6- Cobrança

1216 Palavras
Capítulo 6 Mirela narrando : Entrei no carro da Dona Sandra ainda sentindo o peso do olhar do Dom em mim. Aquele olhar que eu não tava acostumada, mas que parecia me atravessar. Dona Sandra dirigia tranquila, como se já soubesse que eu tava desconfortável. — Você tá nervosa? — Ela perguntou, sem tirar os olhos da estrada. Dei uma risada sem graça. — Não, só não esperava essa carona. Ela sorriu de leve. — Eu imaginei. Mas eu queria te conhecer melhor. Fiquei quieta. A mãe do Dom querendo saber de mim? Isso não era coisa pequena. Ela continuou. — Eu sei que sua vida não tá fácil, Mirela. Sei que você tá carregando tudo sozinha, segurando a barra pelo Marcão. Eu respeito isso, menina. Mas até quando você vai aguentar? Travei a mandíbula. Essa pergunta me pegou de jeito. Porque a resposta era simples. Eu não sabia. Eu já tava no limite fazia tempo. — Eu dou um jeito. — Respondi, mais pra mim mesma do que pra ela. Dona Sandra balançou a cabeça, como se já soubesse que eu ia falar isso. — O Dom mandou ajudar você. Mas quero que saiba que isso não precisa ser uma dívida. Ele não quer nada em troca. Franzi a testa. Isso era difícil de acreditar. No nosso mundo, ninguém dá nada de graça. — E por que ele quer me ajudar? Ela respirou fundo, depois olhou de canto pra mim, séria. — Porque ele sabe como é perder tudo e depender de ninguém. E porque ele gosta do seu irmão. Fiquei em silêncio. O carro parou num sinal. Olhei pela janela, tentando me concentrar em qualquer outra coisa que não fosse essa conversa. Mas minha mente ainda tava presa no Dom. Nunca tinha me envolvido com ninguém do crime. Sempre mantive distância de qualquer pessoa que fosse envolvido, já chega o meu irmão que sofre por causa do mundo do crime. Mas agora, sem querer, tava dentro do círculo do homem mais respeitado da Rocinha. Dona Sandra quebrou o silêncio. — E você, Mirela? O que você quer da vida? Pisquei, surpresa com a pergunta. — O que eu quero? Ela assentiu. — É, menina. Você é novinha. Vai ficar nesse aperto pra sempre? Não tem nenhum sonho? Soltei um riso amargo. — Sonho? A realidade não deixa tempo pra isso, Dona Sandra. Eu acordo cedo, faço faxina, junto o dinheiro, pago as contas e levo o que posso pro Marcão. Ela me olhou com um olhar de quem entendia mais do que falava. — Mas isso não é viver, Mirela. Isso é sobreviver. Baixei os olhos. Porque eu sabia que ela tava certa. Mas eu nunca tinha tido outra opção. Eu fui mostrando o caminho pra ela e quando o carro encostou na frente da minha casa, eu já tava cheia de coisa na cabeça. Dona Sandra desligou o motor e virou pra mim. — Você não tá sozinha, Mirela. Suspirei. — Às vezes, parece que tô. Ela segurou minha mão, num gesto cheio de firmeza. — Você tem o Marcão. Agora tem a mim também. Eu quero te ajudar . Engoli em seco. Ela abriu a bolsa, pegou um envelope e colocou no meu colo. — Isso aqui é o que o Dom mandou. Usa pro que precisar. Olhei pro envelope, depois pra ela. — Dona Sandra… — Sem discussão. Só aceita. Peguei o envelope, sem saber se tava fazendo certo ou errado. Quando saí do carro, ainda sentia o coração acelerado. — Obrigada, Dona Sandra. — Falei, segurando o envelope firme nas mãos. Ela sorriu leve, aquele sorriso de mãe, cheio de compreensão, mas também de certeza. Ela sabia que eu precisava. Sem falar mais nada, ela arrancou com o carro e sumiu na rua. Fiquei parada por alguns segundos, sentindo o peso do que tinha acabado de acontecer. Dom realmente mandou esse dinheiro pra mim? Ainda sem acreditar direito, comecei a andar até minha kitinete. Eu morava um pouco pra baixo do morro da Rocinha, numa kitinete simples. Quarto, cozinha e banheiro. Pequeno, mas era o que dava pra pagar. Subi a escada estreita, sentindo o cansaço bater. A vida era dura, mas pelo menos eu tinha um canto pra chamar de meu. Quando entrei em casa, joguei a bolsa no canto e me joguei na cama, respirando fundo. Foi aí que olhei o envelope. Peguei devagar, com um nó na garganta. Abri, já esperando encontrar algumas notas, algo pra aliviar o aperto da semana… Mas ali dentro tinham três mil reais. Três mil. Meu coração disparou. Era dinheiro demais pra mim. Eu nunca tinha visto esse valor junto, não assim, de uma vez só. Segurei as notas entre os dedos, sem saber se ficava aliviada ou assustada. O que Dom queria em troca? Porque, na minha vida, nada nunca veio fácil. Ainda segurava as notas nas mãos, tentando processar tudo, quando ouvi alguém me chamando do lado de fora. — Mirela! Ô, Mirela! — A voz grossa e impaciente ecoou pelo corredor estreito. Merda. Já sabia quem era antes mesmo de abrir a porta. Seu Cláudio. O dono da kitinete. Um velho escroto, que sempre arrumava um jeito de me olhar de um jeito que me deixava desconfortável. Levantei devagar, enfiei o envelope na bolsa e fui até a porta. Assim que abri, lá estava ele. Barriga grande, camisa aberta mostrando o peito peludo e aquele bafo de pinga que já fazia parte do pacote. Ele cruzou os braços e me olhou de cima a baixo, sem nem disfarçar. — Finalmente, né? Tava começando a achar que cê ia se esconder. Revirei os olhos. — Que foi, Seu Cláudio? Ele bufou, já impaciente. — Que foi? O aluguel, Mirela! Já tem quase um mês atrasado. Suspirei, tentando manter a calma. — Eu sei, eu sei. Tive uns problemas, mas eu vou pagar. Ele riu, cínico. — Ah, vai pagar? Quero ver. A forma como ele falou me deu um arrepio r**m. E então veio o golpe baixo. Ele se encostou no batente da porta, baixou um pouco o tom da voz e soltou: — Olha, Mirela… você sabe que a gente pode resolver isso de outro jeito, né? Na hora, meu sangue ferveu. Engoli o nojo e me mantive firme. — Resolve do jeito certo: com dinheiro. Abri a bolsa, peguei as notas e enfiei R$ 800 na mão dele. — Aqui. O aluguel. O sorriso safado sumiu na hora. Ele olhou pro dinheiro, depois pra mim, e vi a frustração no olhar dele. Achou que ia me encurralar. Achou errado. — Pronto, Seu Cláudio. Agora vê se cria vergonha nessa sua cara. Ele bufou, amassando as notas na mão, e deu um passo pra trás. — Tá bom, tá bom. Mas olha lá, hein? Mês que vem não vou ser tão bonzinho. – Não vai precisar vir me cobrar, quando estiver vencendo, eu vou te pagar – eu digo, encarando ele. – Vamos ver. Porque já vence o outro semana que vem – ele diz, sorrindo. – Agora que já recebeu, pode ir, porque eu tenho o que fazer ! Fechei a porta na cara dele antes que ele tivesse chance de falar mais alguma coisa. Encostei na madeira, soltando o ar devagar. Mais um problema resolvido. Continua .....
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