Capítulo 14
GENERAL NARRANDO
Eu não dormi. Passei a madrugada inteira sentado na varanda da sala, com um fuzil atravessado no colo e uma garrafa de cachaça barata ao lado, essas eram mais forte. A adrenalina da tentativa de invasão do Rato já tinha baixado, mas o veneno que corria no meu sangue era outro. Era o toque dela.
Ainda sentia a pressão dos dedos da Gabriela no meu braço. Um toque de cuidado, de filha, de quem queria apenas me ver bem e eu reagi como um bicho acuado. Empurrei a única pessoa que se importa comigo nesse mundo porque eu não conseguia mais separar o carinho da cobiça.
Minha mão, a mesma que ela tentou segurar, agora fechava em punho até os ossos estalarem. Eu me sentia sujo. Uma coisa é ser bandido, ser assassino, ser o dono do morro que não tem pena de inimigö. Outra coisa é olhar para a menina que tu viu crescer e sentir o que eu senti quando ela me abraçou por trás.
O calor do corpo dela contra as minhas costas... porrä, aquilo quase me fez desmoronar.
Quando o sol começou a clarear o morro, eu já tinha tomado uma decisão. Se eu não conseguia controlar meu pensamento, eu ia controlar a distância. Se eu ficasse perto, eu ia acabar fazendo uma merdä que nem o infernö ia me perdoar. Eu ia ser o gelo que ela não ia conseguir quebrar.
Ouvi os passos dela lá em cima. Leves. Hesitantes.
Me levantei, guardei a garrafa e fui para a cozinha. Quando ela desceu, eu já estava de pé, de costas, olhando para o nada pela janela da área.
— Bom dia... — a voz dela veio baixinha, rouca de sono.
Eu não virei. Não podia ver ela com o cabelo bagunçado e aquela carinha de quem acabou de acordar.
— O café tá na mesa. Toma e sobe. Não quero tu circulando pela casa hoje. Tenho muita reunião pra fazer aqui e o clima não tá pra brincadeira.
Houve um silêncio. Eu sentia os olhos dela cravados nas minhas costas, provavelmente procurando o pai que cuidava dela, mas encontrando apenas o General.
— Você nem vai me olhar? — ela perguntou, e eu ouvi o nó na garganta dela. — Ontem você tava sangrando, General. Eu passei a noite preocupada.
— Eu tô bem, Gabriela. Já falei — respondi, seco, a voz saindo como uma lâmina. — Faz o que eu mandei.
— Por que você tá fazendo isso? Por que é esse estranho comigo?
— Porque é isso que eu sou — virei de lado, apenas o suficiente para ela ver meu perfil, mas sem encarar os olhos dela. — Eu não sou o herói que tu criou na tua cabeça durante quinze anos. Eu sou o dono dessa porrä aqui. E tu é só uma responsabilidade que eu tenho que manter viva. Agora come e some da minha frente.
Vi pelo canto do olho ela abaixar a cabeça, os ombros murchando. Doeu. Doeu mais que qualquer tiro que eu já levei. Mas era necessário. Se ela me odiasse, ela estaria segura de mim.
Saí da cozinha sem esperar ela sentar. Passei o dia inteiro trancado no escritório ou na rua, resolvendo as pendências do morro com uma brutalidade que até o Xande estranhou. Eu precisava de sangue, de barulho, de qualquer coisa que abafasse o som da voz dela na minha mente.
Mas não adiantou.
Toda vez que o silêncio batia, eu lembrava da pele dela. Do jeito que ela me olhou no meio da sala, confusa, ferida. Eu estava matando a relação que a gente tinha, enterrando o pai para que o predador não saísse da jaula.
O problema é que, quanto mais eu tentava ser gelo, mais o fogo por dentro aumentava. Eu estava me punindo, mas estava punindo ela também. E a Gabriela, com aquele jeito doce e teimoso, não ia aceitar o meu silêncio por muito tempo.
Eu estava jogando um jogo perigoso, tentando afastar a única coisa que me mantinha humano. E eu sabia que, no fundo, eu não estava protegendo ela do morro.
Eu estava protegendo ela de mim mesmo.
GABRIELA NARRANDO
Eu não conseguia entender.
Passei o dia inteiro trancada no quarto, ouvindo o movimento lá embaixo. Homens entrando e saindo, o tom de voz do General sempre alto e autoritário, mas nunca direcionado a mim. Era como se eu tivesse deixado de existir no momento em que ele entrou naquela cozinha hoje cedo.
Aquela frieza dele me machucava de um jeito novo. Não era a mágoa da ausência dos quinze anos, era algo mais imediato, mais físico.
Me deitei na cama e fechei os olhos, tentando dormir para o tempo passar, mas a imagem dele não saía da minha cabeça. O General sem camisa, com o peito sujo de sangue, o olhar escuro...
Senti um calafrio estranho. Comecei a lembrar do toque das mãos dele no meu rosto ontem. Ele foi bruto, sim, mas tinha algo ali. Uma vibração que eu nunca tinha sentido antes. Meu coração disparava só de lembrar da proximidade, do cheiro de maconhä e homem que emanava dele.
— O que tá acontecendo comigo? — sussurrei pro travesseiro.
Eu ainda o chamava de pai na minha mente, mas a imagem que vinha não era a de um pai me protegendo. Era a de um homem me dominando. Eu sentia uma agitação no baixo ventre, um calor que eu nunca tinha experimentado, uma curiosidade perigosa.
Os dias foram passando e eu via ele estranho comigo, agressivo, tentando me afastar a todo custo, e isso só me fazia querer chegar mais perto. Queria entender o que mudou. Queria saber por que o toque dele agora parecia dar choque.
O General estava tentando ser um estranho, mas quanto mais ele se afastava, mais eu percebia o homem que ele era. E esse homem estava começando a habitar meus sonhos de um jeito que me deixava com vergonha de acordar.
Eu ainda o via como meu protetor, mas o jeito estranho que eu via nos olhos dele e que eu estava começando a descobrir em mim, era um caminho sem volta. Eu não queria mais só o carinho dele. Eu queria que ele me olhasse. Que ele me visse de verdade.
Mesmo que isso significasse queimar junto com ele.