Tóxico
Foi tudo muito rápido. A invasão foi rápida demais, e, mesmo eu estando preparado pra quase tudo, tinha uma coisa que eu não esperava: traição. Metade dos meus vapores simplesmente virou contra mim, como se tudo o que a gente construiu não significasse nada, como se anos de lealdade pudessem ser comprados de um dia pro outro, e aquilo foi o que realmente me fez entender que a gente tinha perdido antes mesmo de reagir.
Quando eu vi os meus próprios vapores apontando as armas pra mim, não teve dúvida nenhuma na minha cabeça, porque eu sabia exatamente o que aquilo significava. Eu tomei um tiro, senti o impacto atravessando meu corpo, e, logo depois, vi meu filho sendo atingido no braço, o que fez o desespero subir de uma forma que eu não conseguia controlar, e foi nesse momento que eu comecei a gritar pra recuar, porque insistir ali era morrer. A Lyandra começou a gritar pela Alice, desesperada, mas não tinha muito o que eu pudesse fazer naquele momento, porque, se a gente ficasse, não ia sobrar ninguém. Não era falta de força pra ganhar uma invasão, era traição dentro da própria casa, e isso muda qualquer jogo.
Nós viemos pro morro do Canibal já fazia alguns anos, tentando manter as coisas sob controle, reconstruindo aos poucos o que a vida foi quebrando ao longo do tempo. A minha mãe tinha falecido, mas, mesmo assim, a nossa relação continuava presente dentro de mim, porque foi ela que me ensinou muita coisa que eu carrego até hoje.
Lyandra: minha filha, Tóxico… eu não posso deixar a minha filha lá.
Tóxico: calma. Eu sei que você tá nervosa, mas não tem muito o que eu possa fazer agora. Eu tenho que me recuperar do tiro, nosso filho tem que se recuperar também, e a Alice sabe se defender. Ela vai correr pro cofre e vai ficar lá dentro, ela sabe como funciona.
Picolé: o cara conseguiu comprar os nossos vapores. Isso não é normal. Aconteceu alguma coisa nesse meio tempo. A gente tem que entender como ele conseguiu fazer isso.
Tóxico: ele tá dentro do presídio, e eu já escutei que o Aranha não é a melhor pessoa do mundo, então eu sei com quem a gente tá lidando. Eu tenho que tirar a minha filha de lá o mais rápido possível, mas a gente também precisa se recuperar, porque eu quase fui de ralo, nosso filho também, e a nossa filha continua lá dentro. Eu sei que a gente tem que dar um jeito de tirar a Alice de lá, mas agora a gente precisa respirar pelo menos dois dias pra conseguir reagir do jeito certo.
Marcos: eu já liguei pro Porcão e pra Rubi, e eles tão vindo pro Brasil. Também já pedi reforço pros aliados, só que eles tão sofrendo muitos ataques. Esse cara não é burro.
Bruna: o meu irmão também vai ajudar. Ele disse que, se vocês quiserem, podem ficar no morro dele. Eu sei que a gente tá confortável aqui no morro do Canibal, mas qualquer coisa a gente pode ir pra lá também, do jeito que vocês acharem melhor.
Lyandra: e se eles matarem a Alice? Essa é uma das minhas maiores preocupações, porque esse cara atirou em você, atirou no nosso filho… ele pode acabar matando a Alice. Eu não consigo entender até agora por que os nossos vapores se venderam.
Picolé: tudo s.a.f.a.d.o, Lyandra. Eles são de quem paga mais. Ele deve ter comprado um ou dois, e esses conseguiram puxar mais gente. Não foram todos que traíram a gente, a maioria que veio com a gente é fiel, tá ligado, mas quem ficou lá é porque passou a perna na gente, e agora a gente tem que decidir o que vai fazer.
Já fazia um bom tempo que o Porcão e a Rubi não moravam mais no Brasil, mas a gente continuava se falando, se encontrando sempre que dava, mantendo o que ainda restava de normalidade na nossa vida. O Marcos e a Bruna já estavam juntos há um tempo, mas também não viviam mais dentro do morro, porque muita coisa mudou ao longo dos anos, e agora parecia que tudo tinha desmoronado de uma vez só.
E o pior é que eu já estava perto de me aposentar, já estava preparando o meu filho pra assumir o meu lugar, achando que finalmente ia conseguir diminuir o ritmo, mas, pelo visto, esses v.a.g.a.b.u.n.d.o.s esqueceram quem eu sou, esqueceram que eu não cheguei até aqui sendo fraco, e que, quando eu preciso, eu consigo ser muito pior do que qualquer um deles.
Picolé: eu vou falar com todos os aliados que eu conseguir e vou organizar uma invasão assim que der. Eu sei que você tá preocupada, cunhada, mas a gente vai tirar a Alice de lá.
O Picolé também estava viúvo. Ele e a Bianca viveram uma história longa, cheia de altos e baixos, mas verdadeira, e ela morreu dormindo, em paz, depois de mais de vinte anos ao lado dele, o que, de certa forma, trouxe um tipo de conforto que nem todo mundo tem. Ele e o Canibal foram felizes com as mulheres que escolheram, e ambas morreram já mais velhas, depois de uma vida inteira vivida do jeito que quiseram.
A minha mãe, quando estava internada, disse que ia morrer do jeito que queria e que viveu do jeito que precisava viver, e aquilo ficou na minha cabeça até hoje. A Violeta chorou muito quando ela se foi, mas depois entendeu que era o tempo dela. O Canibal nunca mais quis outra mulher, e o Picolé até fica com algumas, mas nunca levou nenhuma pra dentro da casa dele.
As nossas vidas mudaram muito com o tempo, e parecia que a gente estava finalmente conseguindo encontrar um equilíbrio, recomeçando devagar, mas o dia decidiu mostrar que nada estava realmente resolvido, porque, de uma hora pra outra, tudo ficou pesado demais, e eu nunca imaginei que a minha filha fosse ficar presa dentro de um morro cercada por gente que não tem limite nenhum.
E, mesmo tentando acalmar a Lyandra por fora, mantendo a postura, por dentro eu estava exatamente igual a ela, com o mesmo medo, a mesma raiva e a mesma vontade de destruir tudo até trazer a minha filha de volta.