Capítulo 8

1163 Palavras
Capítulo 8 GABRIELA NARRANDO A água do chuveiro estava pelando, mas eu não sentia o calor. Eu esfregava a minha pele com tanta força que os meus ombros e o meu peito já estavam num tom de vermelho vivo. As palavras dele, aquele rosnado baixo mandando eu tirar o "cheiro da rua", ecoavam na minha mente como um disco riscado. Eu me sentia suja, não pelo pagode, nem pelo cara que tentou me ganhar no papo, mas pela forma como o General olhou para mim. Como se eu fosse um objeto que alguém tinha encostado sem permissão. Saí do banho tremendo. O vapor enchia o banheiro, mas o frio vinha de dentro. Sequei o corpo rápido e vesti a primeira camisola que encontrei na gaveta do meu antigo quarto: uma de cetim preto, curta, de alcinha. Eu não escolhi essa peça para provocar. Escolhi porque era leve, e eu sentia que o ar nesta casa estava pesado demais para aguentar qualquer outra coisa. Deitei na cama, puxando os lençóis até o queixo, olhando para o teto escuro. O silêncio da casa era cortante. Eu esperava ouvir o barulho da porta da rua batendo, o som do motor do carro dele indo embora para algum lugar onde tivesse bebida e mulheres que não o fizessem agir como um louco. Mas o silêncio continuava. De repente, o som da maçaneta girando fez o meu coração pular na garganta. A porta abriu com um impacto controlado. O General entrou sem bater, sem pedir licença, sem hesitar. Ele ainda estava com a mesma roupa, mas a camisa estava agora desabotoada em cima e o cheiro de whisky que vinha dele preencheu o quarto num segundo. Ele não chegou perto da cama; ficou parado junto à porta, uma sombra pesada que parecia ocupar o quarto inteiro. — Já avisei a Marta — ele disse. A voz estava mais calma, mas era aquela calma de quem já decidiu o destino de alguém e não aceita reclamação. — Ela traz as tuas coisas amanhã. A partir de hoje, tu vai dormir aqui. Aliás, fica logo ciente: tu vai morar aqui de novo. Esquece a casa da Marta. Esquece aquela vida de antes. Sentei na cama na mesma hora, a camisola de cetim escorregando pelos meus ombros. O choque dessas palavras fez a minha raiva subir de novo. — Como é que é? Tu não pode simplesmente decidir onde eu moro! Eu tenho vinte anos, General! Eu vivi quinze anos sem você, fiz minha rotina, minha vida com a tia Marta... — Tu viveu quinze anos esperando eu voltar para pôr ordem nessa porrä — cortou ele, dando um passo em direção à cama. — A Marta fez o papel dela, mas agora o dono da casa voltou. E tu é a minha prioridade. Tu não vai morar sozinha com com a Marta mais enquanto o morro tá em pé de guerra. — Prioridade? — Soltei uma risada amarga. — Agora eu sou prioridade? E onde tava essa prioridade quando eu fazia aniversário e só recebia um envelope com dinheiro? Onde tu tava quando eu ficava doente e a Marta tinha que se virar? Ele ignorou a minha mágoa como se fosse um detalhe idiotä. — Escuta bem o que eu vou te falar, Gabriela. Não quero saber do que tu sente agora. O que importa é a tua segurança. A partir de amanhã, tu não pisa na rua sem a escolta do Xande ou a minha. Se eu souber que tu saiu daqui sem autorização, as consequências não vão ser bonitas. — TU TÁ ME PRENDENDO! — gritei, levantando da cama. O cetim preto balançava nas minhas coxas enquanto eu caminhava até ele, sem medo. — Tu tá transformando essa casa numa cela! Eu me sinto uma prisioneira! — Se tu for prisioneira aqui, pelo menos tá viva — respondeu ele, os olhos fixos nos meus, impenetráveis. — É melhor tu colaborar, Gabriela. Não torna as coisas mais difíceis pra tu. Eu não tenho paciência para birra de menina mimada. — Menina mimada? — Encostei o meu peito no dele, desafiando a barreira física que ele tentava impor. — Tu não sabe nada sobre mim. Nada! A proximidade era perigosa. Eu conseguia sentir o calor que vinha do corpo dele, a batida pesada do coração dele. O silêncio tomou conta, denso como fumaça. Foi então que a pergunta que tava presa na minha alma há quinze anos saiu num sussurro desesperado. — Por que tu me rejeitou esses quinze anos? O General travou. O maxilar dele apertou com tanta força que vi os músculos do rosto saltarem. Ele não disse nada. — Responde! — insisti, batendo com a mão no peito dele. — Se eu sou tão importante, por que nunca deixou eu te visitar? Por que nunca escreveu uma carta que fosse? Por que me tratou como se eu fosse um erro que tu queria esquecer enquanto pagava as contas? Responde, PORRÄ! Eu sou tua filha! Eu só queria ter contato com o meu pai! Já que eu não tenho mãe! Ele inspirou fundo, o peito expandindo contra as minhas mãos. O olhar dele, que até então tava focado nos meus olhos, começou a descer. Lento. Pesado. Devastador. Ele olhou para a minha boca, depois para o meu pescoço, e continuou descendo pela camisola de cetim que marcava cada curva do meu corpo sob a luz fraca do abajur. O olhar dele não era o de um pai preocupado. Era um olhar faminto, escuro, carregado de um desejo tão cru que me fez perder o fôlego. O ar entre nós pareceu pegar fogo. Eu senti um arrepio que não era de frio percorrer a minha espinha toda . — O que eu tinha que fazer, eu fiz — disse ele, a voz agora tão rouca que era só um fio de som. — Te sustentei. Te protegi de longe. O resto... o resto não é da tua conta . — Não é da minha conta? — tentei manter a voz firme, mas a forma como ele me olhava tava me desarmando. — Tu é um covarde . O General não respondeu ao insulto. Ele deu um passo atrás, quebrando o contato, mas o olhar dele ainda demorou um segundo extra nas minhas pernas antes de voltar para o meu rosto. Não tinha arrependimento aqui . Sem falar mais nada, ele deu meia-volta e saiu do quarto, batendo a porta atrás dele. Fiquei sozinha, no meio do quarto, tremendo. Minhas pernas tavam fracas. E agora, vivendo na mesma casa, com ele agindo como meu carcereiro e meu dono, eu sabia que a nossa guerra tava só começando. E a primeira coisa que eu ia perder era a minha sanidade. Deitei de novo, mas o sono não veio. No andar de baixo, ouvi o som de um copo quebrando e o silêncio absoluto que veio depois. Ele ainda tava na casa. Eu só não sabia se isso era bom ou rüim.
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