Capítulo 12

1013 Palavras
Capítulo 12 GABRIELA NARRANDO O som seco dos tiros começou como um estalo distante, mas logo se transformou em uma sinfonia de terror que eu conhecia bem demais. O morro tem um barulho próprio quando a guerra estoura: os rojões avisando a subida, o chiado dos rádios e aquele "pá-pá-pá" ritmado que faz o estômago dar voltas. Eu estava na sala, paralisada com a xícara de café ainda morna na mão, quando o celular vibrou desesperadamente. Era a tia Marta. — Gabriela! Tu tá me ouvindo? Entra no cofre agora! — A voz dela estava abafada, provavelmente ela estava escondida em algum canto seguro da casa dela. — Esse confronto tá vindo com tudo, o bicho tá pegando na divisa. Não sai daí por nada, ouviu? Assim que o tiroteio estiar e eu conseguir passar pelos becos, eu vou aí ficar contigo. Me promete que tu vai pro cofre! — Eu vou, tia. Eu vou agora — menti, com a voz embargada. Desliguei o celular, mas meus pés não se moveram em direção ao cofre reforçado que ficava atrás do armário do corredor. Em vez disso, subi as escadas correndo e me tranquei no meu quarto, colada na janela, tentando enxergar através das frestas da veneziana. Eu não era mais aquela criança de cinco anos que chorava debaixo da cama. Eu era uma mulher que sentia cada tiro como se fosse um prego sendo batido no meu peito. E a culpa era toda daquele homem que tinha acabado de sair daqui com ódio nos olhos. O som dos fuzis lá fora parecia estar dentro do meu quarto. Cada explosão fazia as janelas vibrarem e o meu peito encolher. Eu estava sentada no chão, abraçada aos joelhos, com o celular na mão. A tia Marta já tinha ligado três vezes mandando eu ir para o cofre, não sei como, mas ela sabia que eu não tinha, na verdade, a tia Marta me conhece muito bem, mas eu não conseguia me mexer. Minha mente estava uma confusão. Eu ainda via o General como o meu porto seguro, o homem que, mesmo bruto, era a única família que eu tinha. Mas o jeito que ele me olhou na cozinha hoje cedo... aquilo não era o olhar de um pai. E o pior era que, no fundo da minha mente, uma semente de algo que eu não conseguia nomear estava começando a brotar. Um frio na barriga que não era de medo, mas de uma expectativa estranha. O tempo passou devagar, cada minuto parecendo uma hora de tortura. O tiroteio não parecia uma invasão coordenada pra tomar o território; estava mais para um "bate e volta", um ataque de surpresa para medir a força do General. Os soldados dele gritavam ordens lá fora, e eu ouvia o barulho dos fuzis batendo nos portões de ferro. Aos poucos, o barulho foi cessando. Os tiros ficaram esparsos, distantes, até que o silêncio, aquele silêncio pesado e carregado de fumaça, voltou a dominar o morro. Eu não desci. Fiquei sentada no chão do quarto, abraçada aos meus joelhos, sentindo o frio do ar-condicionado bater na minha pele. Eu estava angustiada, mas não era só pelo medo de uma bala perdida. Era por ele. Por aquele homem que me tratava como um fardo e me olhava como algo proibido. Passou quase uma hora até que ouvi o som do portão automático da garagem abrindo. O ronco do motor do carro dele era inconfundível. Meu coração disparou. Levantei e saí do quarto, descendo as escadas devagar. Eu devia ter ficado lá em cima, devia ter fingido que estava no cofre como prometi à tia Marta, mas a necessidade de ver se ele estava bem era maior que o meu juízo. Quando cheguei na sala, a porta da cozinha que dava para a garagem se abriu com um estrondo. O General entrou tropeçando. Ele estava acabado. A camisa que ele vestiu de manhã estava rasgada no ombro, ensopada de suor e sangue. O rosto dele estava sujo de fuligem e tinha um corte feio na têmpora que não parava de sangrar, sujando o pescoço e a gola da camisa. Ele exalava adrenalina. Era um cheiro metálico, bruto, misturado com o cheiro de pólvora que parecia ter grudado nos poros dele. Os olhos dele estavam dilatados, frenéticos, como se ele ainda estivesse no meio do campo de batalha. — GENERAL! — gritei, correndo na direção dele. — Você tá ferido! Ele nem pareceu me ouvir de primeira. Ele foi direto para o bar, pegou uma garrafa de qualquer coisa e tentou abrir com a mão trêmula. O vidro escorregou e caiu no chão, se estraçalhando em mil pedaços. — PORRÄ! — ele rosnou, a voz saindo das profundezas do peito, um som desumano de pura frustração. — Calma, deixa eu te ajudar — falei, me aproximando com cuidado. Cheguei perto dele e tentei segurar o braço dele para ver o ferimento no ombro. Eu queria cuidar, queria limpar esse sangue, queria ter certeza de que ele ficaria bem. Mas no segundo em que meus dedos tocaram a pele dele, o General reagiu como se eu tivesse encostado um ferro em brasa. Ele me empurrou com brutalidade. Não foi um empurrão para me machucar, mas foi carregado de uma repulsa violenta. Eu cambaleei para trás, batendo com as costas na mesa de jantar. — NÃO ENCOSTA EM MIM! — ele berrou, e o som da voz dele fez os meus ouvidos zumbirem. — Sai de perto, Gabriela! Eu mandei tu ficar no cofre! O que tu tá fazendo aqui fora? — EU SÓ QUERO AJUDAR! — gritei de volta, sentindo as lágrimas de susto e raiva queimarem meus olhos. — Você tá sangrando, tá todo machucado... Eu só queria limpar isso! — Eu não preciso da tua ajuda! — Ele deu um passo na minha direção, e o cheiro de pólvora e suor que emanava dele era quase sufocante. — Sai de perto. Agora. — Por que você está agindo assim? — Minha voz falhou. — Eu sou sua filha, eu me preocupo com você!
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