Vocês já ouviram aquela frase? Que “Tudo que vai, volta” ou aquela “O destino pode te pregar uma peça” ou pior ainda “Nada dura para sempre”.
Eu tenho todas essas frases na minha cabeça agora. Olhando para frente, vendo quem eu menos queria ver na vida.
Minha mente gira como se fosse um globo magico. Cenas da minha vida vão passando como se fosse um filme em minha frente.
Eu nunca tive pais. Não sei quem são e nem fiz questão de saber. Claro que, enquanto estava no orfanato queria muito saber e até procurá-los, mas não foi assim. Eu fugir do orfanato achando que viveria na rua. Eu não programei nada para mim, fato esse, que não esperava encontrar Thomas e me casar com o mesmo.
Eu não esperava viver o que vivi e não espera que ele estivesse aqui na minha frente. Porém, eu queria entender. Queria entender o que estava acontecendo, pois, eu vi seu caixão sendo enterrado. Eu chorei por um corpo que não tinha. O filho da p**a de Wilson, me obrigou a chorar em seu ombro. Fazia carinhos em meus cabelos, dizendo que nada iria me faltar, que ele estava ali por mim e para mim, e isso não iria mudar, nunca.
Eu me sentir amparada naquele momento. Me sentir protegida, por um pai, que não tive. Eu não achei nada de errado naquele momento. Não vi em Wilson nada de r**m, nada que me pudesse ter nojo e asco por ele.
Meu mundo estava embaraçado com a visão em minha frente. E novamente, eu me faço a pergunta. O que aconteceu para ele está aqui em minha frente? O que foi que eu perdi, diante do que aconteceu com ele? Não faz sentido nada.
De novo um filme passa em minha mente. Thomas já estava fora de casa a uma semana. Ele não me dava muita satisfação do que acontecia com ele, e nem do seu trabalho. Ele só me dizia que teria que viajar a trabalho e mais nada. Porém, de acordo com Tom, ele tirou aquela semana de licença. Mas, por quê? Onde ele foi? Por que ele foi? Pra que ele foi? Não faz sentido na minha cabeça. Ele me deixou uma semana, e depois sofreu o acidente.
A notícia da sua morte, me causou dor. Muita por sinal. Porque, eu achava que o amava. Eu acreditava que Thomas era a única pessoa que se importou comigo. Eu não via que seu tratamento para comigo fosse uma coisa sem cabimento. Para mim, ele me amava, assim como eu.
Mas, nada foi e é assim. Porque quem ama, não faz as coisas que ele fez comigo. Quem ama, não se esconde como ele se escondeu. Quem ama, não finge a própria morte, como ele fez.
Eu queria me mover, queria gritar, chorar, o atacá-lo, e ir para cima do i****a do seu pai, mas eu não consigo. Minhas pernas não se mexem, meus olhos estão vidrados na cena, e minha boca está seca como o deserto. Minha mente está dando voltas e voltas e não consegue chegar a algum lugar que explique isso.
Meu passado se misturou com o presente, e eu me pergunto. E agora? Como será minha vida? O que eu vou fazer com a minha vida? E pior. O que esses dois acham que eu vou fazer com o meu presente? Jogar no lixo? Esquecer dos momentos maravilhosos que vivi na companhia de Markos? Droga, e Markos? Como ele vai reagir diante dessa situação? Um desespero já cresce em mim.
Esquecer que agora, eu tenho uma vida? Onde, eu vou para qualquer lugar sem depender da opinião de ninguém. Onde, eu estou tendo a oportunidade de fazer uma carreira, e ser eu mesma. Isso só pode ser brincadeira.
O Sorriso de Wilson é enorme, e doentio. Não sei o que ele está pensando, mas vejo em seu rosto que ele espera ter domínio sobre mim. Ele está com uma cara de vitorioso, como sempre esteve, nas audiências da retirada da tutela. Vejo o gosto em seu rosto, porque está aqui na minha frente, com seu filho. Entretanto, ele não vai conseguir o que quer. Eu não vou abrir mão da minha vida, nem por ele, nem por Thomas e nem por ninguém.
Minha vontade era deixar esses dois aqui. Era de pegar um taxi e ir direto para casa de Tom, resolver essa merda. Porém, como disse. Eu não consigo me mover. E eles também, não deram nenhum passo. Acredito, que Wilson está querendo que eu diga algo. Ele deve está esperando, que eu fale que vou voltar pra casa deles, com os mesmos. Só o pensamento me deixa irritada e triste.
O que eu fiz para merecer isso?
Eu não tive direito a muita coisa na vida. Cresci em um orfanato. Não fui adotada por ninguém. Meus pais nunca apareceram, e a cereja do bolo, o meu casamento. Esse último, foi a pior coisa que aconteceu na minha vida. Nunca pensei que tomaria pavor de alguém, como tenho desses dois. Nunca pensei que viver da forma que eu vivi.
Eu pensava, que Thomas tinha seu lado bom. Que ele tinha seus pontos negativos, mas ele seria o cara bom para mim. Doce engano. Ele foi o pior cara que encontrei na vida. Ele se mostrou um homem frio, sem coração e pior sem amor. E hoje, eu falo isso com propriedade, porque, o que eu sentia por ele, não se compara ao que sinto por Markos.
Thomas nunca foi gentil. Nunca foi amável. Nem no sexo, ele não foi homem de verdade. Ele era seco, sem romance, sem paixão. Vejo que ele não me merecia, e eu não o merecia.
Ele fez de mim o seu brinquedo para exibir por toda cidade. Fez de mim seu bibelô, e sua boneca inflável, para quando quisesse sexo, ele me enchia e depois que me cobria com seu esperma, me esvaziava para eu não ocupar seu espaço e pensamento.
Só tenho um pensamento para isso. Tristeza. Era uma pessoa totalmente triste, e nem sabia. Para mim, o que ele me dava, estava bom, pois, eu nunca tive nada, e ter um teto, roupas e sapatos e um marido para satisfazer ao adentrar da noite, era maravilhoso. Eu estava feliz com que ele me dava. Tinha uma gratidão imensa por ele ter me acolhido, ter me tirado das ruas e ter se casado comigo.
Não importava se não tinha romance como das novelas e filmes. Não importava se ele ficava vários dias sem voltar para casa. Não importava se o pai dele me olhava como seu eu fosse uma carne bem suculenta para ele comer. Tudo que importava, que eu tinha, era ele. Era Thomas. Cega, esse deveria ser o meu nome.
Suspiro. Era hora de encarar esse fantasma do passado. Era hora de saber, o porquê dele está aqui na minha frente, sendo que deveria estar a sete palmos da terra. Mas antes que eu fale algo, já que mesmo querendo e minha voz não sai, Wilson quebra o silêncio.
— Não está feliz de nos ver, Daniela? Ele só pode ser um doente. Não pode ser, que ele não perceba o transtorno que a volta desse defunto vai causar para minha vida. Mas, em contrapartida, eu quero entender, o que houve com Thomas para está na cadeira de rodas. Ele não parece em nada o homem intimidador que tinha casado comigo. Não parece o homem que brigava comigo, por qualquer coisa. Ele está parecendo um homem sem vida. Está apático. Seu olhar está longe. Não me olha. Não se move. Está mais magro do que da última vez que nos vimos. Olha, filho. Ela está em êxtase em nos ver, principalmente você. Consigo me mover e chegar perto deles.
— Ele não estava morto? Minha voz sai como um sopro. Olho para pai e filho querendo obter uma resposta. Querendo entender toda essa merda. Minha cabeça ainda está uma bagunça. Eu ainda estou atordoada com tudo isso. Tudo que eu consigo ver em minha mente é o caixão sendo colocado no jazigo onde a mãe de Thomas também foi enterrada.
— Precisamos conversar. Wilson diz sério, mas eu não quero conversar com ele. Eu só quero saber o porquê Thomas está na minha frente, e não em um caixão, como foi me feito pensar.
— O que houve com ele? Por que ele está aqui e não dentro de um caixão? Minha voz sair mais alto do que pretendia. Porém, eu estou nervosa e com raiva. Muita raiva por sinal.
— Pega suas coisas, e vamos voltar para casa. Lá vamos conversar. Ele ficou louco? Wilson não tem ideia do que ele está me pedindo, porque eu não vou voltar. Thomas podia está bem, que eu não iria voltar.
— Eu não farei isso. Ele fecha sua cara, porém, eu não estou nem aí para ele. Você não vai me dizer o motivo dele está aqui e assim?
— Já disse que vamos voltar para casa e conversar lá. Suspiro.
— Wilson, você não tem controle sobre mim, sobre a minha vida e minhas escolhas. Isso já ficou claro a muito tempo para você. Ele tenta falar algo e eu levanto minha mão. Não quero escutar mais nada dele, que não seja o motivo que Thomas está aqui e vivo. Se você não quer explicar aqui, o motivo disso. Aponto para Thomas. Eu não vou me desgastar com você.
— Ele é seu marido. Balanço a cabeça em negação.
— Tem mais ou menos um ano que não tenho marido. Ele está morto. Eu o vi sendo enterrado. Você cuidou de toda papelada do velório e enterro. Você me disse que não poderia abrir o caixão, porque ele estava irreconhecível. Você me obrigou a chorar em seu ombro, me obrigou a falar dos meus sentimentos naquele momento. E agora, você volta com ele? Não, Wilson. Não. Eu não tenho marido. Da mesma forma que eu briguei com você na justiça pelo fim da tutela, eu também vou brigar pelo divórcio. Grito deixando lágrimas banharem meu rosto. Eu estou apavorada com toda essa situação.
— Divórcio de um homem doente? Ele está quase um homem vegetativo. Você não pode fazer isso com ele.
— Isso não é problema meu. Não fui eu que forjei a morte dele. Então, vocês dois resolvam isso, porque, a única coisa que farei, é procurar um advogado para realizar nosso divórcio. Digo saindo de perto deles.
— Você não vai conseguir. Eu vou fazer de tudo para você voltar para casa e cuidar do seu marido. Wilson grita e eu não digo nada. Somente olho para Thomas naquela cadeira de rodas mais uma vez e respiro fundo. Eu espero que tenha uma solução para tudo isso. Eu não aceito ficar casada com esse homem. Não quero viver novamente um pesadelo.
Pego meu celular na bolsa. Eu preciso falar com Tom. Suspiro.
Disco seu número e respiro fundo. Tudo estava tão bem. Minha vida estava maravilhosa comparada ao que vivia antes. Agora eu tenho esse problema. Markos está com problemas e só tende a me afastar dele. O que eu vou fazer? O que será de nós?
— Dani? Dani? Você está na linha? Saio dos meus pensamentos com a voz de Tom.
— Desculpe, Tom. Suspiro.
— Você está bem?
— Defina bem. Passo uma das minhas mãos na minha cabeça.
— O que houve, Dani? Começo a chorar.
— Não sei. Droga. Parece que um caminhão passou por cima de mim essa manhã e me atropelou, me deixando marcas do passado.
— Do que você está falando? Limpo minhas lagrimas grosseiramente. É sobre o que aconteceu com o bordel?
— Também. Podemos nos falar pessoalmente? Eu não estou bem. Preciso conversar, preciso entender o que vai acontecer com a minha vida agora.
— Não estou entendendo. Como assim, entender o que vai acontecer com a sua vida? Você e Markos brigaram?
— Thomas está vivo. Digo de uma vez.
— O que? Como?
— Não sei. Sabe como isso é fudido? Sabe como é ver homem que você achou que não veria nunca mais? Sabe como é ter o seu passado bem na sua cara? Eu estou uma pilha de nervos, sem entender, sem saber o que fazer. Droga, droga, droga. Mil vezes droga.
— Calma. Venha para meu escritório. Eu estou te aguardando. Ele diz e eu desligo. Fico olhando para todos os lados vendo os carros passarem. Eu preciso pegar um táxi, porém, estou desnorteada até mesmo para chamar um. Meu estomago está revirando, mesmo eu não comendo nada. Minha mente não consegue processar nada. Minhas lagrimas insistem em sair.
Cada visão de Thomas, sentado naquela cadeira de rodas. Sem se mexer, sem mover os olhos, me deixa bastante enjoada.
Eu consegui pegar um táxi. Não sei como e nem sei como dei o endereço do escritório de Tom para o taxista. Tudo que sei que a angústia que estava sentindo, ainda cresce em mim. Cresci de uma forma, que me deixa a cada minuto m*l.
Várias perguntas invadem a minha mente.
“O que vai acontecer comigo e Markos?”
“Será que eu vou conseguir pedir o divórcio, mesmo com Thomas desse jeito?”
“Markos, como Markos vai reagir a essa notícia?”
“E pior, será que serei obrigada a conviver com ele, de novo?”
Não. Isso não pode ser. Eu não quero conviver com ele. Eu não quero mais ele na minha vida. Eu quero poder continuar com tudo que venho construindo.