CAP 9

957 Palavras
Lucien Bellamy Eu sinto que ela quer falar. Com certeza está gritando por dentro, mas ela não ousa. Não gosto de mulheres que lutam contra tudo. Não gosto de confusão, histeria, rebeldia vazia. Preciso de alguém que funcione. Que se encaixe. Que compreenda a sua posição sem necessidade de ser lembrada dela o tempo inteiro. E ela… ela é perfeita para isso. Eu a observo mais alguns segundos no silêncio absoluto. Cordélia volta a falar sobre gavetas, roupas, lençóis. Elisie apenas acena, sem força, mas sem contestar. Ela está completamente perdida e, mesmo assim, completamente obediente. Ela se vira, se mostra como se não percebesse a minha presença no corredor, mas eu percebo todos os detalhes dela. Confesso, é uma mulher bonita e bem formosa. O vestido escolhido para hoje é algo ousado e acho que Henri queria mostrar algo que não tem. Outra coisa que também me deixou surpreso sobre ela e que me faz lembrar agora, é que Elisie passou esses anos fugindo do marido em qualquer tentativa de sexö. Ela o enganava. Ele, como idiotä que era, nem percebia e ela dominava a casa sem dizer uma palavra sequer. É, eu sei disso também! Mas aqui, o único controle é meu e logo ela se acostuma. E quando se acostumar… será tarde demais para tentar fugir. As duas conversam ali e eu decido voltar depois. Quero fazer umas perguntas. Eu giro o corpo e sigo de volta para o meu quarto. Fecho a porta devagar. Meu mundo se reorganiza com a facilidade de sempre. E agora, por decisão minha, Elisie passa a fazer parte dele. Eu vejo uma mensagem aqui do meu irmão Louis. Ele fala dos lucros da noite que foram recebidos para serem realocados como ordenei na última reunião e avisa o valor total. Todos os meus bordéis têm o hábito de receber dinheiro em espécie. É uma forma de camuflar os ganhos e claro, de privacidade para ambos os lados e por isso, toda semana são recolhidos por um dos meus irmãos. Somos em três: Eu, Louis e Vincent. Só filhos homens! Eu com trinta e seis anos. Louis com trinta e três e Vincent com Vinte e nove. Nosso pai faleceu pouco depois de eu me casar e, fui nomeado. Os meus irmãos são meu escudo de maior confiança e trabalhamos nessa base. Louis é meu Bras Droit (braço direito) e conselheiro pessoal e Vicente o meu Lieutenant (tenente). Eu sou o Parrain, mas prefiro ser chamado de Don. Paris sempre foi o meu país e eu comando esse lugar com punhos de ferro e com muita mestria. Eu cheguei aonde estou por mérito e por muito sangue que deixei em cada passo. Sou o primogênito dos Bellamy’s, mas além do sangue e da primogenitura, eu mostrei a minha capacidade desde cedo. Conheci o mundo da máfia aos onze anos. Foi ali que eu segurei uma arma pela primeira vez. Senti o peso, a frieza que alertava as veias e ouvi coisas que pareciam algo de outro mundo. Mas, me mostraram ser reais. Com o celular na mão, eu envio uma mensagem aos meus irmãos num link que dá acesso apenas a nós três. Link esse criado por Louis que não confia em aplicativos normais. “Vivienne está mortä e vou me casar em alguns dias!” Louis é o primeiro a ver e começa a digitar. “Que porrä você fez, Lucien?” Eu já imagino a cara dele. “Venham aqui amanhã e conto tudo!” Vicente começa a digitar. “Que merdä! Prevejo problemas, mas estarei aí logo cedo!” E assim, eu encerro a conversa. Eu fico uns minutos aqui e já começo a ouvir outras movimentações. Já sei que estão começando a tirar as coisas da Vivienne e vou esquecer que aquela miserável já pisou aqui. Penso que Elisie deva estar sozinha e observo pela porta. Várias empregadas vão e vem pelo corredor com caixas e sacolas e entram justamente no quarto de Vivienne. Eu saio do meu, ando indo para o outro lado do corredor e chego novamente ao quarto de Elisie. A porta aberta mostra ela parada em frente a janela e eu entro, fechando a porta. — Você é infértil? — Questiono a ela que se vira na mesma hora. — Como? — Eu fiz uma pergunta simples... é infértil? O seu casamento com Henri durou cinco anos e... — Não! — Ela me corta. Ousadia isso! — Não sou! Eu apenas... não me deixei. Eu tomo pílulas regularmente há anos! — Eu aceno. — Isso não estava nos seus registros? Mais uma vez, ela me faz sorrir essa noite. — Pensei que tinha medo demais para fazer perguntas, Elisie. — Eu o respeito como Don, mas... isso não dá o direito de me obrigar a ficar aqui e aceitar essa loucura. — Ela puxa o ar com força. — Eu já passei um inferno com os meus pais... surras, humilhações, xingamentos, privações e mais e de forma gratuita. E depois, veio o Henri que, bom, o senhor já sabe... estou cansada! — Ela dá um passo. — Loucura tem limite e eu cheguei ao meu... se quiser, pode me matär hoje, mas não vou ser saco de pancadas de mais alguém. Ela me confronta. Olha com uma certa determinação que chega a brilhar nos olhos dela e não é um blefe. Eu vejo isso! Elisie se mostra realmente num limite pessoal que triplicou com o que houve. Notei pela expressão dela que ela jamais viu uma morte de perto. Mas, mesmo assim, ela não fez escândalos ou qualquer cena sequer. Acho que ela tem mais limites do que mostra ou que ainda saiba. Pelo jeito, Elisie tem mais a me mostrar!
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR