Sim, quase isso.
— Ele dava medo? — Sunshine voltou a comer e eu fiz carinho no seu cabelo.
— Nem um pouco, Sun.
— Ele quer ser seu namorado?
Caí na gargalhada.
— Sunshine, você tem quatro anos, o que é namorar pra você?
Ela ficou em silêncio e mexeu na comida.
— Ficar junto de gente legal.
— Você é minha namorada? — a abracei — porque você é a mais legal do universo!
— Eu sou? — assenti — então você pode me deixar assistir até tarde?
— É a mais legal do universo, mas vai dormir cedo.
— Amanhã é dia de escolinha?
Cruzei o cenho.
— Mas você nem vai na escolinha ainda.
— Eu estou falando de você, mamãe.
— A mamãe não vai na escola mais — peguei ela no colo e levei os pratos até a pia, colocando na lavadora — a mamãe vai ir trabalhar.
— De ajudar as pessoas pra me comprar brinquedos e roupinhas?
— Isso mesmo — beijei sua bochecha e a levei no banheiro, Sun escovou os dentes e correu para o meu quarto, fui atrás (depois de ter me higienizado) e parei no batente da porta.
Ela sorriu sapeca, se afundando no meu travesseiro.
— Sunshine? — a chamei — pro seu quarto, mocinha.
— Eu não consigo dormir sozinha, mamãe — ela fez bico — por favorzinho, com pedacinhos de marshmallow e confetes por cima?
— Você nunca dorme no seu quarto sozinha.
— É que eu ouço você chorar — arregalei os olhos e me sentei ao seu lado, colocando-a no meu colo.
— Eu não choro, amor.
Minha filha segurou meu rosto com suas mãos pequeninas.
— É por que eu não tenho pai?
— Não! Não, Sun, é só cansaço.
Minha garotinha se ajeitou, provavelmente sem entender minha frase.
— Ouvi você falar com a tia Madeline que… — ela parece pensar — que sente falta de alguém.
— Escuta, anjo, você não precisa se importar com essas coisas, eu sou feliz demais tendo você.
Desta frase, acredito que ela entendeu apenas a parte da felicidade, fiquei feliz por ela não ter questionado mais nada.
— Eu posso te fazer dormir?
— Claro que pode.
Sunshine me abraçou como eu costumo fazer com ela, beijei seu rosto e ela sorriu fraquinho.
— Eu não ligo de não ter papai, você é a mãe mais rainha do planeta todo — sorri para ela.
— Amo você, Sun — ela abraçou a fraldinha e colocou a chupeta rosa na boca, sorrindo pra mim.
(...)
Entrei na direção do presídio e estiquei a mão para o diretor Jeffrey Harlem, que fez sinal para que eu me sentasse e assim fiz.
— Pensei que viria ontem, senhorita Montserrat.
— São só algumas vezes na semana, tenho outros lugares com outros pacientes — peguei a ficha do presidiário e coloquei em cima da mesa — senhor Harlem, você ainda tem a gravação do julgamento do meu paciente?
— Isso não lhe convém, não posso dar-lhe a gravação.
Eu respirei fundo e ajeitei minha aliança no dedo.
— Não pedi para mim, senhor, eu apenas perguntei se você tem.
Jeffrey pareceu não gostar das minhas palavras, mas eu não estou aqui para agradar ninguém, muito menos esse projeto de diretor que no mínimo, só dorme.
— Claro que tenho.
— Eu estou apenas com a parte escrita do julgamento, com as palavras de Justin Bieber e as dos advogados, as achei vagas, assisti o vídeo na internet quando a notícia se espalhou pelo país, quero entender porque ele vai ter vinte anos na solitária e os outros cinco anos como réu secundário.
Jeffrey se calou.
— A sala de visitas está ocupada, acho que a senhora vai ter que ir até a solitária consultá-lo.
Encarei o rapaz, respirando fundo. Esse maldito quer me submeter ao ridículo para que eu desista do caso, tanto ele quanto aquele coronel de merda querem que eu saia daqui cabisbaixa e sem êxito. Eles sabem que se eu provar que meu paciente tem algum trauma ou desvio mental eu posso inocentá-lo ou até reduzir a pena. Quando Jeremy pediu para eu consultar seu filho, seu principal intuito foi o de tirá-lo daqui, mas esses trastes querem que tenha “disciplina”.
— Eu o consulto onde der, prefiro que aqueles presidiários me comam com os olhos à ficar sendo assedia por essa sua mente imunda — levantei—me e olhei no mapa da prisão, me dirigindo até a famosa solitária.
Quando eu saí, ouvi Jeffrey rir e falar alguma coisa e rir, provavelmente me xingando ou imaginando algo erótico.
Desci uma escadaria e entrei num corredor extenso, um policial abriu a porta do setor de réu secundário e eu passei pelos corredores, olhando para a última porta de lá.
Ignorei os burburinhos e cheguei até a cela.
— Ei, delícia, ele não está aí — um dos caras da cela falou, colocando a mão para fora — vem cá, gostosa!
Revirei os olhos e me lembrei que Jeffrey estava rindo quando saí de lá, ele quis me expor ao ridículo.
Saí do setor e fui até o refeitório, vendo Justin de costas sendo monitorado pelo senhor Montgomery, me aproximei, vendo Marcus com o rosto totalmente roxo e os lábios cortados, Justin está lavando uma pilha de louças — que estão com o cheiro péssimo.
— Bom dia — falei e os dois me olharam.
— Bom dia, senhorita — Justin murmurou, com mau humor.
— Lava essas porras direito! — o carcereiro berrou, sem falar nada para mim.
Passei por ele, evitando rir de seus ferimentos, seria politicamente incorreto.
Peguei um avental e amarrei na cintura, tirei a aliança algumas pulseiras, pegando outra esponja e detergente.
— Não precisa — Justin falou, ríspido — Não sei o que veio fazer aqui.
Comecei a lavar os pratos e ele segurou minhas mãos, puxando a louça com certa brutalidade.
— Vá embora!
Olhei para o carcereiro.
— Pode nos deixar sozinhos, Montgomery? Garanto que ele não vai sair correndo daqui e fugir.
— Eu não posso sair, senhorita.
— É melhor que você saia, para que não fique estourada como ele — Meu paciente disse com extrema raiva, me ameaçando.
Voltei a lavar a louça e ele me segurou com força, machucando meus braços, Marcus interferiu e tentou soltar suas mãos de mim.
— Eu só quero te ajudar! — falei e ele apertou mais, me fazendo ficar com os olhos lacrimejados.
— Não quero sua ajuda! — Justin me soltou e olhou para os meus braços, que começaram a adotar uma vermelhidão.
— Não ouse fazer isso nunca mais — apontei para o meu braço e peguei a esponja de sua mão, lavando.
— Você tem um pênis no ouvido!? — ele perguntou, bufando.
Contra sua vontade eu fiquei lá, o ajudei a lavar pratos e mais pratos, limpei a cozinha e tirei fotos de lá, convencida de que ninguém, nem mesmo um assassino, merece comer algo preparado em um local degradante como esse.
Justin terminou de limpar o chão e as mesas, estendeu os braços para o carcereiro, que o algemou e seguiu para a solitária.
Eu vim aqui para ter uma consulta e eu vou ter sim uma consulta.
Deixei a luva de borracha junto com os produtos de limpeza e os segui, passei as alças da bolsa no ombro e entrei no setor, ouvindo os burburinhos começarem.
Assim que a solitária foi aberta no fim do corredor, onde não haviam mais presidiários de réu secundário, corri até lá dentro.
— Você não desiste?! — Justin reclamou e eu me sentei num tipo de campana, onde provavelmente ele dorme.
— Nunca — respondi — agora sim, senhor Marcus, deixe—nos.
Marcus soltou as mãos de Justin e saiu, trancando ali até o último cadeado.
— Quero tomar banho, saia.
— Estamos trancados, senhor Bieber — falei sem jeito e me virei para o lado oposto do pequeno chuveiro — pensei que tomasse banho com os outros.
Justin riu.
— Colocaram aqui ontem…
— Por que? — eu me virei com a intenção de olhar em seus olhos, mas o peguei tirando a cueca, rapidamente, virei para o lado da parede mais uma vez, antes que ele me visse.
— Tive uma pequena confusão ontem no banheiro — ouvi o barulho de roupas em cima da cama e logo o chuveiro foi ligado — Você é estranha.
Cruzei o cenho.
— E antes que pergunte por que, eu respondo que é pelo fato de eu estar pelado atrás de você e você não fazer nada.
— E o que eu deveria fazer?
— Gosto que as pessoas falem comigo, me olhando nos olhos.
Dei risada e me virei, olhando em seus olhos.
— Como está se sentindo?
— Agora eu estou me excitando.
Ri de lado.
— Isso é uma ação do ser humano totalmente natural, pode falar comigo com seu pênis ereto.
Justin pareceu indignado.
— Você é louca — Ele negou com a cabeça e eu ao menos me interessei em olhar seu m****o.
— Posso afirmar que a maioria dos psicólogos são.
— Senhora…
— Sarah, okay? Eu estou vendo você tomar banho, acho que já pode me chamar de Sarah.
— Sarah, por que está aqui? Não tem medo de mim?
— Não — fui sincera — eu deveria?
— Eu arrebentei o carcereiro com o encanamento do banheiro.
Mantive a expressão suave.
— Ele te aborreceu, certamente.
— Não vai me julgar? — ele desligou o chuveiro e mexeu no cabelo cumprido, se vestindo.
— Por que eu deveria? Você não é pior do que eu, não é pior que ninguém.
Justin pegou a cueca, rindo descrente e eu abaixei o olhar para o chão, sem olhar suas partes baixas.
— Eu torturei — ele murmura e me entrega a aliança que estava no bolso da sua roupa suja junto com as pulseiras, me fazendo perceber que eu estava sem ela no meu anelar, deixei lá e sequer lembrei de pegá-la — eu matei…
— E daí? Por isso você tem que ser julgado?
— Claro que sim — falou e terminou de se vestir, sentando-se ao meu lado.
— Eu penso diferente — argumentei — sabe, nós todos erramos, pode ser o pior erro, a pior atrocidade, um assassino, um traficante, um ladrão… todos temos sentimentos, todos somos semelhanças uns dos outros, não existe crime maior ou menor na hora de julgar aos olhos de um psicólogo.
— Queria pensar como você, senhorita — ele brincou.
— Não precisa pensar como eu — olhei no relógio — é só… lembrar que você é um ser humano como qualquer outro, que está sujeito a errar.
Justin pousou o olhar nos meus pulsos.
— Desculpa, eu não quis te machucar.
O olhei e ri de lado.
— Espero que isso não aconteça mais, e que você se controle comigo, pois sou insistente.
— Odeio pessoas assim — ele foi franco — mas você tem s***s, então eu vou me controlar para vê-los com mais frequência.
— Eu sou casada — ressaltei.
— E por que tira a aliança sempre? — ele tocou no meu dedo, que não está marcado pela aliança — se usasse sempre, ia estar marcado.
— Isso não vem ao caso agora.
— Claro que vem — Justin riu baixinho — Isso é um “engana trouxa”?
— Não… — peguei minha bolsa e dei a ele um meio riso — acho que já tivemos nossa consulta de hoje.
Justin cruzou o cenho.
— Não quer ficar mais?
— Não posso — ajeitei a minha bolsa e entreguei uma barra de chocolate a ele — acho que faz tempo que você não come isso há um tempo.
Ele pegou e agradeceu, beijando minha mão como em algum filme, me fazendo rir.
— Eu não como várias coisas há anos — ele “brincou” — obrigado, Sarah.
— Até mais, Justin — bati na porta para o carcereiro abrir, quando fui sair, Bieber me chamou — algum problema?
— Obrigado pela conversa.
Fiz um “joia” e saí de lá, feliz por ter conseguido conversar um pouco. Em breve eu vou entender as razões por ele estar aqui, porque eu tenho total certeza que suas ações há anos atrás, foram em busca de justiça.
— Coronel Yale… — cumprimentei com sarcasmo e ele fez uma carranca — leve água para o detento da solitária e para todos os outros, se você não passa sede, por que ele passaria?
— Está reparando demais, Montserrat.
Assenti.
— Abra os olhos, Coronel, o que esse presídio não vê — mostro a ele a foto da cozinha — Eu vejo.