Capítulo sete

2920 Palavras
Tento me manter firme enquanto encaro Brian. Mesmo que minha vontade seja de sorrir e sorrir e sorrir sem explicação alguma. ㅡ Eu estava te esperando. ㅡ ele diz. Engulo em seco e então, sem saber o que exatamente preciso fazer ou dizer, ergo os bolinhos na altura do peito dele. ㅡ Trouxe bolinhos, aceita um? Brian olha para minhas mãos enquanto franze o cenho. Depois, ergue o olhar para o meu e sorri. Juro, meu coração corre sérios riscos de parar do tanto que está acelerado agora. ㅡ Só se você entrar e comer junto a mim, doutor. Sinto minha caixa torácica doer e quase quebrar com as batidas fortes que meu coração dá. Mas aceno positivamente, nervoso, com a cabeça balançando de modo ritmado. Brian rir, o som de sua risada me invade, mas então ele abre um pouco mais a porta e me dá passagem para que adentre seu quarto. Quando o faço, vejo sua mala aberta sobre a cama. ㅡ Está sendo transferido? ㅡ pergunto, curioso. Brian senta sobre a cama e olha a pequena mala. ㅡ Na verdade, estou indo embora. ㅡ Embora? ㅡ franzo o cenho, sentando-me às pressas sobre a cama também. ㅡ Porquê? Já está bem o suficiente para ir? ㅡ Você é médico, King... sabe melhor do que eu que no meu caso, a palavra “melhor” é quase nula. Mas sim, eu melhorei da infecção que tive e estou tomando algumas vitaminas no momento. Minha doença ainda está em mim, meus pulmões estão podres e se o universo não for bom comigo, logo vou “bater as botas”. ㅡ Você não deveria falar assim! ㅡ Mas é a verdade, ué. ㅡ ele dá de ombros, mordendo o bolinho. ㅡ cobertura de morango? A minha favorita. Eu rio porque o cantinho de sua boca ficou sujo de rosa, mas mesmo que meu corpo queira passear o dedo ali para limpar, eu tenho a plena certeza de como isso será interpretado, por tanto, me contento em observar a sujeirinha no canto dos lábios bem desenhados. Brian me olha, e então eu lembro que, talvez, eu esteja tempo demais encarando a boca dele. Pisco, voltando a olhá-lo e sorrio sem jeito. ㅡ Mas você está em tratamento? ㅡ pergunto, voltando ao assunto. ㅡ Não estou tendo resultados nenhum com os remédios experimentais. Eu não tenho cura, você sabe, apenas tenho um pouco mais de tempo, mas não estava mudando nada ficar aqui e me submeter a isso. Tive crises de falta de ar que senti meu peito queimar e foi bom estar em um hospital, mas não quero mais isso, é doloroso e angustiante, então decidi dar um fim. ㅡ Mas... por quê? ㅡ aproximo-me mais dele, sequer percebo meu próprio desespero. ㅡ você não pode desistir assim! ㅡ Eu posso. ㅡ ele diz calmo, terminando seu bolinho. ㅡ e eu vou, Dylan... Minha única solução são pulmões novos, e a não ser que apareça um par de pulmões novinhos em folha para mim, eu não vou ficar mais suprindo esperanças à toa. Vou viver a vida até enquanto der. ㅡ Mas... Suspiro preocupado e sem um rumo para fazê-lo desistir dessa decisão tão tola! Vê-lo falar sobre si com tanta falta de esperança e com o semblante mais comum que há me dói. Ele acha mesmo que a única solução é esperar a morte? Brian fica quieto, por vezes me olha e sorri. Ele fica por um tempo assim. Um longo tempo. Um tempo comigo. ㅡ Você tem certeza disso? ㅡ pergunto, me erguendo da cama para dar a volta e sentar de frente com ele. Busco meu bolinho, dando uma mordida nervosa enquanto ele só sorri. Mas eu espero que ele realmente desista dessa loucura. Mas para o meu maior desespero tudo o que Brian faz é assentir com calma outra vez. ㅡ Absoluta. Estou indo embora hoje. Meu corpo arrepia, e meus olhos ardem. Eu quero chorar? Porquê eu quero chorar? Não! Eu não posso chorar! Na verdade, eu não deveria. Principalmente sentir tantas coisas por ele, mas eu sinto e não sei como controlar isso em mim. ㅡ Não sofra por mim. ㅡ ele pede me olhando e tomo a consciência de que talvez meus olhos estejam marejados. Suspiro, forçando um sorriso, mas me dói ouvir o que ele fala a seguir. ㅡ seja vivo ou morto, eu ficarei bem. Repouso meu bolinho comido pela metade ao lado e olho-o no mais profundo de seus olhos. EU. REALMENTE. NÃO. DEVERIA. SENTIR. TANTO! Talvez eu me odeie um pouco, mas meu coração parece ter tomado três tiros à queima roupa, ele dói como o inferno e é incapaz de que eu não sinta vir ainda mais forte a vontade de chorar. Por tanto, eu bufo, ficando também com raiva. ㅡ Eu queria não sofrer, Brian. ㅡ falo com meu tom de voz austero, mas eu não sinto raiva dele, é só da situação. Eu sei que, talvez, ele já tenha sofrido bastante e isso seja cansativo. ㅡ não queria. ㅡ repito, fungando e afastando a única lágrima que desce por meus olhos no segundo em que eu pisco. ㅡ mas eu não consigo. Eu sinto doer no fundo do coração. Me desculpe... ㅡ Eu pensei que você não fosse vir. ㅡ ele diz, rindo. Eu o olho e me sinto ainda pior porque eu vejo como os olhos bonitos dele agora estão iluminados por lágrimas também. ㅡ E eu não iria vir… ㅡ falo. E ele apenas ri mais. ㅡ É, eu sei. ㅡ Como sabe? ㅡ O doutor Bennett é legal, ele me faz fofoca de você. ㅡ Ele o quê? ㅡ perguntei incrédulo, sorrindo apenas porque ele me abriu outro sorriso bonito. ㅡ Por favor, doutor, não brigue com ele por que eu te contei isso. Era o nosso segredo. Semicerro os olhos e assinto no fim. ㅡ Tudo bem… ㅡ Sabe, quando ouvi seu nome ser dito pela enfermeira, meu coração acelerou demais. ㅡ Mesmo?! Juro, eu estou surpreso. Mas nem sei porque, Brian fala sobre coração acelerado e borboletas na barriga desde o nosso primeiro contato. Então, talvez, eu acho que meu coração acelere porque senti falta de tê-lo dizendo algo assim. ㅡ Mesmo. Eu tive que ir ver se era você mesmo. Eu te esperei, mesmo sem querer, mas eu te esperei por esses dias todos. ㅡ Me desculpe então. ㅡ Não precisa se desculpa. Mas estou feliz que esteja aqui agora, fiquei com medo de ir embora sem antes te ver. Meus olhos são incapazes de desviar dos dele. Eu vejo quando ele ergue a mão livre e leva-a até a minha para segurá-la e eu não ouso desviar. Brian segura firme e eu suspiro outra vez quando ele enrosca e entrelaça seus dedos aos meus. ㅡ Me desculpa te trazer para isso. ㅡ ele diz. ㅡ Isso? ㅡ pergunto, ainda sentindo seu toque no meu. ㅡ Minha vida... Eu agi impulsivamente em nome do meu sentimento e acabei te trazendo para esse caos. Vago meu olhar por nossos dedos juntos e sinto como se um peso esmagasse meu coração. Por que tem que ser difícil assim? ㅡ Eu... Eu sinto muito por tudo isso. ㅡ falo olhando-o. ㅡ me desculpa. Brian. ㅡ Você não precisa se desculpar, não é sua culpa eu estar doente... ㅡ Eu não me desculpei por isso. ㅡ Não? ㅡ n**o. ㅡ Então, foi porquê? ㅡ Por isso. Sem pensar demais, avancei os poucos centímetros que me separavam de sua boca e o beijei. Senti Brian ofegar e seu corpo travar. Larguei sua mão enquanto, com força, fechava meus olhos e toquei seu rosto com minhas mãos trêmulas. O gosto doce do morango era nítido, mas não tanto quanto à vontade que nos preenchia ali. Brian segurou ligeiramente as minhas bochechas, segurando-me com as suas mãos pálidas e gélidas. Sua língua se misturou à minha e somente o toque inicial nos fez ofegar juntos. Ele era afoito, tão rápido que chegava a ser desengonçado no toque. Mas era bom. Eu mantinha meus olhos fechados com força enquanto sentia meu coração ser esmagado mais e mais pela realidade. O sabor, o sentimento, a dor e o fim se misturando de uma forma tão brusca que maltratava. Porque ele tinha que morrer? Porque ele tinha que desistir? Nossos beijos de sabores poderiam deixar de existir e eu não sabia o que fazer. Eu só queria que fossem eternos. O beijo foi algo que nós não pareciamos ter preocupações reais para encerrar o beijo, mas Brian tinha suas necessidades, e, com sua falta de oxigênio, ele findou o toque com um selar enquanto respirava com força. Segurei seu rosto, acariciando suas bochechas. ㅡ Respira com calma. ㅡ pedi, vendo-o puxar mais oxigênio. A cena doía no peito. ㅡ isso… ㅡ sorri, vendo-o abrir os olhos. Nossos rostos ainda estavam perto um do outro. Brian ainda me segurava enquanto meu corpo arrepiava-se ainda mais. Minha preocupação era notória, mas não pude deixar de sorrir quando pude observar seu rosto ainda mais. ㅡ Fica bem. ㅡ pedi tão baixo que tive medo de que ele não tivesse ouvido, mas ele sorriu, fazendo-me abrir ainda mais meu sorriso ao perceber como ele é ainda mais bonito sorrindo de pertinho. ㅡ Estou bem agora. ㅡ Mas e no futuro? Fica bem no futuro, por favor. ㅡ Eu ficarei. ㅡ ele diz sorrindo e suspira ao apertar os lábios aos meus outra vez. ㅡ Estarei sem tanta dor… ㅡ Mas ainda irá doer. ㅡ falo numa tentativa falha. ㅡ e você estando longe… como será? ㅡ Não importa isso, Dylan. É assim que tem que ser. ㅡ ele fala ainda sorrindo. ㅡ eu realmente ficarei bem no fim. Mesmo morto. ㅡ Você não pode falar assim! ㅡ falo perdido outra vez, sentindo meus olhos encherem-se mais de lágrimas. ㅡ não desiste, por favor. ㅡ Dylan... ㅡ ele chama, olhando em meus olhos e descendo suas mãos até as minhas outra vez. ㅡ todos nós morreremos um dia. Estou apenas optando por não tentar mudar o que vai acontecer. É assim que o meu destino agirá. ㅡ Você ainda tem chances. Pulmões irão aparecer para você. Não se entrega a doença. Eu sei que ela está com você há anos e continuará estando, mas, por favor, fica aqui, espera um pouco mais. ㅡ Há anos estou na fila de transplantes, Dylan. Não irá aparecer pulmões. Não antes dos que eu tenho pararem. Eu sei que tenho algum tempo ainda, eu só quero aproveitá-lo. Suspiro desviando meus olhos dos dele e já não aguentando mais a dor que me sucumbe. Vejo o bolinho jogado ao lado, então o busco e encaro-o em minha mão. Brian ri baixo. Talvez ele saiba que eu quero muito chorar agora outra vez. ㅡ Estou indo embora hoje, então acho que essa é nossa última vez juntos, doutor King. Afasto-me um pouco e vejo-o fechar a mala. Volto a comer meu bolinho, e, devagar, engulo todo o restante. E quando finalizo, eu só continuou olhando-o se aprontar para partir. ㅡ Você tem aplicativo para pedir carro? ㅡ Dylan me pergunta, após um tempo em silêncio. ㅡ Uber? ㅡ questiono. Ele assente. ㅡ O meu não quer funcionar. ㅡ Ele faz bico. ㅡ já faz alguns dias… Busco meu celular, mas não tenho coragem de lhe responder realmente. ㅡ Ninguém virá te buscar? ㅡ questiono, ainda preocupado. ㅡ Não. ㅡ ele fala descendo a mala da cama, a pondo no chão. ㅡ Minha mãe está viajando no momento, ela precisou viajar a trabalho. ㅡ Só é você e ela? Sei que estou sendo invasivo quando a vida particular dele, mas realmente estou preocupado. ㅡ Sim… meu pai faleceu a alguns anos. ㅡ Você é filho único? Brian assente, o que me faz pensar o que sua mãe viveu e terá que viver por ter seu único filho com uma doença tão r**m quanto a dele. Ok, não há doenças boas, mas há as que têm cura. E a de Brian é uma das que não tem. ㅡ Ela não é uma mãe r**m, se é o que você está pensando. Arregalo meus olhos. Eu o fiz pensar isso? ㅡ Não pensei nada disso. ㅡ Você parou e ficou encarando o nada, alguma coisa você pensou… ㅡ Mas não foi nada disso, juro. ㅡ Eu já tenho vinte e nove anos, não sou criança e ela precisa mesmo trabalhar. Mas logo estará de volta. ㅡ Brian, eu juro, não estou julgando a sua mãe. ㅡ Tudo bem. Mas se quiser julgar, julgue a mim. ㅡ Porque eu te julgaria? ㅡ volto a me sentar sobre a cama e Brian faz o mesmo. ㅡ Porque ela sequer sabe que recebi “alta” ㅡ ele faz aspas porque, notoriamente, é ele quem está abandonando o tratamento. ㅡ eu não quis atormentá-la com mais isso, ela vai fazer uma porção de perguntas e eu não quero ter que dizer que eu estou frustrado e escolhendo morrer lentamente. Então irei para casa sozinho. ㅡ E quando ela retornar? ㅡ Eu olho para ela e digo: surpresa? ㅡ ele brinca. Reviro meus olhos, o que o faz rir. ㅡ ok, eu conto a verdade. Mas se eu posso contar entre hoje e depois, eu, com certeza, vou escolher depois. ㅡ Você é um bobo! ㅡ É, eu sei. ㅡ Mas você disse que vai sozinho? Não é perigoso? ㅡ Nah, acho que não. Me sinto bem de verdade. ㅡ Você tem certeza disso? ㅡ olho-o ainda preocupado. ㅡ Tenho sim, está tudo bem. ㅡ Eu posso te levar em casa. ㅡ falo. ㅡ se quiser, claro... Brian ㅡ que havia se erguido para, talvez, ir até o banheiro ㅡ para sua caminhada e me olha. Meus olhos ainda fitam-no, mas ele sorri e caminha de volta até a cama, parando a minha frente e me fazendo encará-lo ainda mais. Ergo minhas mãos e como se já se tornasse costume, ajeito seu cateter torto no nariz. ㅡ Eu posso? ㅡ pergunto, sorrindo. ㅡ Você não precisa. ㅡ ele fala. ㅡ não precisa se importar comigo assim. ㅡ Se estou oferecendo carona é porque eu me importo. ㅡ falo. ㅡ Não tem cirurgias para fazer? ㅡ ele ergue apenas uma sobrancelha. ㅡ Acabei de sair de uma de oito horas, sou humano, estou liberado para descansar um pouco. Brian rir ladino, e até pisco desnorteado quando vejo-o se aproximar mais, abaixando-se a minha frente, deixando o rosto pertinho do meu outra vez. ㅡ Está apaixonado por mim, doutor King? Porque tenho a impressão de que quer ficar mais tempo comigo. Olho-o incrédulo e trato de negar, mesmo que eu queira rir. ㅡ Claro que não. ㅡ falo desviando o olhar. A quem eu quero enganar? Brian demora alguns segundos me olhando, mas depois rir de novo. Mas no fim, ele assente buscando a mala. ㅡ Então vamos? Abro meus olhos em espanto. ㅡ Agora? Você não ia ao banheiro? ㅡ Ia, mas só para roubar o creme dental novinho que tá lá. Agora, com você aqui se importando assim comigo eu fiquei com vergonha. ㅡ Você não tem creme dental em casa? ㅡ Tenho, mas estragar é r**m. Se está aberto porque eu já usei, eles vão jogar no lixo, não é? ㅡ É, acho que sim. ㅡ Então, desperdício! Eu rio, negando. ㅡ Vai logo buscar o creme dental então! Brian parece mesmo sem jeito, mas ele realmente vai buscar o creme dental. Quando retorna, guardando-o na mala também, ele me olha e diz: ㅡ Se importa se eu passar no quarto do Dani e da diana antes? Quero me despedir. ㅡ Claro, assim eu posso tomar um banho rapidinho. Tudo bem? ㅡ Está querendo ficar cheirosinho para mim, doutor? ㅡ Deixa de besteira. ㅡ Falo afastando-me brevemente, envergonhado. ㅡ eu só preciso me limpar, só isso. E depois, eu também vou para casa. ㅡ Onde você mora? ㅡ ele pergunta. ㅡ Onde você mora? ㅡ retruco. Talvez se eu disser que moro em higienópolis, o que é apenas alguns minutos do hospital são camilo ㅡ onde estamos ㅡ, ele poderia desistir. E pior, eu não quero que ele desista. O porquê? Nem eu sei. ㅡ Moro na lapa. ㅡ Ele diz. ㅡ num prediozinho marrom e bem f**o. ㅡ e ele ri. ㅡ Na lapa? Isso é há mais de uma hora daqui! ㅡ Fica há mais de uma hora, eu sei, não precisa se importar, Dylan. Eu vou de aplicativo, não tem problema mesmo. ㅡ Não, tudo bem, é perto da minha casa também. ㅡ minto vendo-o sorrir contente. ㅡ vou só tomar um banho, tá? Você me espera lá embaixo? ㅡ Tudo bem. Vou então me despedir dos meus amigos de hospital e te espero. ㅡ Ok, até daqui a pouco então. Despedindo-me de Ferri, caminho pelos corredores do hospital com o coração ainda às pressas. Não sei sequer no que pensar quando adentro o banheiro reservado apenas aos médicos e adentro uma das cabines. Retiro minhas roupas sentindo a agonia que ainda atordoa minha cabeça, mas é quando adentro debaixo do chuveiro quente que sorrio grande. Com os olhos fechados enquanto a água lava mais um dia cansativo que tive, é Brian que aparece em meu imaginário. E ele sorri, do modo como sorriu para mim há segundos atrás, todo bonito. Muito, muito bonito. Abro meus olhos, encarando os azulejos e estapeio minha testa por estar tão bobo por ele. Estou muito ferrado!
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