Capítulo 6

1173 Palavras
Capítulo 6 GABRIELA NARRANDO Momentos antes... — Ele voltou, Gabriela. As palavras da tia Marta caíram como um balde de água gelada nas minhas costas. Eu parei de mexer no celular na mesma hora, sentindo meu coração dar um solavanco tão forte que chegou a doer. Quinze anos. Quinze anos esperando, contando os dias, imaginando como seria o momento em que ele cruzaria essa porta e me pegaria no colo, como fazia quando eu era pequena. Eu criei uma imagem heróica dele na minha cabeça. O homem que ficou quando minha mãe fugiu. O homem que me protegeu até onde pôde. — Onde ele está? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas sentindo minhas mãos tremerem. — No morro. O Xande resgatou ele hoje de manhã. Estão dizendo que agora de noite ele desceu pro pagode. Tá lá na quadra, comemorando a liberdade. Senti um nó amargo apertar minha garganta. Ele estava aqui. No mesmo morro. A poucos metros de distância. E não veio me ver. Ele preferiu o barulho, a bebida e o lixo do pagode do que me dar um "oi". O sentimento de rejeição queimou por dentro, transformando a saudade em uma raiva gelada. — Ele não veio aqui, tia Marta... — murmurei, mais para mim mesma do que para ela. — Ele deve estar de cabeça quente, Gabi. Foram muitos anos na tranca... — Não justifica. Ele teve tempo de ir pro pagode, mas não teve tempo de ver a filha? — Levantei do sofá com o sangue fervendo. — Pois se ele quer festa, ele vai ter. Fui direto pro meu quarto. Eu nunca fui de usar roupa vulgar. Sempre fui a menina doce, educada, que a tia Marta criou com todo cuidado. Mas hoje, a Gabriela boazinha tinha ficado trancada naquele sofá. Eu precisava que ele me visse. Eu precisava que ele entendesse que eu não era mais a menininha que ele abandonou. Abri o guarda-roupa e puxei um conjunto que eu tinha comprado e nunca tive coragem de usar. Uma saia jeans curtíssima e um top branco de alcinha que deixava meu abdômen todo de fora e marcava bem meus seiös. Me olhei no espelho. Eu estava bonita. Irresistível. E perigosa. Passei um batom vermelho, soltei meus cabelos ruivos e calcei uma sandália alta. — Gabriela, você tem certeza disso? — Tia Marta apareceu na porta, me olhando com preocupação. — O General não é homem de brincadeira. O temperamento dele... — Eu também não estou pra brincadeira, tia Marta. Ele quis ignorar minha existência? Agora ele vai ter que me encarar. — Eu não vou pra esse ambiente, você sabe. Vou ficar aqui rezando pra você não fazer bobagem. — Fica tranquila. Eu só vou curtir o pagode. Saí de casa sentindo o peso dos olhares assim que pisei na rua. Eu não era de sair, então ver a "filha do General" montada desse jeito era raridade. Cheguei na quadra e o som do batidão tava ensurdecedor. O cheiro de cerveja e fumo pairava no ar. Meus olhos varreram o camarote imediatamente. E lá estava ele. O coração falhou uma batida. Ele estava mais velho, mais forte, com uma expressão ainda mais dura. Mas o que me destruiu foi ver as duas mulheres penduradas nele. Uma em cada perna, se esfregando como se ele fosse um pedaço de carne. Ele ria, bebia, agindo como se eu nem existisse no mapa. Engoli o choro e a vontade de ir embora. Não. Agora eu ia até o fim. Fingi que não o vi. Caminhei pelo meio da pista com o queixo erguido, sentindo os olhares dos caras me devorando. Parei perto do bar e pedi uma bebida. Não demorou dois minutos pra um carinha, devia ter uns 22 anos, se aproximar. Ele era bonito, jeitinho de playboy do asfalto que se achava malandro. — E aí, ruiva? Perdida por aqui? — ele perguntou, com um sorriso de lado. — Só curtindo a música — respondi, forçando um sorriso doce, mas com o olhar atento ao camarote pelo canto do olho. — Uma mulher como você não devia ficar sozinha. Quer companhia? — Ele chegou mais perto, invadindo meu espaço, e eu deixei. Comecei a puxar papo, rindo das piadinhas sem graça dele, jogando o cabelo e sendo a mais irônica e charmosa que eu conseguia ser. Eu via, lá de cima, que o General tinha parado de rir. Ele estava estático, olhando fixamente pra onde eu estava. Eu estava vencendo. Ele estava me vendo. O cara do meu lado se empolgou e colocou a mão na minha cintura, chegando o rosto perto do meu pescoço pra falar algo. Eu não recuei. Pelo contrário, dei um sorrisinho. Foi o limite. Eu não vi ele descendo. Só senti o ar ser arrancado dos meus pulmões quando uma mão de ferro fechou no meu braço com uma força brutal, me puxando pra trás de uma vez. Meu corpo bateu contra um peito duro como pedra. O cheiro de whisky, cigarro e o perfume dele me inundou. Olhei pra cima e dei de cara com o General. Os olhos dele estavam pretos de ódio, o maxilar tão travado que parecia que ia quebrar. — Mas o que é isso...? — o carinha tentou falar, mas murchou na hora em que viu quem era. — Vaza daqui agora, antes que eu te mande pro infernö em pedaços — o General rosnou, a voz tão baixa e perigosa que fez os pelos do meu corpo todo arrepiarem. O cara saiu correndo sem olhar pra trás. Eu tentei puxar meu braço, mas a pegada dele era impossível de soltar. Ele me encarava como se quisesse me devorar viva. — Me solta, General! — falei, tentando manter a ironia, mas minha voz saiu trêmula pela proximidade. — Tá atrapalhando meu papo. — O papo acabou, Gabriela — ele falou perto do meu rosto, o hálito quente batendo na minha pele. — Tu vai sair daqui agora. E a gente vai ter uma conversa que tu devia ter tido há quinze anos. Ele começou a me arrastar pelo meio da multidão. Eu era doce, era educada, mas o sangue dele corria nas minhas veias. — ME SOLTA! VOCÊ NÃO TEM O DIREITO! PASSOU QUINZE ANOS SEM QUERER CONTATO COMIGO E AGORA QUER DAR UMA DE PAI PROTETOR? — gritei, tentando me soltar enquanto ele me levava em direção à saída, os olhos de todo mundo pregados na gente. — Eu não tô dando uma de pai, Gabriela — ele parou de repente, me prensando contra uma pilastra na saída da quadra, o corpo dele esmagando o meu. — Eu tô dando uma de dono. E o que é meu, ninguém encosta. Entendeu? O olhar que ele me deu nesse momento não era de pai. Era de um homem possuído pela raiva e por algo muito mais escuro. E, pela primeira vez na noite, eu tive certeza: eu tinha conseguido a atenção dele. Mas agora, eu não sabia se ia dar conta do que vinha depois.
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