Capítulo 9
GABRIELA NARRANDO
No dia seguinte acordei com o sol batendo direto no meu rosto. Por um segundo, esqueci onde estava. Achei que ia abrir os olhos e ver as paredes simples do meu quarto na casa da tia Marta, senti o cheiro do café que ela sempre passava cedo. Mas o teto era outro. O silêncio era outro. Era o silêncio de uma casa que parecia um mausoléu de lembranças que eu nem sabia se eram minhas.
Levantei devagar, sentindo o corpo pesado. Fiz minha higiene, joguei uma água gelada no rosto pra ver se a realidade assentava, e vesti uma roupa confortável que ainda tinha guardada aqui: um short de moletom cinza e uma regata branca. Desci as escadas com o coração na mão, esperando encontrar o General na sala, pronto para soltar mais um dos seus decretos, mas a casa estava vazia.
O silêncio era ensurdecedor. Fui até a cozinha, tomei um café preto sem açúcar e senti um aperto no peito. Peguei o celular e mandei mensagem pra tia Marta.
📲 Eu
Tia, o General me obrigou a ficar. Disse que não volto mais pra sua casa. Me ajuda, eu tô me sentindo presa aqui.”
A resposta veio minutos depois, carregada daquela prudência que só a tia Marta tinha.
📲 Tia Marta ❤️
Calma, Gabi. O sangue dele é quente, mas ele te ama do jeito torto dele. Vou tentar conversar com ele, mas não bate de frente agora. Deixa a poeira baixar. E outra coisa ele é seu pai! General é para os outros. Não se refira a ele assim.
📲 Eu
Ele não me chama de filha, estou cansada de dar carinho e não receber. A partir de hoje pra mim ele é General.
📲 Tia Marta ❤️
Depois vamos conversar mocinha, mas por enquanto só não apronta tá bom? E seja paciente.
📲 Eu
Tá bom.
Coloquei o celular na mesa com ódio. Deixar a poeira baixar? Eu fui arrancada da minha vida e agora tinha que ser "paciente"?
Passei o dia andando pelos cômodos como um bicho enjaulado. A casa era grande, luxuosa, mas tinha uma energia fria. Subi, desci, tentei ler, tentei ver TV, mas nada prendia minha atenção. As horas se arrastavam. Chegou a tarde, depois o entardecer, e nada do General aparecer. Onde ele estava? No morro, resolvendo os "negócios" dele? Ou com alguma daquelas piranhäs que tavam no colo dele ontem? Só de pensar, meu sangue fervia de um jeito que eu não sabia explicar.
Quando a noite caiu de vez, a ansiedade tomou conta. Eu não aguentava mais ficar trancada nesse quarto. Desci de novo e comecei a rodar o andar de baixo. Parei diante de uma porta de madeira maciça que eu sabia que era o escritório dele. Ele nunca deixava ninguém entrar aqui. Mas ele não estava em casa. E eu precisava de respostas.
Girei a maçaneta devagar. Estava aberta.
O cheiro dele estava aqui dentro, impregnado em tudo. Couro, fumo e um perfume amadeirado que me dava tontura. O escritório estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela grande atrás da mesa de madeira.
Comecei a mexer nas gavetas. Papéis, notas, relatórios de cargas, nada que me interessasse. Até que, no fundo de uma gaveta trancada que forcei um pouco, achei uma pasta velha.
Me sentei na cadeira dele. A cadeira de couro era grande, me fazia sentir pequena, mas o poder que emanava desse lugar era inegável. Abri a pasta e meu coração parou.
Tinha uma foto velha, amarelada. Minha mãe, Rose, estava nela. Ela era linda, o cabelo ruivo exatamente como o meu, mas tinha um olhar vazio, um sorriso que parecia forçado. Tinha também alguns documentos, recortes de jornal da época da prisão dele. Mas o que me travou foi um bilhete, escrito com uma letra corrida, meio borrada:
"Eu preciso viver a minha própria vida, General. E eu não nasci pra ser sombra de homem nenhum. Eu não nasci para ser mãe. A Gabriela vai ficar melhor com você. Fica com o que é teu por direito."
O que é teu por direito.
Eu era um "direito" dele? Um objeto que a Rose deixou pra trás pra poder viver a vida dela? Eu estava tão distraída nessas palavras, tentando entender o que minha mãe sentia, que não ouvi os passos no corredor. Não ouvi a porta abrir.
— O que tu tá fazendo aí, Gabriela?
A voz dele veio como um trovão silencioso no escuro.
Eu dei um pulo, o papel escapando das minhas mãos e caindo sobre a mesa. O General estava parado no portal da porta. A luz do corredor criava uma silhueta gigante dele. Ele estava sujo. A camisa preta tinha manchas que pareciam fuligem, o cabelo estava bagunçado e o olhar... o olhar estava perigoso.
— Eu... eu só tava procurando umas coisas — gaguejei, tentando manter a postura, mas minhas pernas tremiam sob a mesa.
Ele entrou no escritório, fechando a porta atrás dele com um chute. O clique da tranca ecoou no meu peito. Ele caminhou devagar até a mesa. Cada passo dele parecia fazer o chão vibrar. Ele contornou a mesa e parou bem do meu lado. Ele não me mandou sair. Ele simplesmente se inclinou, apoiando as duas mãos na mesa, me cercando com os braços.
A proximidade era absurda. Eu sentia o calor do corpo dele, o cheiro de suor misturado com pólvora. Era um cheiro bruto, de homem que tinha acabado de sair de um confronto.
— Tu não tem o direito de mexer nas minhas coisas — ele falou, o rosto tão perto do meu que eu sentia o hálito dele na minha bochecha. — Eu falei pra tu ficar no teu canto.
— Eu queria saber da minha mãe! — falei, a voz saindo em um sussurro corajoso enquanto eu encarava os olhos dele, negrös de raiva. — Tu nunca fala dela. Tu nunca fala de nada! Eu sou uma pessoa, General, não um móvel da tua casa que tu tranca quando sai!
Ele riu, um riso curto e sem humor, e desceu o olhar para o bilhete sobre a mesa.
— Tua mãe foi uma covarde que não aguentou o peso da realidade — ele disse, e a mão dele se moveu, pegando a foto da minha mãe. Ele a amassou sem o menor cuidado. — E tu tá seguindo o mesmo caminho se acha que pode me desafiar dentro da minha própria casa.
Ele se inclinou mais. O espaço apertado entre a cadeira e a mesa me deixava sem saída. O peito dele roçava no meu ombro. Eu conseguia ouvir a respiração dele, pesada, descompassada. O clima no escritório mudou de repente. A raiva dele ainda estava aqui, mas outra coisa tinha surgido. Uma tensão elétrica que fazia os pêlos do meu corpo se arrepiarem.
— Sai da cadeira — ele ordenou, mas não se afastou para me deixar passar.
Tentei levantar, mas ao fazer isso, meu corpo roçou no dele. Meus seiös, livres sob a regata fina, tocaram o braço dele. O General travou. Ele soltou um rosnado baixo, quase imperceptível, e sua mão, em vez de me afastar, segurou o meu queixo, forçando meu rosto para cima.
Os olhos dele me devoravam. Ele olhava para a minha boca com uma fome que me dava medo e uma sensação estranha ao mesmo tempo. Eu estava paralisada. Minha respiração ficou curta.
— Tu é igualzinha a ela — ele murmurou, o polegar roçando meu lábio inferior com uma força desnecessária. — O mesmo fogo, a mesma petulância.
— Eu não sou ela — consegui dizer, embora minha voz estivesse sumindo.
— Não — ele concordou, a voz descendo uma oitava, ficando rouca e sombria. — Tu é pior. Porque ela eu podia mandar embora. Mas tu... tu tá cravada em mim de um jeito que tá me tirando o juízo, PORRÄ.
O rosto dele desceu mais alguns centímetros. Eu fechei os olhos, esperando um beijo, um abraço, uma desculpa, uma agressão, qualquer coisa que quebrasse essa tortura. Eu sentia a mão dele apertar meu queixo, sentia o corpo dele vibrar de tensão.
A proximidade parecia um pecado que a gente estava cometendo em silêncio.
De repente, ele soltou meu rosto como se tivesse se queimado. Ele deu um passo atrás, a expressão voltando a ser aquela máscara de pedra, fria e impenetrável.
— Sai daqui, Gabriela — ele disse, a voz cortante como uma lâmina. — Agora. Antes que eu faça uma merdä que não tem volta.
— Do que você está falando?
— SAI PORRÄ!
Eu não esperei ele repetir. Saí tropeçando nos meus próprios pés, mas saí correndo do escritório. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito. Subi as escadas sem olhar pra trás e me tranquei no meu quarto.
Encostei na porta, escorregando até o chão. Eu estava tremendo da cabeça aos pés. O General parecia que não me olhava como pai.
Lá embaixo, ouvi o som de algo sendo arremessado contra a parede e o grito de ódio dele. Ele parecia estar em guerra. E eu o campo de batalha.