Capítulo 3

1101 Palavras
Capítulo 3 GENERAL NARRANDO Os anos seguintes foram guerra, negócio e sobrevivência . Gabriela crescia, e eu ia aprendendo da minha forma torta a lidar com isso . Eu não era homem de sentar no chão pra brincar de boneca, nem de cantar música infantil, nem de fazer voz engraçada . Mas eu sabia proteger. Sabia prover . Sabia mandar matar por ela se fosse preciso . No meu mundo, isso valia mais que muito carinho falso . Ela me chamava de pai. E eu deixava . Às vezes isso me atravessava de um jeito incômodo. Não pela mentira. Mas pela força disso . Pela facilidade com que ela falava. Pela confiança cega . Pela dependência . Era estranho ser tudo pra alguém quando tu passou a vida inteira evitando ser alguma coisa de verdade pra qualquer pessoa . Quando Gabriela fez cinco anos, eu mandei fazer uma festa pequena pra ela na casa de Marta . Marta era prima da minha mãe . Moleca ainda, 15 anos, mas era vivida, já tinha passado por muita coisa, já tinha cabeça de mulher, de adulto, língua afiada, coração mais decente do que muita gente boa por aí. Foi uma das únicas pessoas em quem eu confiei de verdade nessa vida. Ela sabia partes da minha história . Não todas. Mas o suficiente pra entender o tamanho da merdä que era meu mundo . E, mais importante: gostava da Gabriela de verdade . A festa foi simples . Bolo, brigadeiro, uns balões tortos, meia dúzia de crianças correndo e barulho demais pro meu gosto . Gabriela tava feliz. E isso bastava . Lembro dela correndo de um lado pro outro com um vestidinho amarelo, o cabelo preso torto porque ela odiava ficar parada, me chamando toda hora pra ver alguma coisa idiotä que, por algum caralhö de motivo, parecia importante pra ela. — Pai, olha! — Pai, vem aqui! — Pai, eu ganhei isso! — Pai, pega no colo! Pai. Toda vez. Eu olhava pra ela e só pensava que talvez a vida tivesse um humor muito sujo mesmo . Porque me deu uma criança que não era minha, pra me prender mais forte do que qualquer filho de sangue talvez prenderia . Naquela noite, depois da festa, eu levei ela pra casa já meio dormindo no meu ombro . O corpinho mole, quente, confiando . Marta veio atrás, reclamando do horário, mandando eu parar de deixar a menina comer doce demais, reclamando que ia dormir na minha casa, falando merdä como sempre falava . Eu até ri. Eu, que quase nunca rio. Foi a última noite de paz que eu tive em muitos anos. A invasão começou de madrugada. Primeiro vieram os rojões . Depois o barulho seco dos tiros cortando o ar. Em seguida, os gritos. Correria. Porta batendo . Rádio chiando. Informação desencontrada . Polícia. Muita polícia. Sentei na cama na mesma hora, a mão já indo pra arma antes mesmo de abrir os olhos direito. Merdä. A casa acendeu em alerta. Tinha homem na porta. Tinha ordem no rádio. Tinha movimentação em todos os lados . Levantei rápido, peguei a pistola, vesti a calça e fui direto pro quarto da Gabriela. Ela tava acordada. Assustada. Os olhinhos arregalados. — Pai? Esse chamado me cortou por dentro. Fui até ela, ajoelhei na frente da cama e segurei o rostinho pequeno entre as mãos. — Escuta aqui. Tu vai pra casa da Marta agora. Sem choro. Sem birra. Sem fazer pergunta. — Mas… — Gabriela. — Falei firme, e ela se calou na hora. — Olha pra mim. Ela olhou. Assustada. Confusa. Pequena. — Vai ficar com a Marta e fica quietinha lá. Eu vou resolver umas coisas e depois eu busco tu. Marta entrou no quarto já desesperada, mas tentando parecer calma por causa dela. — Vem, meu amor. Vem com a tia Marta. Gabriela não foi. Se agarrou na minha camisa. Com força. — Não. Eu quero ficar com você. Lá fora, a casa já tremia com o som da invasão ficando mais perto. Eu sentia o caos vindo. Sentia o cerco fechando. Sentia que essa noite ia mudar tudo. — Vai com a Marta — repeti, tentando soltar os dedos dela da minha roupa. Ela começou a chorar. — Não! Não! — GABRIELA, PORRÄ, ME OBEDECE! Falei alto demais. Duro demais. Na mesma hora, ela parou. Parou e me olhou com aquele susto que até hoje eu lembro. Foi como se eu mesmo tivesse dado um tiro no quarto. Marta me encarou com reprovação, mas não falou nada. Só pegou a menina no colo, mesmo com ela se debatendo, e foi saindo. Na porta, Gabriela virou o rosto pra mim, chorando, os bracinhos esticados na minha direção. — Pai! Essa foi a última vez que eu ouvi ela me chamar assim antes de ser arrancado da vida dela. Quando eu saí pro corredor, já era guerra. Porta arrombadä. Homem caindo. Berro de policial. Tiro pra todo lado. Eu ainda lutei. Ainda derrubei dois. Ainda tentei abrir caminho. Mas o cerco tava fechado demais. Alguém tinha cantado. Alguém tinha vendido informação. E eu sabia que, daqui, ou eu saía morto ou saía algemado. Fui no segundo. Tomaram minhas armas. Me jogaram no chão. Bateram. Pisaram. Xingaram. Tinha sangue na minha boca e ódio até no osso. No meio desse infernö, ainda consegui levantar a cabeça o suficiente pra procurar uma última vez a direção da casa. Não vi Gabriela. Mas pensei nela. Pela primeira vez em muito tempo, eu pensei nela antes de pensar em mim. E foi aí que eu entendi o tamanho real da desgraçä. Porque enquanto me arrastavam escada abaixo, com o morro inteiro acordado assistindo minha queda eu soube. Não era a polícia levando o dono daqui. Era a vida arrancando de uma menina o único pai que ela conhecia. E, pela primeira vez em muitos anos, eu senti medo de verdade. Não da cadeia. Não da tortura. Não da sentença. Mas do que o tempo faria com ela longe de mim. E do que faria comigo sabendo que eu não podia voltar. Porque no instante em que a porta do caveirão bateu e eu ouvi, ao longe, o choro desesperado de uma criança gritando por mim eu tive certeza de uma coisa: se eu saísse vivo dessa porrä um dia, eu ia voltar pro meu morro. Eu ia descobrir quem me vendeu. Eu ia arrancar esse filho da putä do mundo com minhas próprias mãos. E eu ia voltar pra Gabriela. Mesmo que, quando esse dia chegasse, já fosse tarde demais pra nós dois.
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