Capitulo 5
Mirela narrando :
Satisfação, eu sou a Mirella. Tenho 19 anos, sou morena clara, cabelos enrolados com luzes e os olhos verdes. Tenho um corpo bem bonito, mas nunca me cuidei, deve ser genética mesmo.
A vida nunca foi fácil, mas depois que minha mãe morreu, parece que tudo desabou de vez.
Eu sempre fui só eu, ela e o Marcão. A gente nunca teve muito, mas pelo menos tinha um ao outro. Agora… agora só sobrou meu irmão. E ele tá preso.
Faz um ano que minha mãe se foi, e todo dia eu acordo sentindo um vazio. Um buraco no peito que nada preenche. Marcão é tudo que me resta.
E eu tô aqui, fazendo o impossível pra segurar as pontas.
Acordo cedo todo dia. Não porque eu quero, mas porque não tenho escolha. Faço faxina em umas casas de bacana, limpando banheiro, esfregando chão, lavando roupa de madame que acha que eu sou invisível. Engulo a humilhação e sigo em frente.
Preciso do dinheiro.
Preciso comer.
Preciso levar o adianto pro Marcão.
Não pude terminar os estudos, pois desde os meus quatrorze an, eu já ajudava a minha mãe, trabalhando fazendo faxina. Então eu me viro com o que sei fazer.
Sem eu, meu irmão não tem nada. Aqui fora, sou eu que seguro a barra. Mas às vezes… às vezes parece que não vai dar. O aluguel tá atrasado. A conta de luz veio mais alta esse mês. O dinheiro da faxina não tá dando. Tô no meu limite.
Semana passada quase não consegui levar nada pro Marcão. Ele nem reclamou, mas eu sei que ele sentiu. Aqui fora eu passo fome, mas lá dentro, fome mata. Quando cheguei na visita, ele sorriu pra mim. Sorriso de irmão, de quem sabe que a gente só tem um ao outro.
— E aí, princesa? Cê tá bem? — Ele perguntou, tentando disfarçar a preocupação.
Balancei a cabeça, tentando parecer forte.
— Tô segurando.
Ele percebeu que eu tava mentindo, mas não insistiu. Naquela hora, me deu um aperto no peito. Porque, por mais que eu tente… não sei até quando vou conseguir segurar.
Esses dias eu tava voltando do serviço, morta de cansaço, quando a dona da casa onde eu faxinava veio com um papo torto.
— Mirela, esse mês vou precisar cortar a faxina pela metade. Vou te chamar só duas vezes.
Meu mundo desabou.
— Mas, dona Patrícia, eu dependo desse dinheiro…
Ela suspirou, como se minha vida não fosse problema dela. E não era.
— Eu sei, querida. Mas tá apertado pra todo mundo.
Pior que nem dava pra discutir. Ela tava no direito dela. Mas e eu? Como eu ia fazer agora? Tive que engolir seco e aceitar.
No outro dia, fui visitar Marcão de novo. Levei pouca coisa, só o básico. Era o que dava. Quando cheguei, ele tava diferente. Mais leve, sei lá.
Sentei na mesa e ele falou:
— O Dom mandou falar que vai mandar um dinheiro pra te fortalecer.
Parei na hora.
— O quê?
— É, Mirela. Ele falou que hoje vai falar com a mãe dele, e vai pedir pro irmão dele lá fora te ajudar. Disse que tu não precisava carregar tudo sozinha.
Minha cabeça girou. Eu não esperava isso. Dom? O Dom da Rocinha? O cara que eu sempre via de longe, com aquele olhar sério, cheio de poder, mas que nunca trocou mais que duas palavras comigo? Por quê?
Engoli em seco.
— Eu… eu não sei o que dizer, Marcão.
Ele riu.
— Só aceita, princesa. Depois eu me acerto com ele, mas pelo menos tu sai do aperto.
Fiquei quieta.
Porque, no fundo, eu sabia que nada nessa vida vem de graça. E eu não sabia se tava pronta pra pagar o preço.
A visita continuou, mas minha cabeça já tava longe. O Dom ajudando a gente? Isso não fazia sentido.
Desde que comecei a visitar o Marcão aqui dentro, eu e ele nunca trocamos mais que um “bom dia” ou um aceno de cabeça. Ele era o Dom, o dono da Rocinha, e eu… eu só era a irmã de um preso tentando sobreviver. Mas, agora, ele tinha me notado. E eu não sabia se isso era bom ou r**m.
Tentei ignorar, fingi que nada tinha mudado, mas a sensação tava ali. Um peso, um olhar queimando na minha pele. Levantei o olhar, meio sem querer, e lá estava ele, de longe, me encarando.
O olhar fixo, intenso, daquele jeito que faz a gente se perder por um segundo. Aquilo me pegou de jeito. Porque o Dom nunca tinha me olhado assim. Na real, nunca tinha me olhado.
Era estranho. Desconfortável. Mas, ao mesmo tempo, tinha algo ali que eu não conseguia ignorar.
Porque Dom não era qualquer um. Era um homem que chamava atenção sem fazer esforço.
Moreno, forte, cheio de tatuagens espalhadas pelo corpo. Tinha presença. Marra de quem não baixa a cabeça pra ninguém. Dono do morro. Homem respeitado. O tipo que não pede nada. Só toma.
E, por um segundo, me peguei pensando no que significava aquele olhar dele pra mim. Se ele tava me ajudando, ele queria algo em troca?
Me odiei por pensar assim, mas a vida já tinha me ensinado que nada vem de graça.
Fiquei quieta pelo resto da visita. Marcão ainda falava sobre outras coisas, mas minha cabeça já tava em outro lugar. Quando chegou a hora de ir embora, levantei, abracei meu irmão e prometi que voltava logo. Ele me segurou pelos ombros e me olhou sério.
— Mirela, aceita essa ajuda. Pelo menos dessa vez.
Assenti, mesmo sem saber direito o que fazer com aquilo. Fui andando até o portão, mas, antes de sair, olhei pro lado. Dom ainda me encarava.
Saí do pátio da visita ainda sentindo o olhar do Dom nas minhas costas. Aquilo me deixou inquieta.
Passei pela revista, peguei minha bolsa e segui pra saída do presídio. O sol forte batia no rosto, mas a minha cabeça tava em outro lugar.
Tentei ignorar, mas assim que pisei lá fora, fui surpreendida.
— Você é a Mirela, né?
A voz veio de uma mulher firme, madura. Olhei pro lado e dei de cara com ela.Dona Sandra, a mãe do Dom. Ela era séria, mas tinha um jeito calmo, daqueles que impõe respeito sem precisar elevar a voz.
— Sou, sim. — Respondi, ainda sem entender muito bem o que ela queria comigo. Ela me analisou por um segundo, depois perguntou:
— Você vai embora de quê?
— De ônibus.
Ela balançou a cabeça, como se já soubesse a resposta, e disparou sem dar espaço pra eu recusar:
— Não, menina. Vem, vamos comigo que eu te levo.
Fiquei surpresa. Por quê? Antes que eu pudesse perguntar, ela falou:
— Já queria falar com você mesmo, então assim a gente já vai conversando no caminho.
Segurei a alça da bolsa, meio nervosa. Não sabia o que tava acontecendo. Mas eu precisava dessa carona, assim eu economizava o dinheiro da passagem.
— Tá bom então. — Falei, tentando soar firme, mesmo com o coração acelerado.
Continua .....