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Protegida Pelo Dono Do Morro

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Sinopse

Elisa nunca imaginou que sua vida mudaria de forma tão brutal.Depois da morte do pai e presa em um casamento sufocante com um homem perigoso, ela toma a decisão mais difícil de sua vida: fugir no meio da noite com seu filho de apenas um ano. Sem rumo, sem dinheiro e com medo de ser encontrada, ela segue para o Rio de Janeiro, buscando refúgio no único lugar que lhe resta — o morro onde sua tia mora.Mas o que ela encontra é um mundo completamente diferente.Armas expostas. Regras próprias. Olhares desconfiados. E no topo de tudo… Henrique, o temido Lobão, dono do morro.Frio, respeitado e perigoso, ele está acostumado a controlar tudo ao seu redor. Porém, quando seus olhos encontram a loira assustada com o bebê no colo, algo muda. E quando decide protegê-la, ninguém ousa questionar.Entre o medo e a segurança, Elisa se vê cada vez mais envolvida por aquele homem intenso, enquanto tenta reconstruir sua vida como manicure na comunidade. Mas o passado não fica para trás tão facilmente… e o homem de quem ela fugiu não desistiu de encontrá-la.Agora, Elisa terá que escolher: fugir mais uma vez…ou confiar sua vida ao dono do morro que prometeu protegê-la.Porque quando Lobão protege…ninguém toca.

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Recomeçar
A estrada parecia não ter fim. Elisa manteve a cabeça encostada no vidro frio do ônibus, sentindo cada vibração do motor atravessar seu corpo exausto até os ossos. Lá fora, a noite engolia tudo sem dó. As paisagens passavam rápido demais pela janela, reduzidas a sombras borradas sob os postes de luz fraca da rodovia, como se o mundo inteiro tivesse pressa de seguir em frente enquanto ela ficava presa no mesmo lugar, no mesmo medo, na mesma vida que estava tentando deixar para trás. Ou talvez fosse ela quem estivesse fugindo rápido demais, sem olhar pra trás com medo de se arrepender. Baixou os olhos para João adormecido nos braços. Ele estava pequeno, quente contra o peito dela, com o rostinho enfiado no tecido do casaco que ela usava para proteger os dois do ar-condicionado gelado do ônibus. Os fios claros de cabelo do menino faziam cócegas no queixo de Elisa cada vez que ela respirava. Ela passou os dedos devagar pela cabeça dele, num carinho silencioso, automático, tentando gravar aquele instante na memória com a força de quem sabe que pode precisar daquela lembrança depois. Como se memorizar cada detalhe, o peso dele, o cheiro de leite, a respiração calma, impedisse ela de desmoronar ali mesmo, no banco 23. — Vai ficar tudo bem… — sussurrou, tão baixo que nem ela teve certeza se tinha falado. A própria voz saiu fraca, rachada no meio. Sem convicção nenhuma. Ela não tinha certeza de nada. Não tinha certeza se ia conseguir chegar, se a tia ia receber ela, se ia ter teto, comida, paz. Não tinha certeza de absolutamente nada desde que tinha colocado o pé pra fora de casa com uma mochila e um bebê no colo. O ônibus seguia quase vazio. Gente espalhada nos bancos, uns com a cabeça tombada pra trás dormindo de boca aberta, outros com a cara iluminada pela tela do celular, passando o dedo sem expressão nenhuma. A luz azulada no teto deixava tudo com um aspecto fantasma, silencioso demais, pesado demais. O cheiro de café velho que vinha da garrafa térmica do motorista se misturava com o odor do tecido gasto das poltronas e com aquele ar parado de viagem longa. Elisa piscou várias vezes, sentindo os olhos arderem. Segurou as lágrimas com a força que ainda tinha. Inútil. A primeira desceu devagar pelo rosto, abrindo caminho. Depois outra veio atrás, mais rápida. Virou o rosto pra janela de novo, com vergonha, com medo de alguém ver e perguntar alguma coisa que ela não ia conseguir responder. Mas não era dos passageiros que ela queria se esconder. Era das lembranças. E a mente dela insistia em voltar, como um cachorro que lambe a própria ferida. A casa, as discussões, o olhar do Levi atravessado de raiva, os julgamentos que ele fazia sem falar uma palavra. Só de pensar no nome dele o corpo inteiro de Elisa encolheu no banco, num reflexo. As promessas que ele fez no começo, de que nunca ia deixar ela sozinha, de que ia cuidar dela, de que juntos eles eram mais fortes. Elisa quis acreditar. E acreditou. Por dois anos, acreditou. Mas o homem gentil que cozinhava pra ela quando chegava cansada do trabalho sumiu aos poucos, sem alarde, sem aviso, como água vazando de um balde furado. Primeiro vieram os ciúmes disfarçados de preocupação. "Com quem você tava falando?", "Por que demorou pra responder?", "Achei essa roupa meio vulgar pra você sair assim". Depois as perguntas constantes. As críticas pequenas, diárias, que iam minando. Depois, o controle, escancarado. As roupas que ele não gostava sumiram do guarda-roupa. As amizades que ele não aprovava foram se afastando uma por uma, até que não sobrou ninguém. As ligações que ele atendia por ela, o celular que ele vivia mexendo, as senhas que ele exigia. Até que os gritos começaram. E, junto dos gritos, veio o medo. Um medo físico, que dava nó no estômago e fazia a mão tremer. O pior nem eram as explosões, quando ele quebrava copo, batia porta, xingava. O pior era o silêncio depois. As horas, os dias em que ele não olhava pra ela, não respondia, tratava como se fosse invisível. Era o jeito que Levi tinha de fazer ela sentir que tudo era culpa dela. Que ela errava, que ela provocava, que ela exagerava, que ela era louca. Depois vieram as coisas que ela não entendia e que ele nunca explicava. Homem estranho aparecendo na porta onze da noite, falando baixo com ele na sala. Telefonema que ele desligava na mesma hora quando ela entrava no cômodo. Maços de dinheiro que apareciam na gaveta do quarto, sem origem, sem explicação. Segredos. A casa inteira virou um segredo. Foi aí que Elisa percebeu que não reconhecia mais o homem com quem dividia a cama. O homem que era pai do filho dela. E pior: percebeu que não reconhecia mais a si mesma. A mulher que sorria, que tinha planos, que discutia, tinha sumido. No lugar ficou aquela ali, encolhida no banco do ônibus, fugindo. Apertou João contra o peito num reflexo bruto, animal, como se alguém fosse puxar o menino dos braços dela naquele segundo. — Mamãe tá aqui… — murmurou, sentindo o coração bater na garganta, na cabeça, nos ouvidos. João se mexeu, incomodado com o aperto, resmungou um chorinho fraco, mas continuou dormindo. O sono de bebê é uma bênção. Elisa fechou os olhos e puxou o ar pelo nariz, devagar, contando até quatro como tinha lido uma vez. Precisava se acalmar. Agora estava indo pro Rio de Janeiro. Não tinha mais volta. Estava indo pro morro onde a tia Rosa morava. A única pessoa de sangue que ainda tinha no mundo. Nunca tinha pisado lá. Nunca tinha visto a tia pessoalmente depois de adulta. Tudo que conhecia vinha das histórias do pai, que falava da irmã mais nova com um misto de saudade e carinho, com orgulho. "A Rosa é braba, mas tem coração maior que ela", ele dizia. Elisa lembrava de telefonema distante uma vez por ano, de um Natal antigo quando tinha oito anos, da voz forte e da risada alta de uma mulher do outro lado da linha que parecia tomar a casa inteira. Era pouco. Era quase nada. Mas era tudo que ela tinha agora. Recomeço. A palavra parecia bonita quando a assistente social falou no CRAS. Quase confortável, cheia de esperança. Na real, na prática, ali no ônibus às três da manhã, a palavra assustava. Dava frio na barriga. Não sabia como ia criar o filho num lugar desconhecido, num morro que ela só via na televisão e nunca pelos melhores motivos. Não sabia se estaria segura, se Levi não ia achar ela, se a tia ia mesmo poder ajudar ou se já tinha problema demais pra cuidar. Não sabia como ia arrumar dinheiro, trabalho, creche, como ia sobreviver dali pra frente com uma criança de colo e uma mochila. Não sabia nem o que ia encontrar quando descesse na rodoviária. Só sabia de uma coisa, a única certeza que tinha: precisava ir embora antes que fosse tarde. Antes que acontecesse com ela o que aconteceu com outras mulheres que ela viu na TV. Antes que João crescesse vendo aquilo. Outra lágrima correu pelo rosto, mas dessa vez ela não limpou na hora. Deixou descer. Respirou fundo e limpou depois, com a manga do casaco. Não podia se permitir quebrar agora. Não podia desmontar. Não quando tinha um serzinho dependendo inteiramente dela pra comer, pra dormir, pra viver. O ônibus fez uma curva longa pra esquerda, os pneus cantaram no asfalto, e a luz forte de uma placa de rodovia iluminou o interior escuro por dois segundos. RIO DE JANEIRO — 120 KM O estômago de Elisa contraiu com tanta força que ela achou que ia vomitar. Tava chegando. Faltava menos de duas horas. A realidade bateu com a mão aberta na cara dela. O medo veio primeiro, como sempre. Sufocante, gelado, subindo pela espinha e paralisando os dedos. Mas junto do medo, espremido num cantinho, veio outra coisa. Uma coisa pequena. Frágil. Quase imperceptível de tão nova, de tão sem uso. Mas tava lá. Esperança. Uma chance. A possibilidade real de construir uma história nova do zero. De começar de novo, mesmo sem saber como. Talvez aquele fosse mesmo o começo de alguma coisa. Talvez, só talvez, ainda existisse alguma chance pra ela e pro João, juntos. Olhou pra João adormecido, pra boca entreaberta, pra mãozinha fechada em punho perto do rosto. Abaixou devagar e beijou a testa dele com cuidado, sentindo a pele quente e o cheiro de filho. — A mamãe vai tentar… — sussurrou contra a pele dele, e dessa vez a voz saiu firme — Por nós dois. Eu juro que eu vou tentar. Lá fora, a noite continuava profunda, preta, sem estrelas. Mas longe, muito longe no horizonte, pequenas luzes começavam a aparecer. Pontinhos amarelos, separados, que iam ficando mais juntos quanto mais o ônibus avançava. Era o Rio. Era o morro. Era o desconhecido. Dentro dela, a sensação não era mais só de pânico. Era uma mistura. Medo, sim. Muito. Mas também era alívio. Era vitória. O primeiro passo, o mais difícil, o de sair pela porta, ela já tinha dado. Agora era ter coragem pra dar o segundo, o terceiro, e todos os outros que viessem depois. E ela ia dar. Por ele. Por João.

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