JUSTIN BIEBER
— Já tem cinco anos aqui e não aprendeu a lição? — Marcus riu, trancando minha cela — mas é um vagabundo mesmo.
— Ora, Marcus, você é um tenente, não o coronel — eu ri, debochando — vai me dizer que está com medo do Coronel Yale? — me encostei na grade, mostrando a ele o dedo do meio — Está com medo de falar que você não foi capaz de conter a minha rebeldia repentina?
— Você deveria estar em um manicômio, aqui é lugar de criminosos, não de loucos — Marcus aumentou a voz, mas não gritou, apenas falou mais firme.
— Disseram que eu não ia ter socialização, mas colocaram Marcus Montgomery pra ser meu carcereiro, você sabe que eu amo você, igual eu amava o meu falecido padrasto — dei uma risada alta — te aflige me ter por perto, Marcus? Te aflige falar pro Coronel que eu quebrei seu narizinho dentro da minha cela?
— Te aflige saber que eu vou sair daqui e ficar com minha família, Justin? — Ele perguntou, usando o mesmo tom de ironia que o meu — é, eu sei que sim… — fiquei em silêncio — há quanto tempo sua família não vem te ver? Um ou dois anos?
Travei meu punho e me joguei no projeto de cama, estalando os dedos.
— Não sei o que tem de errado com você, Bieber, você não para, você quer ver brigas, quer ser o motivo delas, quer bater, pixar banheiros, quebrar o nariz dos carcereiros… — Marcus molhou os lábios e jogou uma garrafa com água pra mim, apagando a luz do local, batendo a enorme porta da solitária.
Sinto falta de sair com meus amigos, de ter uma vida, mas ao mesmo tempo, não quero nunca mais sair daqui.
Aqui eu me entendo, aqui eu posso meditar e ficar em paz.
Mesmo sendo um inferno, talvez eu seja mesmo o próprio demônio, um demônio que quer paz na prisão.
Algumas pessoas pensam que eu sou o maior perigo para a sociedade por estar numa solitária, mas de verdade, eu fiz mau pra quem mereceu, quando matei Nicholas eu não pensei na minha mãe, não pensei no meu pai e nos meus amigos, mas se estar aqui é o preço que se paga por eu ter feito o que fiz, eu ainda acho pouco pra mim, me pergunto por que não fiz algo pior, eu estou perdendo anos da minha vida aqui, perdendo oportunidades… mas mesmo estando sem nada, eu não me arrependo e se pudesse fazer de novo, eu o faria.
Se pudesse matar alguém mais de uma vez, Nicholas teria no mínimo mil atestados de óbito.
(...)
— Os detentos daqui preferem morrer de fome a comer isso — digo, enfiando fritas goela à baixo, revirando os olhos — e aí, Marcus, como vai esse nariz? Meio inchado a meu ver — continuei a comer, olhando para os outros caras no refeitório.
“Sem direito à socialização”, patético.
— O diretor quer falar com você — Marcus falou e eu me levantei, esticando os braços para ele passar as algemas.
— Quando eu sair daqui, reze pra não trabalhar mais neste presídio, eu faço questão de ir pra cadeira elétrica, mas eu mato você — falei, sendo levado para a sala do diretor, assim que entrei, Marcus chamou pelo diretor e eu me sentei.
— Senhor Bieber — Jeffrey me cumprimentou de longe, tomando postura — não cansa de ser punido? É a terceira semana que você agride o Montgomery!
— Eu sei — dei risada e olhei pro Marcus — qual será minha punição agora? Eu já lavei o pátio, limpei o refeitório…
— Vai lavar os banheiros por três meses, Bieber, ou então vamos te transferir daqui pros Estados Unidos, não aguentamos mais tantas reclamações direcionadas à você.
— Que punição… uau — debochei — como quiser, senhor Jeffrey — me levantei e ele apontou para umas luvas, sabão em pó e um balde.
— O esfregão está no banheiro, pode começar, vai lavar de segunda, quarta e sexta.
— Ah… e que dia é hoje? — perguntei.
— Terça — Marcus deu risada após me responder e eu ri de volta, indo até os produtos de limpeza.
— Opa, há um par de algemas na minha mão, então, Montgomery, que tal levar os produtos pra mim até o banheiro? — proferi as palavras com desdém e o carcereiro bufou, pegando as coisas.
Fomos até o banheiro e meu estômago revirou ao sentir o cheiro forte de um dos sanitários, Marcus deixou os produtos de limpeza no chão e tirou—me as algemas, encostando—se no batente da porta.
— Que tal começar pelo banheiro dos deficientes físicos? — Ele disse rindo e eu peguei o balde, colocando água, ignorando suas palavras — alguém entupiu ele ontem, pra falar a verdade, as almôndegas enlatadas nunca fazem bem para o estômago de vocês.
Limpei o banheiro todo com as dezoito cabines em três horas, nesse tempo, Marcus ficou fazendo piadas idiotas e ao fim da limpeza eu pude socá—lo no nariz, onde já estava quebrado, torcendo mais um pouco.
Foda-se.
O que Jeffrey pode fazer? Me punir fazendo com que eu lave as roupas? Eu não ligo, limpo todo o presídio se preciso, mas bater no Montgomery é meu hobby desde o meu segundo ano de prisão, quando trocaram meu carcereiro e colocaram esse babaca com cassetete pra me vigiar.
Tomei banho junto com mais dezoito caras pela tarde, antes era nojento, agora está mais ainda, principalmente pela briga por conta da lâmina de barbear e a gilete, os caras brigam pra tirarem o pelo das partes baixas, sorte a minha ser sempre o primeiro a usar os nossos “cosméticos” de higiene íntima.
Voltei para a cela depois do dia exaustivo, lavar banheiros cansa, bater no Marcus não, é um ciclo r**m e bom ao mesmo tempo.
Degustei antes de dormir um frango magro com molho de tomate, me deu dor de barriga, mas passou, deitei na cama dura e me cobri com o edredom fino, respirando fundo.
— Mais um dia vivo aqui — olhei para o teto e risquei com um arame velho um “x” no meu calendário de riscos na parede ao lado, sujeito a mais uma noite aqui, mais uma de muitos meses e muitos anos.
(...)
Encostei-me na parede, olhando a fresta de luz pela pequena janela da cela, joguei pela janela uma pedrinha e dobrei o lençol da cama. Logo, ouvi um barulho conhecido: O ferrolho da porta de aço se abrindo.
Marcus entrou e me entregou uma sacola com o café da manhã, pão e água.
Peguei e me sentei, rindo baixo do curativo ridículo em seu nariz roxo, mordendo o pão.
— Tem alguém querendo te ver — Assim que tais palavras saíram de sua boca, meu coração disparou de uma maneira desconhecida por mim. Há anos eu não vejo ninguém conhecido, quem seria? Meu pai? Oh, espero que sim!
Confesso que comi mais rápido, deixei a água correr pela minha garganta como se fosse uma simples gota, prendi meu cabelo com um elástico e fui até as grades.
Marcus abriu a cela e passou o par de algemas como de costume.
Passei pelo corredor em passos apressados, ansioso, os outros presos das demais celas de réu secundário me olharam estranho, cumprimentei um amigo que fiz no banheiro ontem, Tony é seu nome, está aqui por tráfico de drogas e de crianças.
Quando saímos do setor das celas, andamos pelo corredor da sala da direção, indo para a sala de visitas.
A cada passo, meu coração se apertava mais, se apertava em alegria e desespero, eu queria sorrir por alguém ter lembrado de mim, mesmo que seja meu velho pai dando—me sermões.
Montgomery abriu a porta e eu entrei olhando em volta, as lágrimas de emoções foram engolidas quando percebi não ter ninguém dentro da sala, olhei para o carcereiro, disposto a quebrar seus dentes e algum osso de seu rosto.
— Eu juro que tinha uma moça aqui! — Marcus olhou para os lados e minha raiva aumentou pela sua brincadeira — é sério, Bieber, tinha uma moça aqui!
— E ela evaporou?! — aumentei a voz, andando pela sala — ela sumiu? — eu ri descrente, com meu sangue borbulhando em raiva.
Ouvi uns passos no corredor e o carcereiro fez sinal para eu me sentar, assim fiz, ouvindo vozes no corredor.
— Você tem autorização pra entrar? — percebi ser o coronel Yale.
— Ah, quer ver minha autorização? — uma voz feminina usou um tom rígido, me deixando curioso, nunca ouvi esta voz antes — aqui está, Senhor Yale, tenho autorização do delegado, dos pais do detento e autorização jurídica para exercer meu trabalho!
— Você…
— Não me chame de “você”, me chame de senhora ou senhorita, não fale comigo como fala com seus colegas de trabalho, se está achando r**m que eu vá consulta-lo, fale com o júri, pois você só exerce seu cargo com ordens jurídicas, e eu estou com uma pasta cheia de arquivos com tais ordens, agora faça—me o favor de sair e deixe—me trabalhar!
O silêncio cessou e eu olhei pro Marcus, vendo ele boquiaberta. Todo mundo em sã consciência não ergue a voz para o coronel, mas de verdade, eu não esperava isso de uma mulher.
Olhei para a porta e vi uma moça entrar com uma pasta na mão e uma bolsa. Fitei seu rosto com curiosidade, pois mulheres desse porte não entram aqui, muito menos para falar comigo.
— Bom dia, você deve ser o Marcus, pode se retirar? — ela foi totalmente educada e Marcus assentiu, fechando a porta, me olhando antes.
Babaca filho da p**a.
Fiquei quieto, olhando a mulher colocar seus pertences na mesa à minha frente e se sentar, ela sorriu e ajeitou a manga de seu smoking, olhei seus s***s cobertos e abaixei a cabeça, espero que eu possa suprir meu desejo s****l por ela essa noite.
— Bom dia, Senhor Bieber — ela esticou a mão eu apertei de leve, com seriedade — Bom, eu sou Sarah, Sarah Montserrat, estou aqui à meu critério e à pedido de Jeremy Bieber.
Cruzei o cenho, sem falar nada.
— Sou sua psicóloga, havia um tempo que eu analisei seu caso e consegui atender você agora, meu objetivo é conversar com você e te distrair, assisti seu depoimento várias vezes e não achei um motivo plausível para você ter assassinado aquele rapaz de tal forma, então, estou disposta a te ouvir todas as semanas, não sei se vou conseguir vir diariamente.
Eu ri.
— Quer me tornar bonzinho? — perguntei, me encostando na cadeira.
— Não, não quero mudar você, quero te entender e te ajudar, acho um absurdo você não ter socialização, precisamos de socialização para sobreviver e achei suas palavras muito vagas no seu depoimento.
— Vou adorar socializar com a senhora — falei com duplo sentido e ignorei o resto da sua frase. A morena colocou os fios atrás da orelha, notei uma aliança e sorri de lado, entendendo a indireta.
Casada.
Mas convenhamos que, o que eu posso fazer sendo um preso que lava banheiros? Eu posso flertar, vai ser um bom passatempo, apesar de eu já estar de saco cheio dessa conversa.
— Você é bem engraçado, vamos tentar fazer nossas conversas valerem à pena — Sarah falou e eu dei de ombros.
— Sou muito engraçado, você tem que ver — ironizei — mas vai ser bom ter um par de p****s para mim poder olhar, não deveria me escolher, doutora, eu não transo há cinco anos.
Ela não mudou a expressão, continuou me olhando sem julgar ou coisa assim. Sarah olhou as unhas e me olhou, de um jeito esperto.
— Assassino ou ninfomaníaco? — perguntou, rindo de lado e eu não pensei duas vezes para responder.
— As duas coisas, doutora.