Capítulo 4

1045 Palavras
Capítulo 4 GENERAL NARRANDO ⌛ Dias atuais... Tem coisa que a cadeia não tira de um homem. Pode tirar o ar, o espaço, o nome, o poder, mas tem coisa que fica. E no meu caso, o que ficou foi o pior. Frieza. Controle. E ódio acumulado por quinze anos. Quinze. Anos. Não é tempo. É sentença. É ferrugem entrando no osso. Xande meu parceiro, meu irmão de outra mãe tentou de várias formas me tirar daqui, mas os filhos da putä não aceitaram nenhum acordo na porrä desses 15 anos. E porrä os dias aqui são fodä. É dia igual ao outro até você parar de contar. Eu parei no terceiro ano. Depois disso, só sobrevivi. Presídio de segurança máxima não é lugar pra homem comum. É jaula de bicho que já perdeu tudo ou de bicho que ainda vai perder. Aqui dentro não tem espaço pra fraqueza. Nem física, nem mental. Ou tu se adapta ou tu apodrece. Eu não apodreci. Eu esperei. Silencioso. Observando. Guardando nome, rosto, dívida. E principalmente esperando a hora. A hora chegou hoje de manhã que parecia igual a todas as outras. Café rüim. Grade abrindo. Passo de bota. Chave girando. Rotina. Até não ser mais. — Levanta — o carcereiro bateu na grade com o cassetete. Abri os olhos devagar. Sem pressa. Sem pergunta. — Audiência. Audiência. Soltei um riso baixo, sem humor. Depois de quinze anos, os filhos da putä lembraram que eu existia. Levantei da cama de concreto, alongando o pescoço devagar, sentindo o corpo responder. Mais pesado. Mais marcado. Mas ainda firme. Muito firme. — Algema ele. Dois vieram. Eu deixei. Sempre deixo. Porque homem inteligente sabe a hora de não reagir. E hoje não era dia de reagir. Era dia de sair. Senti o metal gelado fechar no meu pulso. Olhei pro carcereiro. Ele desviou o olhar. Interessante. Muito interessante. Saí da cela com passo calmo, mesmo com dois armados colados em mim. O corredor cheirava a mofo, suor e desespero. Como sempre. Mas hoje tinha algo diferente. Silêncio demais. E cadeia nunca é silenciosa de graça. Descemos. Portão. Outro portão. Mais chave. Mais barulho de ferro. E então eu vi. Um dos policiais lá fora. Novo. Nunca tinha visto. Mas não foi isso que chamou minha atenção. Foi o jeito que ele me olhou. Rápido. Discreto. E depois desviou. Confirmação. Xande. Filho da putä… Eu sabia. Sabia que ele não ia me deixar apodrecer aqui pra sempre. Xande nunca foi de desistir. E se ele mexeu, ele mexeu certo. Fui colocado dentro do camburão. Dois policiais comigo. Um na frente. Outro do lado. E o motorista. Quatro. Pouco. Muito pouco. A porta bateu. Escuro. O carro começou a andar. Silêncio. Só o barulho do motor e da lataria vibrando. Eu encostei a cabeça na parede e fechei os olhos. Respirei fundo. Contando. Um. Dois. Três. Esperando. Porque operação boa não começa na cadeia. Começa na rua. E termina com sangue. O carro seguiu por alguns minutos. Dez. Quinze. Talvez mais. Difícil saber. Mas aí veio. O primeiro sinal. Uma freada seca. — Que porrä foi essa? — o da frente resmungou. O motorista não respondeu. Segundo sinal. Um barulho de impacto. Metal batendo. Gente gritando. Terceiro. Tiro. Seco. Alto. Próximo. O policial do meu lado puxou a arma na hora. — Fica quieto, porrä! Soltei um riso. — Agora? Outro tiro. Mais perto. Mais um. E outro. O carro sacudiu. — CARALHÖ! — o motorista gritou. E aí começou. Eu tava fortemente escoltado. Rajada. Metralhadora. Explosão de vidro. O mundo virou caos em segundos. O policial da frente abriu a porta. Desceu atirando. Morreu no terceiro passo. Caiu duro. Sem nem entender. O do meu lado tentou reagir. Apontou a arma. Mas antes de puxar o gatilho… BUM. Cabeça estourada. Sangue na minha cara. Silêncio de meio segundo. E então a porta abriu. Devagar. E ele apareceu. Xande. Mais velho. Mais sério. Mais frio. Mas com o mesmo olhar de sempre. Lealdade misturada com violência. — Fala, irmão. Soltei o ar devagar. — Demorou, caralhö. Ele sorriu de canto. — Trânsito tava rüim. Cortou a algema com um alicate pesado. Metal cedendo. Liberdade. Depois de quinze anos. Quinze anos. Saí do camburão pisando no corpo do policial morto. Sem olhar. Sem sentir. Nada. Ao redor, o cenário era guerra. Dois carros atravessados. Homem no chão. Mais dois dos meus segurando posição. Ar pesado de pólvora. Barulho de gente correndo. Sirene longe. — Bora! — Xande falou. Entrei no carro com ele. Porta bateu. O carro arrancou. Forte. Rápido. Sem olhar pra trás. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Sentindo. O ar diferente. O cheiro diferente. A liberdade. Mas não era leve. Nunca é. Liberdade pra homem como eu, não é paz. É guerra aberta. — Quem cantou? — perguntei. Xande segurou o volante firme. — Depois a gente resolve isso. — Eu não perguntei depois. Ele me olhou de canto. — Tem nome. — Então fala. — Rato. Senti o maxilar travar. Rato. Filho da putä. Eu devia ter matado ele quando tive chance. Erro meu. Erro grave. E erro meu, eu corrijo. — Ele cresceu — Xande continuou. — Tomou espaço. Se aliou com gente grande. — Cresceu porque eu não tava na rua. Silêncio. Pesado. — E agora você tá — ele respondeu. Encostei no banco. Olhando pela janela. O mundo passando. Mas nada parecia igual. Quinze anos mudam tudo. Menos o que importa. — E a menina? A pergunta saiu antes de eu pensar. Nunca chamei Gabriela de filha. Xande demorou um segundo. — Tá viva. Mas foi mancada todos esses anos não manter contato frequente com ela. Mas ela tá bem e como eu disse, viva. Óbvio. — Onde? — Com a Marta. Assenti. Respirei fundo. — Ela sabe? — Não. Melhor. Muito melhor. Fiquei em silêncio de novo. Mas agora não era vazio. Era decisão. Era cálculo. Era volta. — O morro? — Mudou… mas ainda é nosso. Soltei um riso baixo. — Sempre vai ser. Olhei pra frente. Pra estrada. Pro caminho. Pro que vinha. E então falei. Sem olhar pra ele. Sem hesitar. Sem dúvida. — Me leva pro meu complexo. Xande sorriu. Pisou mais fundo. E o carro avançou. Porque o General… tinha voltado.
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