Capítulo 3
Camila Narrando
Acordar sem despertador era um luxo raro na minha rotina. A luz suave que atravessava as cortinas do meu apartamento acordava-me devagar, como se o mundo lá fora tivesse decidido que, só por hoje, não precisava me apressar. Pela primeira vez em semanas, não precisei correr para o plantão, vestir o jaleco às pressas ou ouvir o bip incessante dos monitores cardíacos. Eu estava de folga — uma palavra tão pequena para uma sensação tão gigante.
Tomei banho devagar, escolhi uma roupa leve e deixei o cabelo secar naturalmente. Nada de coque apertado, nada de máscara no rosto, nada de luvas. Só eu, a brisa que entrava pela janela e a cidade acordando lá fora.
Em vez de me trancar em casa e mergulhar de novo nos pensamentos que tentavam me perseguir, decidi sair um pouco. Caminhei até um barzinho próximo à praia, um cantinho simples que sempre me lembrava que ainda havia vida além dos corredores da clínica.
Sentei-me em uma mesa próxima à areia, onde podia sentir o vento tocar minha pele como se estivesse tentando me lembrar que eu ainda era humana, e não apenas uma máquina de socorrer vidas. O garçom me reconheceu — não por amizade, mas porque eu sempre aparecia ali quando precisava respirar — e trouxe um copo de suco de maracujá sem que eu pedisse. Sorri agradecida.
Por alguns minutos, deixei a mente vaguear ao som das ondas. O mar acalmava qualquer pensamento, como se tivesse o poder de lavar até as lembranças mais pesadas dos plantões. Encostei a cabeça na cadeira e fechei os olhos. Respirar nunca parecia tão simples.
Mas a paz não durou.
Uma sombra se aproximou da mesa e, antes mesmo de olhar, reconheci a voz que mais me irritava do que deveria.
— Bom dia, pequena Camila.
Abri os olhos devagar. Pedro estava parado ao meu lado, sorrindo daquele jeito convencido que eu até achava bonito em algumas situações — mas não naquela manhã. Ele puxou a cadeira sem pedir permissão e se sentou como se tivesse sido convidado. Revirei os olhos por dentro.
— Pedro — disse, mantendo a voz neutra.
Ele estava com o uniforme do restaurante onde trabalhava: camisa preta, avental amarrado na cintura, cabelo preso num coque improvisado. Era simpático, engraçado…, mas totalmente o oposto do que eu queria na minha vida.
— Dormiu bem? — perguntou, sorrindo com aquele ar insinuante.
— Bem o suficiente — respondi.
Ele riu, achando graça de algo que só existia na cabeça dele.
A noite anterior havia sido… ok. Nada de mais. Nada de intensidade, de choque elétrico, de perigo. Nada que deixasse o meu coração fora do ritmo. Pedro era carinhoso, sabia ser gentil, mas não fazia o meu corpo estremecer. E depois de tudo o que a clínica me ensinara sobre fragilidade, dor e limites, eu não queria conforto. Queria verdade. Queria intensidade.
Ele segurou minha mão sobre a mesa. Eu a retirei discretamente.
— Olha, Camila… — ele começou, suspirando — eu estive pensando. A gente combina. Você sabe que combina. Eu quero algo sério. Quero namorar com você.
Um peso caiu sobre meus ombros. Eu já tinha tentado ser clara, mas Pedro sempre insistia em acreditar numa versão alternativa da nossa relação — uma versão que só existia na cabeça dele.
— Pedro, a gente conversou sobre isso — falei firme. — Não vou namorar você.
Ele piscou algumas vezes.
— Então o que eu sou para você? Só uma distração?
Soltei o ar, cansada.
— A gente teve uns momentos, foi bom enquanto durou… mas é isso.
Ele franziu a testa, machucado no orgulho.
— Você ainda vai ser minha — disse num tom estranho, levantando-se.
A frase ecoou. Ele saiu, misturando-se aos turistas. Parecia exagero me incomodar… mas aquele olhar final dele me deixou alerta.
Peguei o celular para fugir do desconforto. A tela acendeu com uma avalanche de notificações: dezenas de ligações perdidas — Romeu, outros médicos, números desconhecidos. Mensagens da clínica. Senti meu peito apertar.
Mas hoje era meu dia. Era, pelo menos até poucos segundos atrás.
Abri o grupo das minhas amigas. Mil e quinhentas mensagens acumuladas.
Camila: bom dia, meninas.
Fernanda: OOOOI SUA DESGRAÇADA, TU ESTÁS VIVA???
Maria: achei que tinha sido sequestrada.
Fernanda: ou fugido com o bonitão de ontem.
Sorri. Mesmo no caos, elas eram meu ponto seguro.
Camila: trabalhando, né, minhas loucas.
Maria: falando nisso… E O GOSTOSO QUE SUMIU???
Camila: quem????
Fernanda: amiga… tu está por FORA.
Fernanda: vazaram foto do chefão que fugiu da clínica hoje.
Fernanda: segura essa.
A foto chegou.
E meu mundo congelou.
Gabriel.
O paciente misterioso. O homem que sangrou tanto que achei que morreria duas vezes. O olhar firme, mesmo quando quase inconsciente. A presença que inquietava a equipe inteira. O corpo marcado por ferimentos e por alguma história que ninguém ousava perguntar.
E, de repente, ele estava ali — na tela do meu celular, estampado em sites de fofoca e jornais policiais.
O coração disparou.
Abri o Twitter. Seu nome estava em primeiro lugar nos assuntos do momento.
“Paciente de alto risco foge de clínica.”
“Líder de facção desaparece sem deixar rastro.”
“Funcionários podem ter facilitado fuga.”
“Ele é lindo, mas perigoso, combo fatal kkkkkk.”
Senti minhas mãos gelarem.
Procurei uma fonte confiável. Um jornal grande já tinha publicado uma matéria longa:
“A fuga cinematográfica de Gabriel: criminoso mais procurado deixa clínica privada após falha na segurança. Depoimentos indicam possível auxílio interno.”
Auxílio interno.
Ou seja: eu. Romeu. Qualquer pessoa que respirou perto dele.
Meu estômago revirou.
Fernanda: amiga… tão falando em MÉDICOS.
Maria: se eu fosse tu, estava pedindo demissão.
Fernanda: ou comprando passagem para outro país KKKKK.
Tentei rir, mas nada saiu.
Foi aí que a primeira imagem da fuga começou a aparecer na TV do bar, num volume baixo, mas suficiente para chamar atenção. Virei para olhar.
E lá estava ele.
Um vídeo tremido, possivelmente gravado por uma câmera de segurança.
Gabriel caminhava pelo corredor da clínica com a postura de quem tinha acabado de ressuscitar — e tecnicamente tinha. Roupas hospitalares, passos lentos no início, mas decididos. A cabeça baixa, o rosto meio encoberto, o olhar atento para cada canto.
De repente, no vídeo, ele parou. Observou a primeira porta. A segunda. E então encontrou uma brecha — alguém entrando no elevador.
Ele acelerou.
O vídeo cortou.
A repórter continuou: “Estima-se que ele tenha deixado o prédio menos de seis horas após uma cirurgia de emergência.”
Aquilo era impossível.
Ou deveria ser.
Eu senti um arrepio súbito, como se presenciasse algo que não era para estar vendo. Lembrei da força daquele homem mesmo quase inconsciente. Lembrei da sensação estranha de que, se ele quisesse, ele simplesmente… sobreviveria. De qualquer jeito.
Suspirei fundo, tentando afastar esses pensamentos. Mas algo dentro de mim dizia que ele não fugiu simplesmente porque sim. Não naquele momento. Não daquele jeito.
Fechei a conta rapidamente e voltei para casa.
Assim que entrei no apartamento, fechei a porta num impulso. O silêncio que antes era reconfortante agora parecia… denso. Como se cada parede estivesse me observando.
Meu celular vibrou.
Romeu.
Romeu: Camila, preciso falar com você. Urgente.
Urgente.
Nunca significava coisa boa.
Me sentei no sofá, respirei fundo e encarei o reflexo da cidade no vidro da minha janela. O dia estava terminando. A luz laranja do fim da tarde pintava tudo de um jeito bonito demais para combinar com a sensação dentro de mim.
E enquanto eu encarava o horizonte dourado, uma pergunta se formava — insistente, incômoda, inevitável.
Gabriel fugiu.
Mas por que justo agora?
E… o que isso tinha a ver comigo?
Porque, no fundo, eu não podia evitar a sensação de que aquela fuga não foi ao acaso.
E, pior…
de que aquilo ainda não tinha acabado.