Capítulo 5
GENERAL NARRANDO
O asfalto tremia conforme a gente subia.
O vidro fumê do carro escondia minha cara, mas eu sentia os olhos da favela em cima da gente. Cada beco, cada viela, cada vapor com fuzil na bandoleira, tudo parecia estar em suspensão, esperando o sinal.
— O clima tá tenso, General — Xande falou, os olhos fixos no retrovisor, a mão perto da peça. — O X9 deu o papo que os canas e os caras da facção rival podem tentar uma invasão ainda hoje pra te pegar no pulo. Eles acham que tu tá vulnerável por causa da tranca.
Soltei um riso seco, sem tirar o olho da janela.
— Eles são burrös, Xande. Acham que eu vou me esconder em condomínio de luxo ou vazar pra outro estado. O lugar de um homem é onde o sangue dele tá derramado. Eles vão bater de frente com o dono da porrä toda. Avisa os soldados pra ficarem em alerta, mas sem desespero. Deixa eles virem.
O carro cruzou a barreira principal e aí o barulho começou.
Não de guerra, mas de festa.
O som dos fogos estourando no céu cortou o barulho do motor. Logo em seguida, as rajadas pro alto. É o código. É o salve. O dono voltou. A barulheira era tão alta que parecia que o morro ia desmoronar. Eu via a molecada gritando meu nome, as piranhäs acenando, o povo na porta dos bares com o copo pro alto.
Quinze anos na jaula e meu nome ainda pesava mais que chumbo.
Xande parou o carro na frente da minha antiga casa. A fachada tava intacta. Marta tinha mantido a ordem.
— Onde ela tá nesse momento? — perguntei, direto, sem olhar pra ele.
— A Gabriela? Tá com a Marta, lá em cima. Tu não vai lá ver a menina? — Xande perguntou, e eu senti um tom de cobrança na voz dele que me irritou.
— Não.
— General, porrä, ela passou quinze anos esperando um sinal teu. Ela sentiu falta de contato, sentiu o abandono. A menina sofreu, cara.
Virei o rosto devagar, encarando o Xande com um olhar que fazia o presídio inteiro ficar em silêncio.
— Fica na tua, Xande. Tu é meu braço direito, não meu terapeuta. Ela já é moça, tem que saber se virar. Já tô fazendo o suficiente mantendo o luxo dela, sustentando e garantindo que ninguém encoste um dedo. Ela tem a Marta. Agora foca no teu trabalho.
Xande engoliu seco e assentiu. Ele sabia que quando eu fechava a cara, o diálogo acabava.
Desci do carro sem olhar pra trás. Entrei em casa e o silêncio aqui dentro era o que eu precisava. Fui direto pro banheiro. Tirei a roupa suja de rua, de presídio, de passado, e deixei a água quente levar a craca daquela cela.
Saí do banho, enrolei a toalha e acendi um baseadö. O primeiro em liberdade. Puxei o balão com força, sentindo a mente dar aquela relaxada necessária. Fiquei aqui, sentado na poltrona do quarto, olhando pro nada, deixando a fumaça preencher o quarto. Eu precisava recuperar minha essência antes de assumir o trono de vez.
As horas passaram rápido. O sol caiu e o barulho do morro mudou. O batidão do pagode começou a ecoar lá de baixo, na quadra principal. Xande apareceu na porta pouco depois.
— Vai rolar um pagode de recepção, General. O morro todo tá lá te esperando. É a tua chegada, pô. Tem que marcar presença.
Me levantei. Vesti uma calça jeans escura, uma camisa de grife que com certeza tinha sido a Marta que tinha deixado separada, joguei um ouro no pescoço e passei aquele perfume que cheira a dinheiro e poder. Olhei no espelho. O General tava de volta. Mais velho, com mais cicatriz, mas com a mesma sede de antes.
— Vamos.
( ... )
Quando entrei no pagode, o lugar quase veio abaixo. O som parou por cinco segundos pra galera gritar meu nome e depois voltou no talo. O camarote tava pronto. Whisky do caro, gelo de coco, as melhores drogäs da pista e, claro, as putäs.
Sentei no sofá central. Não demorou dois minutos pra duas morenas de corpo esculpido se instalarem no meu colo. Uma em cada perna. As mãos delas já tateavam meu peito, os lábios no meu pescoço, o cheiro de perfume misturado com bebida. Eu tava aqui, de boa, sentindo a carne, bebendo meu whisky, ouvindo o som. Era isso que eu sentia falta. Poder. Präzer. Controle.
Eu tava quase me deixando levar pelas mãos da que tava na direita quando o movimento na entrada do camarote mudou.
A galera abriu espaço. O som parecia ter ficado em segundo plano.
Uma mulher entrou.
E, caralhö, ela não entrou, ela invadiu.
Era ruiva. Um fogo que descia pelas costas num cabelo ondulado que brilhava sob o neon. O corpo era um absurdo de curvas. Ela usava um conjunto de saia e top que não escondia quase nada. A pele era muito branca, destacando cada curva, cada movimento da bundä que parecia ter sido desenhada por um demôniö pra tentar santo. Ela parou no meio da pista, olhou em volta com um ar de quem era dona de tudo e ignorou metade dos caras que babavam por ela.
Senti meu päu dar um pulo no meio dessas duas mulheres. Minha boca secou. Que porrä de piranhä era essa?
Chamei o Xande com um aceno curto, sem tirar o olho da ruiva.
— Xande — sussurrei quando ele encostou. — Quem é aquela ruiva ali? A que acabou de entrar e parou o pagode?
Xande seguiu meu olhar. Ele soltou um suspiro pesado, o tipo de suspiro de quem sabe que a merdä tá prestes a acontecer.
— É a tua filha, General. É a Gabriela.
O copo de whisky quase escorregou da minha mão.
Olhei pra ela de novo. E porrä, o peso dessa informação me atingiu como uma rajada de fuzil no peito. Aquela mulher, com aquele corpo, com aquele olhar de desafio e aquela boca que parecia pedir pra ser fodidä, era a "menininha" que eu tinha deixado pra trás.
O mundo ficou mudo. Meus olhos ficaram presos nela, e eu senti um frio na espinha que nem na segurança máxima eu senti.