Capítulo 11

1107 Palavras
Capítulo 11 GABRIELA NARRANDO A noite passada foi um borrão de pesadelos e batimentos cardíacos acelerados. Eu não consegui pregar o olho direito . Toda vez que eu fechava as pálpebras, sentia a pressão da mão do General no meu queixo e aquele olhar que parecia queimar minha pele . Eu sabia que tinha cruzado uma linha no escritório, mas não conseguia entender por que meu corpo reagia daquele jeito ao homem que deveria ser meu porto seguro . Acordei com um humor ácido . Se ele queria me trancar aqui, se ele queria ser meu carcereiro, então eu ia mostrar que uma prisioneira acuada pode ser muito perigosa . Tomei um banho demorado e, dessa vez, escolhi a roupa com intenção . Coloquei um short jeans curto, daqueles que parece que ele odeia e uma regata de seda que não escondia muito quando eu me mexia . Se ele queria que eu ficasse em casa, ele ia ter que aguentar a minha presença . Desci as escadas e o cheiro de café forte invadiu minhas narinas. O General estava na mesa. Ele não usava camisa, apenas a calça do moletom largada no quadril, exibindo as tatuagens e as cicatrizes que contavam a história dos quinze anos que ele passou longe . Ele segurava uma caneca preta, o olhar fixo no nada . Ele parecia exausto, como se tivesse travado uma guerra sozinho durante a madrugada . — Bom dia — falei, a voz carregada de uma ironia doce, enquanto puxava a cadeira e sentava de frente para ele, cruzando as pernas devagar . Ele não respondeu de imediato. O General apenas desviou o olhar do vazio e focou em mim. Foi como levar um choque. Os olhos dele estavam fundos, escuros, e no momento em que pousaram nas minhas pernas expostas, eu vi o maxilar dele travar com tanta força que o som dos dentes rangendo pareceu ecoar na cozinha. — Eu te dei uma ordem ontem, Gabriela — ele disse, a voz num tom tão baixo que era quase um rosnado. — Sobre como se portar e como se vestir nesta porrä. — E eu te fiz uma pergunta ontem, General. Que você não respondeu — retruquei, pegando a garrafa de café e servindo uma xícara, fingindo total desinteresse na fúria que emanava dele. — Enquanto você não me tratar como uma adulta que merece respostas, eu não vou te tratar como o dono da verdade. Ele soltou a caneca na mesa com força. O café espirrou para fora, sujando a madeira, mas ele nem piscou. — Tu não sabe com o que tá brincando — ele sibilou, inclinando o corpo para frente. — Tu acha que essa tua rebeldia é charme? Tu acha que me desafiar vai te levar a algum lugar? — Vai me levar pra longe daqui, eu espero — falei, tomando um gole do café e olhando bem no fundo dos olhos dele. — Porque o jeito que você me olha, General... tá ficando estranho. Tá ficando pesado. Até parece que você tem medo de mim. O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu vi o momento exato em que o controle dele começou a escorregar por entre os dedos. Ele se levantou devagar, contornando a mesa com passos de predador. Eu continuei sentada, o coração martelando contra as costelas, mas me recusando a baixar a cabeça. Ele parou atrás da minha cadeira. Senti o calor do corpo dele nas minhas costas e o cheiro de maconhä e café. — Medo? — ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz rouca enviando arrepios por toda a minha coluna. — Tu não faz ideia do que eu sinto, garota. Tu não faz ideia do esforço que eu faço pra não te quebrar no meio toda vez que tu abre essa boca abusada. — Então por que não faz nada? — provoquei, virando o rosto para ele, nossos lábios ficando a centímetros de distância. — Por que se esconde atrás de ordens e trancas? O General soltou uma risada sombria, sem nenhum humor. A mão dele desceu, os dedos ásperos roçando no meu ombro, descendo pela alcinha da regata até parar na base do meu pescoço. O toque era possessivo, carregado de uma tensão que não tinha nada de paterna. — Porque se eu começar, Gabriela... — ele fez uma pausa, o olhar descendo para o meu colo, onde o tecido da regata subia e descia conforme minha respiração acelerava. — Se eu começar, não vai ter volta pra nenhum de nós dois. Tu quer ser tratada como mulher? Cuidado com o que tu pede. Porque o meu jeito de tratar uma mulher não é doce. E tu não ia aguentar nem dez minutos da minha verdade. Ele apertou meu pescoço de leve, não para machucar, mas para me imobilizar. Por um segundo, achei que ele fosse me castigar mesmo, no meio da cozinha, com a luz da manhã denunciando o pecado. Eu queria e não queria ao mesmo tempo. Era uma confusão doentia de sentimentos. De repente, o rádio no cinto dele chiou. A voz do Xande veio alta e urgente: — General! Movimentação na divisa. O Rato tá descendo com três carros. O bicho tá pegando! O General soltou meu pescoço como se tivesse levado um tiro. A máscara de pedra voltou instantaneamente. Ele se afastou, pegando a camisa que estava jogada no móvel e vestindo ela com pressa, sem desviar os olhos de mim. — Fica em casa. Trancada — ele ordenou, a voz de comando agora absoluta. — Se eu souber que tu colocou um pé no quintal, eu juro pela minha vida, Gabriela, que tu não vai gostar do castigo que eu vou te dar quando eu voltar. Ele pegou a arma na mesa, conferiu a munição e saiu sem olhar para trás, batendo a porta com uma violência que fez os quadros da sala tremerem. Fiquei aqui, sentada na cozinha, segurando minha xícara com as mãos tremendo. Eu o tinha provocado. Tinha cutucado o bicho com vara curta. Mas o que eu vi nos olhos dele antes do rádio tocar... aquilo me apavorou mais do que qualquer ameaça de invasão. O General estava apenas protegendo o morro. Mas parecia que ele estava tentando se proteger de mim. E eu, no meio da minha dor e da minha sede de respostas, parecia que estava jogando gasolina num fogo que ia acabar queimando a nós dois. Ouvi os primeiros estampidos de tiros vindo de longe. O morro talvez entraria em guerra. Mas a guerra que estava acontecendo dentro desta casa era muito mais silenciosa e mil vezes mais perigosa.
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