4- Mais um dia

1109 Palavras
Capítulo 4 Dom narrando : Dia de visita de novo, mas hoje era diferente. Eu tava esperando minha mãe, dona Sandra, que não pisava aqui há mais de três anos. Não é que ela não se importasse, nada disso, mas eu nunca quis que ela viesse pra esse ambiente de merda. Isso aqui não é lugar pra ela, muito menos pra minha filha. Só que hoje era ela quem vinha. Não sei se era saudade ou alguma preocupação, mas hoje ela ia passar pelo portão. Quando o portão abriu, ela foi a primeira a entrar. Dona Sandra, minha rainha, toda arrumada, cabelo preso num coque, aquela roupa simples, mas que mostrava respeito. Desde que meu pai morreu, ela se converteu, virou crente. Vive pra orar e pedir a Deus proteção pros filhos dela, que infelizmente, seguiram outro caminho. A cada oração, ela tentava redimir os pecados que, na visão dela, eu e meu irmão cometíamos. Mas ela nunca deixou de me amar, de me apoiar do jeito dela. Quando ela me viu, abriu aquele sorriso de mãe que só quem tem uma pode entender. Me aproximei rápido e a abracei forte, sentindo o perfume simples e puro dela. — Tava com saudade, mãe. — Falei no ouvido dela, segurando a emoção. — Eu também, meu filho. Muito. — Ela respondeu, a voz calma e firme. Eu tava com a respiração pesada. Fazia tempo que não sentia o abraço da minha mãe, e naquele momento, eu só queria que o tempo parasse. Sentamos ali na mesa de cimento, no meio do pátio. Ela começou a abrir os potes com a comida que trouxe. Era coisa que só ela sabia que eu gostava, o tempero dela era único. Eu já sentia o cheiro de longe, e meu estômago roncava, ansioso. — Trouxe tudo que você gosta, meu filho. — Ela disse, com aquele sorriso calmo, enquanto tirava os potes da sacola. Enquanto eu olhava pros potes, do outro lado do pátio, quem eu vi? Mirela. Aquela morena que não passava despercebida por ninguém aqui dentro. Tava vindo, toda arrumada como sempre, e por um segundo, meu olhar foi direto pra ela. Meu corpo reagiu no automático, e eu disfarcei, passando a mão no p*u e voltando a atenção pra minha mãe, antes que ela percebesse. Minha mãe tava concentrada em arrumar a comida, mas começou a falar do que ela sempre falava: Karina. — Dom, eu já te falei, né? Nunca gostei dessa mulher. Desde o começo, eu te disse que ela não era mulher pra você. — Dona Sandra soltou, enquanto servia a comida. Revirei os olhos, já sabendo que esse assunto ia vir. Minha mãe nunca foi com a cara da Karina, e cada vez mais eu sentia que ela tava certa. — Eu sei, mãe… Eu sei. — Respondi, sem querer prolongar o assunto. — Mas tu sabe de alguma coisa? — Perguntei, olhando de canto, com um certo receio de ouvir algo que não queria. — Não, filho. Só o que já te falei. Aquela mulher nunca me enganou. — Ela disse, com aquela firmeza de mãe que já viu de tudo. Eu suspirei, aliviado, mas ainda com a cabeça cheia de dúvidas. Depois que a Karina parou de vir, eu já não sabia mais o que pensar. — E a Luiza, mãe? Como ela tá? — Mudei o assunto rápido, querendo saber da minha filha, a única pessoa que me mantinha são. Os olhos da minha mãe brilharam quando falei da Luiza. Era claro o quanto ela amava minha filha. — Ah, Dom, ela tá crescendo rápido demais, meu filho. Ela morre de saudade de você, sempre pergunta quando você vai sair. Outro dia, ela tava brincando com as bonecas e disse que tava montando a “casa do papai”. Ela fala tanto de você, Dom, é bonito de ver, mas ao mesmo tempo dói. Ela sente muito a sua falta. — Minha mãe falou, a voz embargada de emoção. Eu sorri, mas por dentro, o peito apertava. Sabia que tava perdendo momentos importantes com a minha filha. E a culpa era minha. Eu escolhi esse caminho, e agora pagava o preço. Enquanto ela contava mais histórias da Luiza, eu aproveitava cada detalhe. Cada sorriso, cada palavra me trazia um pouco de alívio naquele lugar sombrio. Era como se, por alguns minutos, eu tivesse fora daquele inferno, vivendo a vida que eu deveria ter vivido com a minha filha. Depois de um tempo, enquanto minha mãe ajeitava as coisas, lembrei de um assunto importante. Eu sabia que a Mirela e o Marcão tavam com a corda no pescoço, então precisava dar um jeito de ajudar. — Mãe, faz um favor pra mim? — Perguntei, mais sério agora. — Claro, meu filho. O que foi? — Fala pro Coelho mandar um dinheiro lá pra Mirela, irmã do Marcão. Eles tão na merda, precisando de ajuda. Marcão tá preso, e ela tá carregando tudo nas costas. O Coelho sabe onde achar ela. Só pede pra ele mandar um adianto pra fortalecer. Minha mãe assentiu, compreendendo a situação. — Pode deixar, eu falo com ele. Essa vida é difícil demais pra essas meninas. Tanta coisa errada… Mas, eu vou falar, Dom. Pode deixar. A conversa foi fluindo, com minha mãe contando mais coisas da vida lá fora, e eu absorvendo cada detalhe. Mesmo aqui dentro, era como se, por um instante, eu conseguisse sentir o cheiro da rua, da liberdade, mesmo que de forma distante. Quando o tempo da visita tava quase acabando, minha mãe se levantou, arrumando as coisas na sacola. Eu sabia que ela não gostava de me ver naquele ambiente, e também não queria ela vindo sempre. — Mãe, cê não precisa ficar vindo aqui, tá? Eu sei que a senhora já tem muito o que lidar lá fora. Não quero a senhora na porta de cadeia, vendo isso aqui. Eu tô bem, dá pra segurar. — Falei, tentando convencê-la. Ela sorriu, aquele sorriso de mãe que entende tudo. — Eu sei, Dom. Mas eu vou voltar, tá? Não te deixo sozinho. Sei que você é forte, mas é meu filho. Sempre vou estar por perto. Eu a abracei de novo, mais forte dessa vez, sentindo o conforto de ter minha mãe por perto, mesmo que fosse só por algumas horas. Ela se despediu, e eu fiquei ali, vendo ela sair pelo portão, sabendo que, apesar de tudo, eu ainda tinha a proteção dela. Voltei pra cela com a cabeça cheia. Quando cheguei, Marcão tava sentado no canto, pensativo, olhando pro nada. Eu sabia que ele também tinha seus demônios pra enfrentar. Continua ....
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