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🥀 Que comecem os jogos
Ao sair do táxi, Aurora ajeitou sua roupa e tirou o cabelo do rosto. O som do motor do táxi se distanciou, sendo engolido pelo som de outros carros que passavam ali. Aurora Hervé permaneceu parada por um momento, observando a fachada da Marino Logística. O edifício era uma construção imponente que misturava a arquitetura histórica de Bolonha com painéis de vidro escurecido, refletindo o céu nublado daquela manhã de terça-feira.
Para o mundo, era o coração de um império. Para Aurora, era o monumento erguido sobre o cadáver da dignidade de seu pai. Ela parecia uma executiva de elite, mas sentia-se como uma infiltrada em território inimigo.
— Respire, Aurora. — ela sussurrou para si mesma. — Você não é a filha do Michael agora. Você é a mulher que vai limpar a sujeira deles até encontrar o que precisa.
Ao atravessar as portas automáticas, o ar condicionado a atingiu como um aviso. O mármore do saguão brilhava tanto que era possível ver o próprio reflexo, e Aurora caminhou sobre ele com a confiança de quem já tinha decorado cada centímetro da planta daquele prédio. A secretária no trigésimo andar, uma mulher que parecia esculpida em gelo, m*l levantou os olhos.
— Senhorita Hervé? O senhor Marino está à sua espera. Ele não tolera atrasos, nem mesmo de um segundo. — a voz dela saiu amarga, tal qual como estava sua cara.
— Ótimo — Aurora respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eu também não tolero perda de tempo.
Ela não esperou ser anunciada. Empurrou as portas duplas de carvalho com uma força que fez um estrondo ecoar na sala ampla do CEO. Charles Marino estava sentado atrás de uma mesa minimalista de ardósia escura. Ele também não levantou os olhos dos papéis que assinava. A luz que entrava pelas janelas laterais destacava seu perfil anguloso, o maxilar bem desenhado estava tenso e o cabelo escuro perfeitamente penteado e alinhado. Ele exalava o tipo de autoridade que não precisava gritar para ser ouvida, bastava sua presença para sugar o oxigênio do ambiente.
Houve trinta segundos de silêncio. O silêncio era uma ferramenta de intimidação que Charles usava com maestria.
— Sente-se. — ele disse finalmente, sem olhar para ela. A voz era grave, seca, como o som de pedras se chocando no fundo de um poço.
— Eu prefiro ficar de pé. — Aurora rebateu. — Assim ficamos na mesma altura quando você finalmente decidir que sou mais importante do que essa papelada.
Charles parou a caneta no ar. Lentamente, ele ergueu a cabeça. Os olhos dele, de um azul gélido e impenetrável, cravaram-se nela. Ele a estudou como se estivesse avaliando uma mercadoria que não tinha certeza se queria comprar.
— Você tem muita coragem, senhorita Hervé. Ou talvez seja apenas insolente ou tøla demais. — Charles disse, se recostando na cadeira. — Eu li seu currículo. Você é brilhante no que faz, mas o mercado está cheio de pessoas brilhantes. O que eu preciso aqui é de alguém que não me dê dor de cabeça e que saiba que, nesta empresa, a minha vontade é a única lei que importa.
Aurora deu um passo à frente, apoiando as mãos na mesa dele. Ela não recuou diante do olhar gélido, se manteve firme e sustentou sua voz e seu olhar.
— Se você quisesse alguém para dizer "sim" a cada erro seu, teria contratado um estagiário ou uma planta decorativa. — ela disse, com um sorriso de canto que era puro desafio aos olhos de Charles. — Você me contratou porque sua logística reversa é um desastre e seus custos estão derrubando a empresa. Eu não vim aqui para ser simpática, Sr. Marino. Vim para salvar o seu balanço financeiro. Se você não consegue lidar com alguém que pensa por conta própria, me avise agora e eu poupo o meu tempo.
Charles estreitou os olhos. Ele nunca tinha sido tratado daquela forma, especialmente em seu próprio escritório. A maioria das pessoas gaguejava, desviava o olhar e algumas até choravam de nervoso. Aurora Hervé parecia estar pronta para uma briga de rua em pleno centro financeiro de Bolonha.
— Você é arrogante. — ele constatou com a voz baixando um tom e tornando-se mais perigosa.
— Eu sou eficiente. — ela corrigiu. — A arrogância é um luxo que eu deixo para os donos da empresa.
Charles soltou um suspiro curto, quase um riso sarcástico.
— Muito bem. Vamos ver se o seu trabalho é tão afiado quanto a sua língua. Temos um problema no terminal de interconexão em Parma. Três navios parados, uma multa contratual que sobe a cada hora e um sindicato ameaçando fechar os portões. Resolva.
— Quero acesso total aos registros de auditoria dos últimos cinco anos. — Aurora disparou imediatamente. — Sem filtros e sem segredos da diretoria.
— Nem pensar — Charles a cortou. — Ninguém tem acesso total, exceto eu.
— Então você quer que eu opere um paciente com uma venda nos olhos? — Ela se inclinou mais e logo a proximidade permitiu que ela visse a pequena cicatriz no supercílio dele. — Se você não confia na profissional que contratou, o problema não é a minha competência, é a sua insegurança.
O rosto de Charles fechou em uma expressão sombria. Ele se levantou, ficando muito mais alto do que ela, tentando usar sua estatura como um peso físico e uma ameaça.
— Cuidado com as palavras, senhorita Hervé. Eu posso te destruir antes mesmo de você terminar de arrumar sua mesa.
— Você pode tentar. — Aurora sussurrou com voz carregada de um ódio que ele confundiu com determinação profissional. — Mas enquanto eu estiver aqui, você vai seguir o meu plano. Ou vai assistir seu império afundar por puro ego.
Charles a encarou por um tempo que pareceu uma eternidade. Havia uma eletricidade entre eles, um choque de vontades que fazia o ar parecer pesado.
— Você tem acesso aos registros de Parma e de Bolonha. Nada mais. Agora vá trabalhar.
Aurora não disse uma palavra. Ela deu as costas e caminhou em passos firmes em direção à saída.
— Senhorita Hervé? — a voz dele a parou na porta. — Se você falhar, eu vou garantir que você nunca mais consiga um emprego nem como recepcionista em uma garagem de bicicletas nesta cidade.
— Se eu falhar, Charles, será a primeira vez na vida. E eu não pretendo começar por sua causa.
As portas se fecharam atrás dela. Charles Marino permaneceu em pé, observando a porta por onde ela saíra. O perfume dela, algo cítrico e cortante, nada doce, ainda pairava na sala. Ele sentiu uma irritação que não conseguia nomear. Aurora Hervé era um problema. Mas, pela primeira vez em meses, ele não se sentia entediado, muito pelo contrário, ele estava pronto para encarar aquele desafio.
Aurora entrou no banheiro do corredor e trancou a porta. Suas mãos estavam suadas tremendo levemente. Ela abriu a torneira e deixou a água fria escorrer sobre as mãos.
— Arrogante. Desgraçadø. — ela murmurou enquanto olhava seu reflexo no espelho.
Ele era exatamente como seu pai descrevia Augusto Marino: alguém que via pessoas como números e lealdade como uma fraqueza. Charles não era apenas o herdeiro de uma fortuna, ele era o herdeiro da crueldade.
O celular dela vibrou, a fazendo voltar para o mundo real. Era uma mensagem de George, seu namorado.
"Bom primeiro dia, meu amor. Reservei uma mesa naquele lugar que você gosta perto da Via Zamboni. Quero ouvir tudo."
Aurora sentiu um aperto no peito. George era o oposto de tudo aquilo. Ele era calmo, previsível e doce. Mas, enquanto lia a mensagem, ela percebeu com um susto que o que sentia por George era uma espécie de gratidão e não paixão. Ela amava a segurança que ele oferecia, mas ali, naquele prédio frio, enfrentando o lobo que comandava a Marino Logística, ela se sentia mais viva do que em todos os jantares românticos que já tivera.
— Foco, Aurora. — ela disse a si mesma. — George é a sua vida real. Charles é apenas a ferramenta da sua justiça.