Socorro

1390 Palavras
Estou escondida no armário de um possível pedófilo. Desde que eu conheci a Andie, as coisas começaram a dar muito errado. E ao mesmo tempo em que quero matar ela, quero beijar a boca dela até ela ficar sem ar e pedir mais beijo. Inferno. Do lado de fora, ouvi o padrasto de Andie remexendo nas gavetas. Será que ele estava procurando essa merda que tá na minha mão? – Olha, a Adriana não tá aqui agora. – Ele parecia falar no telefone. – Sim, eu tirei todas as fotos, eu tô procurando o rolo de filme mas não estou achando. Não posso devolver o adiantamento! – Ele berrou enquanto batia uma das gavetas. Respirei de forma profunda e vagarosa, me enfiando ainda mais fundo no guarda-roupa. Pelo que entendi, ele venderia as fotos de Andie para alguém... Minha vontade é de matar esse homem agora mesmo, mas não posso atropelar as coisas. Existem passos a serem seguidos, e eu estou apenas investigando. Atropelar as coisas seria um erro. Assim como deixar a Andie viva. Eu tenho cometido erros demais por causa dessa garota loira. Do lado de fora, Samuel - o padrasto de Andie - abria todas as portas e fuçava em tudo. Percebi que precisava de ajuda, porque ele chegaria aonde eu estava e me veria. Mandei uma mensagem para Andie. Talvez ela pudesse me ajudar. Billie: Gatinha, liga na sua casa, fazendo favor. Andie: Por quê? Billie: Faz o que eu tô pedindo! Não demorou nem dois segundos, o telefone da casa tocou no andar de baixo. Ouvi os passos de Samuel saindo do quarto e assim que o ouvi falar "alô", saí do closet e fui em direção ao antigo quarto de Andie. Era por lá que eu sairia. Mas... Estar no antigo mundo dela me deixou um pouco intrigada. Meu cérebro gritava para eu ir embora, mas alguma coisa dentro de mim me paralisou. Eu queria ficar. Queria ver o que tinha ali. Acabei me escondendo embaixo da cama dela e esperei que Samuel fosse embora. Ouvi a porta da frente bater e tive a impressão de que ele se foi. Vi o local onde havia a saída de ar. Andie disse que escondia algumas coisas ali, então tirei meu canivete do bolso e puxei a grade para fora. Uma pequena caixa e um caderno estavam ali... E quando abri, vi aquilo que ela disse que eu veria: Relatos dos abusos vividos. A pequena caixa continha alguns cartões, flores e outras coisas. Samuel não era apenas um abusador. Ele estava apaixonado por Andie, pelo teor dos cartões... E ela guardou todos. "Para minha amada Andie; Um dia, seremos apenas nós. Eu e você contra o mundo." Fiquei nervosa. A forma como ele escrevia nos cartões, me fez entender que eles estavam em um relacionamento. Eu precisava falar com a Andie... Eu precisava entender o que estava acontecendo. Arrumei o que eu tinha tirado do lugar e levei os cartões. Saí pela janela que entrei e deixei tudo fechado, sem deixar pista alguma de que alguém entrou na casa. Na manhã seguinte, cheguei na escola de mau humor. Isso porque não encontrei a p***a da Andie em nenhum canto, até finalmente a achar na aula de ciências. Ela estava com algumas manchas roxas no pescoço... Pareciam chupões. Sentada ao meu lado na aula, ela parecia triste. Seus olhos estavam inchados e ela parecia não ter dormido. – A noite foi boa, Andie? – Resmunguei. – Foi péssima. Não quero falar sobre isso. – Ela estava focada em seu caderno. Eu estava p**a. Por que eu tava p**a com o fato dela ter manchas roxas no pescoço? – Não parece. Tá parecendo que se divertiu bastante. – Toquei levemente o pescoço dela, e ela entendeu. Pegou o cabelo loiro e cobriu o pescoço. – Só consegui tirar o Samuel de casa chamando ele pra me ver. Ele me pediu um abraço e fez isso em mim. – Ela suspirou. – Feliz? – Não queria que ele fizesse isso com você. Eu consegui a prova que precisava. Ele te fotografou, não fotografou? – Ela concordou com a cabeça. – Você vai... Acabar com ele? – Eu suspirei. Abri minha mochila e tirei alguns cartões. Ela arregalou os olhos. – Você precisa me contar a história inteira, Andie. Eu não posso acabar com alguém só porque você quer. – Empurrei os cartões em direção a ela. O professor entrou na sala. Ela pegou os cartões e guardou dentro do caderno. Vi algumas lágrimas descerem pela bochecha da loira, e ela se inclinou para anotar no meu caderno os dizeres: Te encontro na minha casa as 17h. Concordei. Esperei ansiosa pelo horário. Como de costume, entrei pela janela. Andie estava com o maldito vestido florido azul, que a deixava linda. Estava sentada na cama, com uma outra caixa parecida com aquela que estava na saída de ar na casa da mãe dela. Ela respirou fundo e eu me sentei ao lado dela. – Tudo começou quando eu fiz onze anos. O Samuel tinha trinta e um anos e era um cara bem mais jovem que minha mãe, vivia malhando sem camisa em casa... Ele era bonitão, sabe? Eu olhava pra ele... – Me deitei na cama dela. Percebi que a história seria longa. – Mas eu era uma criança. Um dia, enquanto ele malhava, eu estava olhando ele pela janela e ele me viu. Chegou perto de mim e perguntou se eu achava ele bonito e eu disse que sim. Foi quando... Quando ele me tocou pela primeira vez. Ele beijou minha boca. Eu estava usando duas trancinhas, Billie... Eu era uma criança. Mas eu achei aquilo incrível! – Ah, porra... Você tava apaixonada por ele, não tava? – Ela começou a chorar. – Eu achava que sim. Sempre que ele acabava sozinho comigo, me beijava, passava a mão em mim... Eu comecei a ficar constrangida porque ele dizia que estava ansioso para eu "virar mocinha", assim poderia t*****r comigo. Mas eu já não estava mais confortável com aqueles toques... Eu disse que não queria mais. – E o que ele fez? – Ela respirou fundo e deitou ao meu lado. – Eu disse a ele que contaria para minha mãe se ele me tocasse de novo. E ele disse que mataria nós duas se eu contasse. – Vi que ela estava nervosa, então, a abracei. Ela se aninhou em meus braços na cama e eu beijei seu cabelo loiro cheiroso. – Billie, ele não me tocou por dois anos depois disso. Mas aí... Com treze, eu virei mocinha. Ele descobriu porque minha mãe contou. Ele foi no meu quarto alguns dias depois e fez o que fez. Disse que esperou muito por aquilo, e que eu devia aquilo a ele. – Eu sinto muito, Andie... – Falei. Ela se agarrou mais a mim. – Foram dois anos de abuso. Eu tive medo de contar a história toda pra minha mãe porque... Eu me sinto culpada. – Respirei fundo. – A culpa não é sua, meu amor. Você era só uma criança. – Coloquei minha mão na nuca dela e acariciei seus cabelos. Ela parecia tão confortável comigo... E eu gostava disso. – Eu sei. Mas eu o provoquei... Não provoquei? – Ninguém bom da cabeça se sente provocado por uma criança. Veja só, meu amor... Se você tivesse olhado um homem decente, ele provavelmente chegaria perto de você e falaria algo do tipo: Ei, por que você está me espiando? Isso é errado! Eu sou muito velho pra você! Vá espiar garotos da sua idade! – Ela suspirou. – Você acha? – Disse, levando o rosto para frente do meu. Os olhos verdes encontraram os meus olhos azuis. – Eu tenho certeza. A culpa de um abuso é sempre do abusador. Não da criança envolvida. – Ela respirou de forma aliviada. – Ele disse que está apaixonado por mim até hoje. Ontem ele mordeu meu pescoço e disse que me deixaria marcada como castigo por... Ter esquecido dele. Fiquei brava. Ele não tinha esse direito. – Não quero mais esse cara encostando em você. Vou resolver isso de uma vez. E, bom... – Eu inclinei meu rosto até o pescoço dela, dando um beijo na marca roxa de seu pescoço. – Isso vai desaparecer. Assim como ele. Ela sorriu.
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