Capítulo 13

1201 Palavras
Capítulo 13 GABRIELA NARRANDO Ele parou de repente. O peito dele subia e descia rápido demais. Ele me encarou, e por um segundo, o ódio no olhar dele deu lugar a algo que eu não soube identificar. Ele parecia estar em uma luta interna tão violenta quanto a que aconteceu lá fora. O olhar dele desceu, rápido como um raio, para a minha boca e depois para o meu corpo, antes de voltar a ficar frio como gelo. — Tu não quer ajudar porrä nenhuma! — Ele deu mais um passo na minha direção, agora a expressão dele era de um animal encurralado, instável, perigoso. — Tu quer me testar. Tu quer ficar perto pra ver até onde eu aguento. Eu acabei de ver homem morrendo na minha frente, Gabriela! Eu tô com o sangue fervendo e tu aparece aqui, com esse cheiro, com essa pele... Tu acha que eu sou de ferro? — Eu não tô fazendo nada! — solucei, as mãos tremendo. — Você tá delirando! Eu tô preocupada com você, seu idiotä! Ele parou a poucos centímetros de mim. A respiração dele era um chiado pesado. O sangue da têmpora dele pingou no meu short jeans, uma mancha vermelha e quente que pareceu marcar minha pele. A adrenalina dele era contagiosa, eu sentia o medo e a algo estranho se misturarem num bolo amargo na minha garganta . — Preocupada... — ele repetiu, a voz descendo para um sussurro que me deu mais medo que o grito. — Tu não sabe o perigo que corre ficando perto de um homem que acabou de sair de uma guerra. O instinto de matar e o de föder são vizinhos, Gabriela. E eu tô no limite dos dois . — Do que você está falando? Eu não tô entendendo nada . Ele levantou a mão, e por um segundo achei que ele fosse me bater. Mas ele apenas segurou um punhado do meu cabelo, puxando minha cabeça para trás com força, me obrigando a olhar para o caos que eram os olhos dele . — Eu tô falando com você porrä! Responde! — Tu não entende nada, Gabriela — ele sibilou, a voz agora num sussurro perigoso . — Tu acha que o mundo é um conto de fadas onde tudo se resolve com um curativo. Eu acabei de sair de uma guerra. Eu estou com o sangue fervendo. Tu ficar aqui, desse jeito, me testando, tu não tem noção do perigo . — Que perigo? — Perguntei, genuinamente confusa . — É o Rato? Ele ainda está por perto? O General soltou uma risada amarga, balançando a cabeça . — O Rato é o menor dos teus problemas agora . — Eu não estou entendendo nada General. — Nem queira. Mas agora vamos ao que importa. Tu desobedeceu a Marta. Tu me desobedeceu — ele falou, o rosto tão perto do meu que eu sentia o calor do sangue dele. — Tu quer ser mulher, não quer? Quer agir como se mandasse em si mesma? Então aguenta as consequências de estar no meio de lobos. — Você não é um lobo pra mim — respondi, num sopro de coragem, embora minhas pernas estivessem bambas . — Você é o homem que me criou. Por que você tá agindo assim? O que aconteceu com você naquela cadeia? Porque você parece não me querer por perto? — O homem que te criou morreu naquela cela, Gabriela! — Ele me soltou com um movimento brusco, como se tivesse nojo do próprio toque. — O que sobrou foi isso aqui. Um monstro que tá tentando não te destruir, mas tu não colabora! Ele se aproximou mais um pouco, e eu senti um arrepio estranho percorrer minha espinha. Não era medo dele me bater. Era outra coisa. Um calor que subia pelo meu pescoço . Eu olhava para ele e, pela primeira vez, percebi o quanto ele era homem. O corpo forte, as mãos grandes que agora estavam cerradas em punhos, a boca que tremia de raiva reprimida . Eu ainda o via como meu pai, mas o jeito que ele me fazia sentir e que eu nem sabia como nomear, estava criando uma eletricidade no ar que eu estava começando a reagir diferente. Era como se o ambiente estivesse carregado, pronto para explodir . Ele virou as costas e começou a socar a parede, uma, duas, três vezes . O som dos ossos da mão dele batendo no concreto me fez gritar de pavor . — Para com isso! Para! — Corri e abracei as costas dele, colando meu corpo ao dele, tentando conter essa fúria autodestrutiva . — Por favor, para... eu só quero que você fique bem . O General travou. Senti os músculos das costas dele, tensos como cordas de aço, vibrarem sob as minhas palmas . Por um momento eterno, ele ficou parado, respirando fundo, o cheiro de pólvora e suor me embriagando . Então, ele se virou devagar no meu abraço . As mãos dele, sujas de sangue e poeira, subiram para o meu rosto, segurando minhas bochechas com uma possessividade que me fez perder o chão . — Tu é o meu maior erro — ele sussurrou, o olhar fixo na minha boca . — E eu sinto que tô prestes a cometer ele . — Eu não tô entendendo essas coisas que você tá falando, para com isso . Conversa comigo direito. — Sobe para o teu quarto — ele ordenou, a voz carregada de uma autoridade que tentava esconder o quanto ele estava instável. — Agora. E tranca a porta . — Mas o seu ferimento... — SOBE, GABRIELA! — Ele berrou, e dessa vez eu não discuti. — Eu não vou subir! Ele se afastou bruscamente antes que qualquer coisa acontecesse, me deixando vazia no meio da sala . Ele subiu as escadas sem olhar para trás, deixando um rastro de sangue nos degraus e um silêncio que gritava que nada, nunca mais, voltaria a ser como antes . Eu caí de joelhos no chão, entre os cacos da garrafa de whisky . Eu queria ajudar, mas agora eu estava muito confusa. O toque entre nós não era mais remédio. Era veneno. E nós dois estávamos morrendo de sede . Fiquei sem reação alguns minutos. Depois subi as escadas tropeçando, o coração a mil. Entrei no quarto e, como ele mandou, tranquei a porta. Nem sei porque mas tranquei. Encostei a cabeça na madeira, tentando respirar. Por que ele tinha reagido tão mäl ao meu toque? Por que ele parecia ter nojo de mim quando eu tentava ajudar? Aqui em cima, ouvi o som do chuveiro ligando . Eu não conseguia tirar a imagem dele da cabeça. O sangue escorrendo pelo peito musculoso, o olhar faminto que ele tentava esconder atrás da agressividade . Eu sentia uma inquietação no corpo, uma agitação que eu nunca tinha sentido antes . Eu o amava, eu o via como meu protetor, mas o jeito que ele me afastou, deixou um vazio estranho . Mas o que estava me incomodando mesmo, era essa necessidade absurda de querer cuidar dele e ser tocada por ele . Que porrä está acontecendo?
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