Pré-visualização gratuita Recomeço
A estrada parecia interminável.
Elisa encostou a cabeça no vidro frio do ônibus, sentindo a vibração constante do motor atravessar seu corpo cansado. A noite cobria tudo lá fora, transformando as paisagens em sombras borradas que passavam depressa demais, como se o mundo estivesse correndo enquanto ela ficava para trás.
Ou talvez fosse ela quem estivesse fugindo.
Aperto no peito.
Seu filho dormia em seus braços, pequeno e quente, com o rosto escondido contra o casaco dela. Os fios claros do cabelo dele faziam cócegas em seu queixo. Elisa passou a mão devagar pela cabeça do menino, tentando memorizar aquele momento, como se precisasse guardar cada detalhe para não desmoronar.
— Vai ficar tudo bem… — sussurrou, mais para si mesma do que para ele.
Mas sua voz saiu fraca.
Ela não tinha certeza de nada.
O ônibus estava quase vazio. Algumas pessoas dormiam, outras olhavam para o celular. A luz azulada e fraca no teto deixava o ambiente ainda mais silencioso, quase pesado. O cheiro de café velho e estofado antigo preenchia o ar.
Elisa piscou várias vezes, tentando conter as lágrimas, mas elas vieram mesmo assim. Primeiro uma, depois outra, escorrendo quente pelo rosto.
Ela virou um pouco o rosto, com medo de alguém perceber.
Sua mente insistia em voltar.
A casa.
As discussões.
O olhar de Levi.
Seu corpo se encolheu automaticamente ao lembrar.
Ela nunca imaginou que sua vida tomaria aquele rumo. Conheceu Levi em uma festa. Ele parecia gentil, seguro, protetor. Falava com firmeza, sorria com facilidade, dizia que cuidaria dela. Depois que seu pai morreu, ela estava vulnerável demais… e ele entrou em sua vida como alguém que prometia estabilidade.
Promessas.
Tudo virou controle.
Depois vieram os gritos.
As suspeitas.
O medo constante.
E quando ele começou a se envolver com coisas que ela não entendia — gente estranha, ligações à noite, dinheiro aparecendo sem explicação — o mundo dela desmoronou de vez.
Elisa apertou o filho contra o peito, como se alguém pudesse arrancá-lo de seus braços.
— Mamãe tá aqui… — murmurou, sentindo o coração acelerar.
O menino se mexeu, mas continuou dormindo.
Ela respirou fundo.
Agora estava indo para o Rio de Janeiro. Para o morro onde sua tia Rosa morava. A única pessoa que ela tinha. A única que poderia ajudá-la.
Nunca tinha ido até lá.
Seu pai falava da irmã com carinho, mas a distância sempre foi grande. Ela só lembrava de algumas ligações, de um Natal distante, de uma mulher sorridente com voz forte.
Era sua única chance.
Recomeço.
A palavra parecia bonita… mas assustadora.
Ela não sabia como seria criar o filho em um lugar desconhecido. Não sabia se seria segura. Não sabia como sobreviver. Não sabia nada.
Só sabia que precisava fugir.
Mais uma lágrima caiu.
Ela limpou rapidamente, tentando ser forte. Não podia se dar ao luxo de quebrar agora. Não com o filho dependendo dela.
O ônibus fez uma curva longa. Uma placa iluminada passou pela janela.
Rio de Janeiro — 120 km
Seu estômago se contraiu.
Estava chegando.
O medo veio forte, mas junto com ele, algo diferente. Uma esperança tímida. Pequena. Frágil.
Talvez… só talvez… aquele fosse o começo de uma nova vida.
Elisa olhou novamente para o filho. Beijou a testa dele com cuidado.
— A mamãe vai tentar… — sussurrou. — Por nós dois.
Lá fora, a noite continuava profunda.
Mas, no horizonte, muito distante, algumas luzes começavam a surgir.