Capítulo 7

1128 Palavras
Capítulo 7 GENERAL NARRANDO Eu não esperei ela responder. No momento em que vi a mão daquele moleque na cintura dela, o General que eu tentei segurar a noite toda morreu. O homem que sobrou era puro instinto e fúria. Segurei o braço da Gabriela com tanta força que vi os meus dedos deixando marca. Ela tentou protestar, mas eu nem ouvi. Arrastei ela pelo meio do camarote, derrubando copo, empurrando quem estivesse na frente. O pagode podia estar no talo, mas o silêncio que se abria por onde eu passava era o sinal de que ninguém aqui era louco de atravessar meu caminho. — GENERAL, ME SOLTA! TODO MUNDO ESTÁ OLHANDO! — ela gritava, tropeçando no salto enquanto eu a levava em direção à saída lateral da quadra. — Deixa olhar, PORRÄ! — rosnei, sem diminuir o passo. — Que vejam o que acontece com quem fãs merdä e tu ainda tá no lucro. Chegamos no carro e o Xande já estava com a porta de trás aberta, sacando o clima pesado. Eu joguei a Gabriela dentro do banco de trás como se ela fosse uma carga qualquer. Ela caiu de lado, o cabelo ruivo cobrindo o rosto, e antes que ela pudesse sentar, eu bati a porta com tanta força que o vidro chegou a vibrar. Contornei o carro, entrei no banco do motorista e travei as portas no automático. O barulho das travas ecoou como uma sentença dentro dessa cabine. Olhei para o lado e vi que o Xande tinha entrado também, só quero entender que caralhö ele tá achando que pode se meter assim, em nenhum eu mandei ele entrar nessa porrä. Mas por agora não vou falar nada. O trajeto da quadra até em casa foi um ensaio para o infernö. Dentro do carro, o ar parecia ter acabado. Eu não olhava para o trás, mas sentia a respiração curta da Gabriela, o cheiro doce dela impregnado no couro do banco, misturado com o cheiro de suor e bebida daquele lugar imundo. Minhas mãos apertavam o volante com tanta força que as juntas dos dedos estavam brancas. Xande estava no banco do carona, estático. Ele sentia a radiação que emanava de mim. Pelo retrovisor, eu via os olhos dele buscando os meus, tentando talvez achar um brecha pra me acalmar, mas ele sabia que hoje não tinha conversa. Assim que estacionei o carro na frente de casa, a Gabriela tentou abrir a porta, mas eu já tinha travado tudo. — Desce, Xande — ordenei, sem tirar os olhos do para-brisa. — General, a gente precisa falar sobre a segurança do perímetro, o Rato pode... — DESCE, PORRÄ! — rosnei, virando o rosto pra ele. — Pega os soldados, faz a ronda, some da minha frente. Agora é assunto de família. Xande engoliu em seco, assentiu e saltou do carro rápido. Ele sabia que se ficasse mais um segundo, a sobra do meu ódio ia sobrar pra ele. Até porque eu sabia que ele tava tentando me fazer mudar o foco. No momento em que a porta dele bateu, eu destravei a da Gabriela. Ela não esperou. Saiu quase tropeçando na própria pressa, tentando fugir pro portão, mas eu fui mais rápido. Saí do carro, contornei a frente e fechei a mão no pulso dela antes que ela desse o segundo passo. — Me solta! Você está me machucando! — ela falou, os olhos verdes brilhando com uma mistura de medo e afronta. Eu não respondi. Arrastei ela para dentro, chutei a porta da sala pra fechar e joguei o corpo dela pra longe do trinco. O baque da porta ecoando na casa vazia foi o sinal de que a jaula tinha fechado. Eu não gritei. Não valia a pena. Falei baixo, num tom que eu usava antes de mandar alguém pro micro-ondas. — Tu acha o quê, Gabriela? — Me aproximei devagar, vendo ela recuar até bater as costas na parede. — Que eu passei quinze anos comendo o pão que o diabö amassou pra chegar aqui e ver tu se esfregando em moleque de pista? Que eu te sustentei pra tu virar troféu de playboy em pagode? E ainda vestida desse jeito? — EU NÃO SOU UM TROFÉU! — ela gritou, a voz trêmula. — Você sumiu! Você me deixou sozinha! Eu não te devo satisfação de como eu me visto ou com quem eu falo! — TU ME DEVE A VIDA, CARALHÖ! — Dessa vez minha voz subiu um tom, mas logo voltou pro sussurro perigoso. — Enquanto eu tava na tranca, eu só pensava em te manter segura. E tu me retribui desse jeito? Se expondo? Deixando VAGABUNDÖ encostar em você? Passei a mão pelo rosto, sentindo o sangue pulsar na têmpora. O pensamento de que aquele desgraçadö tinha encostado a mão na cintura dela, de que o cheiro dele podia estar na pele dela, me deu uma náusea assassina. — Sobe — falei, apontando para a escada. — O quê? — Sobe agora e vai pro banheiro. — Eu não vou obedecer as suas ordens malucas... — VAI! — O berro ecoou na casa toda, fazendo ela pular no lugar. — Tu vai entrar naquele chuveiro e vai esfregar essa tua pele até tirar o cheiro da rua. Até tirar o rastro de qualquer macho que tenha respirado perto de você hoje. Tu vai lavar cada centímetro dessa porrä desse corpo até ele tá limpo de novo. Entendeu? Ou eu mesmo vou ter que subir e te esfregar? Ela me olhou como se eu fosse um monstro. E talvez eu fosse. Nesse momento, eu não era o pai da infância dela. Eu era o dono reivindicando a porrä do respeito que ela não tava tendo. — Você é louco — ela sussurrou, as lágrimas finalmente transbordando. — Sou. E tu ainda não viu nem metade da minha loucura. Sobe. Agora. Ela subiu as escadas correndo, chorando, o som dos passos dela no degrau de madeira parecendo batidas de tambor no meu peito. Fiquei na sala, sozinho. Minha mão ainda tremia. Peguei a garrafa de whisky que estava em cima do aparador e virei direto no gargalo. Eu ouvi o som do chuveiro ligando lá em cima. Fechei os olhos e encostei a cabeça na parede. Eu conseguia imaginar a água caindo sobre ela, a pele vermelha de tanto esfregar e a pior parte, a parte que me fazia querer me odiar, era que eu queria estar lá dentro. Não pra limpar. Mas pra sujar do meu jeito. — Caralhö, mais que porrä eu tô pensando? Eu estava perdendo o controle. E no meu mundo, um homem sem controle é um homem morto. O problema era que a Gabriela parecia ser o único gatilho que eu não sabia como travar.
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