Capítulo 15
GABRIELA NARRANDO
Dias depois ...
O silêncio dele era pior do que qualquer grito.
Já faz dias que o General me trata como se eu fosse um fantasma assombrando a própria casa. Ele entra, sai, dá ordens pro Xande, resolve as paradas do morro, mas quando os olhos dele cruzam com os meus, ele desvia na hora. É um desvio seco, como se olhar pra mim causasse dor física nele.
Eu passei a tarde toda sentada na escada, só ouvindo o movimento. Eu ainda o vejo como o meu pai, o homem que me criou, que me deu a vida, mas a sensação de rejeição tá me matando. E não é só isso. Tem algo mais. Toda vez que ele passa por mim, exalando aquele cheiro de maconhä e poder, meu corpo reage. Meu coração acelera de um jeito que não acelerava quando eu era criança. É um calor que começa no peito e desce, me deixando inquieta, me deixando confusa.
Eu sinto que ele tá estranho, agressivo demais, mas eu não sei o porquê. Será que ele se arrependeu de ter me feito com a minha mãe?
Decidi que hoje ele não ia me ignorar.
Esperei dar dez da noite. Ouvi quando ele entrou, o passo pesado ecoando na sala. Ele não foi pro quarto, foi pra cozinha. Desci as escadas devagar, sentindo o frio do chão nos meus pés descalços. Eu tava com uma camisola de algodão simples, nada demais, mas o jeito que o tecido roçava na minha pele me deixava consciente de cada curva do meu corpo.
Quando entrei na cozinha, ele tava de costas, bebendo água direto da jarra, com o fuzil encostado no balcão. As costas dele eram largas, cheias de cicatrizes que eu queria tocar, queria saber a história de cada uma.
— General... — chamei baixo.
Ele travou. Vi os ombros dele ficarem rígidos na mesma hora. Ele não se virou.
— Vai deitar, Gabriela. Já tá tarde.
— Não. Eu cansei de ser ignorada — falei, dando um passo pra frente. — Tu voltou pra minha vida pra agir como se eu fosse um móvel? Tu me tirou da casa da tia Marta pra eu ser prisioneira do teu silêncio?
— Eu tô te protegendo — ele disse, a voz rouca, ainda de costas.
— Me protegendo de quê? Do morro ou de você? — a pergunta saiu sem eu pensar, e o silêncio que veio depois foi pesado.
Ele se virou devagar. O rosto dele tava cansado, mas os olhos tavam em chamas. Ele me varreu de cima a baixo, e eu senti um arrepio violento. Não era medo. Era uma eletricidade que fazia meus mämilos ficarem rígidos sob o tecido fino da camisola. Eu não entendi por que meu corpo tava fazendo isso, mas eu senti a queimação.
— Tu não sabe o que tá falando, menina — ele falou, dando um passo na minha direção.
— Sei sim! Tu tá me tratando mäl. Esses dias tu me empurrou, hoje tu nem olha na minha cara. O que eu te fiz? — eu tava quase chorando de frustração. — Eu só queria cuidar de você, General. Eu sou tua filha...
No momento em que eu falei "filha", vi o maxilar dele travar tanto que achei que fosse quebrar. Ele deu mais dois passos, invadindo meu espaço, me encurralando contra a geladeira fria. O calor que emanava dele era absurdo. Eu tive que olhar pra cima pra encarar ele, e a proximidade me deixou tonta.
— Filha... — ele repetiu a palavra como se fosse um veneno na boca dele.
Ele levantou a mão e, por um segundo, achei que fosse me fazer um carinho no rosto. Mas ele parou a mão no ar, a centímetros da minha bochecha. Ele tava tremendo. O General, o homem mais perigoso do Rio, tava tremendo na minha frente.
— Tu não entende nada — ele murmurou, o olhar cravado na minha boca. — Tu acha que eu sou o herói da tua infância, mas eu sou um homem, Gabriela. Um homem que passou quinze anos num infernö e que agora tá vendo o diabö na forma de uma ruiva abusada.
Eu senti um puxão no baixo ventre. Uma sensação nova, úmida, quente. Eu olhava pra ele e, pela primeira vez, a imagem do "pai" borrou. Eu tava vendo o homem. O pescoço grosso, a barba por fazer, a força que ele tava fazendo pra não me tocar.
— Então me mostra — desafiei, a voz saindo num sussurro que eu nem reconheci. — Me mostra quem tu é de verdade.
O General soltou um rosnado abafado e socou a geladeira, bem do lado da minha cabeça. O barulho me fez pular, mas eu não desviei o olhar.
— Sai daqui agora — ele ordenou, a voz saindo das profundezas do peito. — Antes que eu esqueça quem tu é. Antes que eu esqueça quem eu deveria ser. VAI!
Eu saí correndo. Meu coração parecia uma escola de samba dentro do peito. Subi as escadas e me tranquei no quarto, sentindo minhas pernas bambas. Me encostei na porta e escorreguei até o chão, levando a mão ao peito.
Eu tava assustada, sim. Mas pela primeira vez, eu senti o que era aquele "estranho" que ele tava sendo. Não era ódio. Era algo que ele tava tentando esconder. E o pior de tudo era que agora, sentada no escuro do meu quarto, eu percebi que eu também tava começando a sentir esse algo.
Eu não sabia o nome disso ainda, mas o jeito que meu corpo reagia ao rosnado dele não era amor de filha. Parecia um pecado começando a nascer.