Capítulo 4
Camila Narrando
Meu mundo parecia desmoronar no instante em que recebi a notícia de que eu poderia estar sendo investigada. Investigada. A palavra se cravou no meu peito como um espinho impossível de arrancar. Ainda ecoava dentro da minha mente, repetindo, distorcendo, como se cada sílaba tivesse decidido se multiplicar dentro de mim. Eu só havia feito o meu trabalho. Nada além do que jurei cumprir quando me tornei médica. Salvar vidas. Proteger vidas. E, mesmo assim, de alguma forma absurda e c***l, a situação havia virado contra mim.
No grupo das meninas, chegavam mensagens sem parar — perguntavam onde eu estava, se ia sair, se estava bem — mas eu não conseguia responder. O celular vibrava sem descanso, mas parecia tão distante de mim quanto a própria realidade. A minha mente estava longe demais, presa em um looping de perguntas sem respostas, numa busca frenética por uma lógica que simplesmente não existia.
Tentava relembrar os detalhes daquela noite na clínica, cada gesto, cada ordem dada, cada passo. Mas quanto mais esforço fazia, mais percebia que nada ali fazia sentido. A equipe seguiu todos os protocolos. A escolta esteve presente o tempo inteiro. A segurança conferiu o quarto antes e depois. E a bendita janela… reforçada, com grades soldadas, uma estrutura que suportaria até tempestade. Não havia como alguém escapar por ali.
Mesmo assim, Gabriel — ou melhor, GB, como os seguranças o chamavam — desapareceu. Evaporou. Como se nunca tivesse estado lá.
Meu estômago embrulhou só de pensar.
O celular vibrou de novo. Uma mensagem de Romeu. E, por algum motivo que eu não conseguia explicar, meu coração se apertou ainda mais. Hesitei antes de abrir, como se soubesse que qualquer coisa dita ali só pioraria o que eu sentia. Toquei na notificação com a ponta dos dedos tremendo.
As palavras dele me atingiram como um soco. Curto, direto, frio. Nem parecia o Romeu que eu conhecia.
Fiquei alguns segundos parada, encarando a tela, esperando que ele mandasse mais alguma coisa, qualquer coisa que explicasse o surto, o afastamento repentino. Mas, de repente, a foto dele sumiu. O nome desapareceu. E só restou o ícone cinza de número desconhecido.
Romeu me bloqueou.
Senti um aperto no peito, como se algo tivesse sido arrancado de dentro de mim sem aviso, sem anestesia. Um tipo de dor que não queimava, mas congelava.
Logo depois, meu e-mail apitou. Eu já sabia que não era propaganda, nem lembrete de consulta. O som foi quase como um aviso de sentença. Uma notificação da clínica. Meu coração quase parou antes de eu clicar.
A mensagem era formal, fria, distante — exatamente como as instituições costumam ser quando querem afastar alguém. Eu deveria comparecer no dia seguinte a uma reunião com o delegado responsável pela investigação, com representantes do Conselho Regional de Medicina e outros profissionais ligados ao caso.
Era como receber um atestado não de culpa, mas de perigo.
O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Segurei na borda da mesa para não cair, porque minhas pernas simplesmente deixaram de responder. Em que momento deixei de ser médica para me tornar suspeita? Como o ato de salvar alguém podia se transformar numa ameaça?
Desabei no sofá. Minhas pernas tremiam sem controle, efeito direto da ansiedade que se espalhava pelo corpo como veneno lento. O coração latejava tão rápido que parecia prestes a rasgar a minha garganta. E, mesmo com toda essa mistura de medo, impotência e desespero, as lágrimas não caíam. Não conseguiam. Estavam presas, sufocando, queimando por trás dos olhos.
O dia, que deveria ser leve e tranquilo, se transformara no pior da minha vida. Era como se o mundo tivesse dado um giro brusco e me deixado tonta.
Meu único consolo era pensar que talvez fosse um m*l-entendido. Talvez eu nem estivesse sendo investigada de fato. Talvez a imprensa tivesse exagerado, como sempre fazia. Talvez aquelas manchetes gritadas fossem só isso — barulho.
Mas havia outra coisa que me atormentava — e essa eu me recusava a dizer em voz alta:
GB estava solto.
E ninguém sabia onde ele estava.
Meu w******p vibrou de novo.
Camila: meninas, preciso sair.
Fernanda: como assim?
Maria: oxe? Tá surtando por quê?
Fernanda: eu topo.
Maria: eu também!! Vai vir com teu carrão me buscar na favela, né?
Sorri pela primeira vez no dia. Um sorriso curto, fraco, mas real. Era por isso que eu amava essas duas. Elas tinham o dom de trazer luz até nos cenários mais escuros.
Camila: estou indo buscar vocês.
Levantei-me com dificuldade, como se meu corpo pesasse o dobro. Fui até a cozinha e preparei um copo de chá de camomila com suco de maracujá. Era quase um ritual meu quando sentia o mundo ruir. Às vezes funcionava. Outras, como naquele momento, só fazia meus dedos tremerem menos.
Minha mente insistia em me lembrar que eu já era adulta, que precisava enfrentar meus problemas, que fugir não era solução. Mas, ao mesmo tempo, era impossível evitar a vontade de abandonar tudo — o Rio, a clínica, a pressão — e voltar para o interior de Minas, para a casa dos meus pais. Lá, nada nunca parecia tão caótico. A vida tinha cheiro de café fresco e barulho de galinhas no quintal. Nada de polícia, nada de facção, nada de pacientes que fugiam.
Respirei fundo. Peguei a chave do carro. No quarto, escolhi uma roupa leve: saia branca curta e camiseta azul clara. Uma tentativa de parecer normal, mesmo com a mente em pedaços. Coloquei óculos escuros para disfarçar o cansaço das olheiras. Dei uma última olhada no espelho. Parecia cansada, vulnerável… e apavorada.
Mas abri a porta e segui.
Dirigir sempre me acalmava. O movimento de pisar na embreagem, trocar de marcha, olhar o retrovisor. Era como se o mundo lá fora pudesse, mesmo que temporariamente, desacelerar junto comigo. Tentava convencer minha mente de que tudo ia ficar bem. Que amanhã as coisas se resolveriam. Que aquilo não era o fim da minha carreira. Que eu não seria acusada de algo que não fiz.
Maria morava na Rocinha. Não perguntei como estava lá desde a última operação policial, mas já dava para imaginar. A favela sempre parecia respirar, viva, mesmo depois dos piores dias. Uma comunidade inteira com medo, esperança e rotina acontecendo ao mesmo tempo.
Quando cheguei à entrada, abaixei os vidros, como Maria sempre me orientava. Parei na descida. Alguns rapazes olharam em minha direção, tentando adivinhar se eu era conhecida, perdida ou encrenca.
De longe, vi Maria vindo. Linda como sempre, com aquele corpo que parecia dançar mesmo quando ela apenas andava. A alegria dela era luminosa, contagiante. Ela sorria para todo mundo. Era querida ali. Protegida.
Abriu a porta do carro e me abraçou forte, daquele jeito que quase desmonta a gente.
— Estava com saudade, doutora! — ela disse apertando ainda mais. — Tu some demais! Importante demais para nós para ficar desaparecendo.
Sorri fraco.
— Ah, Maria… eu sei. Mas eu preciso trabalhar, né?
Ela revirou os olhos.
— Tu só pensa nisso! Mulher, tu precisa viver! Conhecer gente nova, beijar umas bocas diferentes… tua vida está um tédio.
— Pipipi, popopó — brinquei.
— Ah, sua desgraçada — ela riu. — Hoje tem baile no morro. Vamos?
— Maria, olha para minha cara. Eu pareço alguém que vai em baile?
— Tu não parece nem alguém que sai de casa! — ela estalou a língua. — Precisa viver, Camila. Pelo amor de Deus.
Suspirei, mas não neguei. Ela tinha razão.
Comecei a estudar medicina aos quinze anos para tentar uma bolsa. Consegui, mas perdi grande parte da adolescência no processo. Festas, viagens, paixões… passei por tudo isso de longe. Sempre estudando, sempre me cobrando. Talvez por isso hoje as minhas emoções estivessem tão bagunçadas, tão à flor da pele.
— Eu até preciso sair mesmo — admiti. — Mas baile… não sei se é uma boa.
— Só sabe se é bom depois que experimenta — ela piscou.
Chegamos à casa da Fernanda. Ela saiu correndo com a energia de sempre, abriu a porta do carro, nos beijou nas bochechas.
— Prepara porque hoje vai chover! — anunciou. — Após meses finalmente vamos sair juntas!
Respirei fundo.
— Acho que vou ter problemas no trabalho — soltei antes de conseguir segurar.
As duas viraram para mim ao mesmo tempo.
— O que houve? — Fernanda perguntou.
— O tal do Gabriel… ou GB, sei lá — comecei. — Eu era responsável por cuidar dele na clínica. A segurança queria prender o homem à força. Eu não deixei. E como forma de agradecimento, o desgraçado fugiu.
Maria arregalou os olhos. Fernanda, ao contrário, parecia… encantada.
— Isso é tão… romântico — suspirou. — A médica apaixonada pelo bandido proibido que foge, mas depois volta para recuperar o que sentiu…
Gargalhei alto. Maria também.
E, por um instante curto, tudo pareceu menos pesado.
Elas sempre faziam isso.
Transformavam caos em riso.
E talvez… talvez hoje eu realmente precisasse disso.