Lucien Bellamy
Eu saio da sala de jantar sem olhar para trás.
O som do salto da mulher ainda ecoa no silêncio morto do ambiente, mas não me afeta. O cheiro de pólvora ainda flutua no ar e nada disso me tira do meu eixo. Emoções servem apenas para desestabilizar, e homens como eu não podem se dar ao luxo de tal coisa.
Logo que cruzo a porta, dois dos meus homens aparecem no corredor. Dante e Maurin.
— Limpem a bagunça. — Ordeno, sem diminuir o passo. — Agora!
Os dois acenam imediatamente. Sabem exatamente o que significa "bagunça".
Antes de virar o corredor, faço questão de acrescentar sem olhar para trás.
— E a mulher que está de pé na sala… está proibida de sair.
Mais um aceno.
Eu continuo andando.
Os meus passos são calmos, calculados, como sempre. Nada me apressa. Nada me desvia. Nada me do meu controle. Cruzo a cozinha, onde três cozinheiras fingem não me ver. É sempre assim quando me veem no estado em que estou.
Viro à direita e entro no corredor estreito que dá acesso aos quartos das empregadas.
Ali, encontro Cordélia.
Ela está com um avental impecável e postura firme, como sempre. Cordélia é uma das poucas pessoas que realmente funcionam nessa casa. Uma peça fundamental.
— Prepare um quarto completo. — Digo direto, sem floreios. — É para uma..., hóspede.
Ela não pisca.
— Sim, Don Bellamy.
— E se responsabilize por trazer todos os pertences dela para cá. Ela mesma informará o que é dela e vocês conversam sobre isso.
— Certo… posso saber o nome dela?
— Elisie. — Respondo.
Cordélia inclina a cabeça numa concordância silenciosa.
— E Vivienne já não está mais… disponível. Quero todos os pertences dela retirados do quarto até amanhã cedo. Doe, queime... faça o que quiser. Só não quero nada dela aqui e troque tudo do quarto!
Ela já sabe o que houve. Com certeza ouviu os tiros.
Nenhuma reação de surpresa. Cordélia nunca demonstra nada além do necessário. É por isso que ela continua aqui. Ela aprendeu comigo!
Dito isso, giro nos calcanhares e sigo para a escada principal.
Subo devagar, sem pressa. Cada degrau é familiar, cada sombra dessa casa sabe quem manda aqui. Quando chego ao piso superior, não vou para o quarto principal.
Entro no secundário. O meu quarto de verdade.
Eu o mantive trancado por quase três anos porque, nos últimos doze meses, eu simplesmente não suportava mais ouvir a respiração da Vivienne enquanto dormia. Nem o som dos passos dela. Nem a voz irritante. Nem a existência dela.
Eu nunca quis aquele casamento.
Foi um acordo imposto pelo meu pai antes da morte dele. Outro erro dele que eu tive que carregar. Desde o começo, eu sabia que custaria caro. E custou. Foram três anos de paciência desperdiçada com uma mulher fútil, vazia, burra e completamente incapaz de acompanhar o que significa ser esposa de um Don.
Eu precisei criar uma máscara nova só para tolerá-la.
E foi um tormento diário.
Se eu me sinto culpado por ela estar mortä?
Não.
Nem por um segundo.
O que eu sinto agora é alívio. Alívio puro, leve, limpo. Como se tivessem tirado um peso do meu peito que eu carregava sem pausa.
Ela mesma cavou a própria cova. Convenientemente e ela me poupou um grande esforço.
Eu tiro o paletó, jogo sobre a poltrona, desabotoo a camisa e entro no banheiro. Ligo o chuveiro no quente. O vapor sobe rápido, preenchendo o ambiente enquanto deixo a água cair na minha nuca, ombros, costas.
Meu corpo relaxa.
Minha mente, nunca.
E é justamente nesse silêncio que penso nela.
Elisie.
A esposa do homem que morreu sangrando aos meus pés há poucos minutos atrás.
Eu penso na maneira como ela tremeu e, mesmo assim, levantou a cabeça para falar. No jeito contido. No olhar baixo, mas não fraco. Ela não é destemida. Não é ousada. Mas é obediente. Discreta. E inteligente o suficiente para vigiar o próprio marido sem chamar atenção.
Isso me surpreende.
A maioria das mulheres que passam pelas minhas mesas não teria coragem nem de questionar uma traição, muito menos investigar a fundo, reunir provas e entregar tudo na minha frente sabendo do risco.
Aquela mulher carregava medo nos olhos, mas ainda assim fez o que achou certo.
Sem gritaria.
Sem drama.
Sem tentar se justificar.
Ela apenas entregou a verdade.
E a verdade é uma moeda escassa no meu mundo.
Saio do banho alguns minutos depois. A toalha envolve a minha cintura, o vapor ainda paira no ar, tornando o quarto mais quente do que o normal. Eu me visto com calma, uma calça preta confortável, uma camiseta escura. Nada formal. Nada que me lembre o jantar de hoje. Não quero resquícios da noite grudados no meu corpo.
Quando abro a porta do quarto, noto uma luz vinda do corredor ao lado. Uma porta entreaberta.
Ouço vozes.
Cordélia. E… ela.
Me aproximo devagar.
De onde estou, posso ver Cordélia apontando detalhes do quarto de hóspedes recém-arrumado, explicando onde ficam roupas de cama, como funcionam os horários da casa, onde fica o banheiro privativo.
E no centro do quarto, de pé, está Elisie.
Ela está com os ombros encolhidos. As mãos unidas na frente do corpo, apertando os próprios dedos. O queixo treme. O olhar dela percorre o quarto como se não reconhecesse nada ao redor. Os olhos estão vermelhos, inchados, mas ela tenta disfarçar.
O choro dela é silencioso como tudo nela.
Há medo ali, óbvio, quase palpável, mas também há algo mais profundo. Algo que a maioria não presta atenção: controle. Ela tenta se manter inteira, mesmo quebrada. Tenta não ser um fardo. Não fala alto. Não interrompe. Não questiona. Apenas absorve.
Ela se porta com a mesma servidão calculada que sempre teve na própria casa.
Isso… me agrada.
— Deixarei tudo no seu conforto, senhorita Elisie. — Cordélia comenta. — Podemos agora falar sobre os seus pertences.
— Tem a... a governanta da casa. Ela saberá como preparar tudo. — Cordélia acena. — E-eu posso ir para separar também?
— Não! — Eu entro na conversa e as duas se assustam. — Você não vai sair dessa casa até o casamento. Fui claro?
Ela engole em seco, enxuga uma lágrima e me olha de cabeça erguida.
— Entendi.
Apenas.
É assim que eu gosto e nos encaramos firmemente, mas ela não ousa contestar ainda.