Pré-visualização gratuita O começo do pesadelo
(Maya)
Minhas mãos ainda estavam tremendo quando entrei na fila da imigração no aeroporto mais próximo do meu destino, na Carolina do Sul. Ainda não acreditava que finalmente tinha conseguido, eu finalmente consegui fugir. Não sem alertar Bhav e ter que vencer uma perseguição dele e dos familiares de Isaac contra mim, mas ainda assim eu o fiz. Meus cabelos estavam um pouco despenteados e a minha mente ainda estava atordoada, o desespero ainda estava estampado bem na minha cara, consegui no máximo um sono picotado por pesadelos que me fizeram despertar com pequenos sustos então devia estar com olheiras no rosto também.
Quando chegou minha vez apresentei meus documentos ao agente migratório, incluindo a reserva que fiz há alguns dias em um hotel local e a minha passagem de volta para a Índia. Eu não planejava voltar, mas sabia que não passaria da imigração sem apresentar isso. Estava demorando mais do que o normal para me liberarem, eu já ia argumentar quando meu passaporte foi entregue a um outro agente que se aproximou.
De repente dois homens uniformizados também se aproximaram de mim.
— O que está acontecendo? – Busquei o agente migratório com o olhar, o mesmo estava impassível dentro da cabine, como se esse fosse o dia mais tediante da sua vida.
— Está detida. – Um dos brutamontes de uniforme segurou meu braço, já me algemando e me carregando para longe sem nenhum tipo de educação ou gentileza. Eles me levaram abruptamente, como se eu fosse um animal ou até mesmo menos que isso.
— Por favor, me escutem, por favor?! – Eu sacudi os pés que quase não alcançavam o chão já que os agentes eram altos. Eles estavam me levando para um tipo de cadeia, o lugar era h******l e deprimente, faltava iluminação e as paredes tinham um tom agonizante de cinza mofado, tinha sujeira em todo lugar na verdade. As pessoas pararam de prestar atenção em si mesmas para me olhar. Muitas estavam com um uniforme cinza largo e esquisito. — Me digam o que está acontecendo? Isso é um m*l entendido, eu garanto que posso resolver. Está me machucando!
Gritei para um deles, fui literalmente jogada em uma cela lotada de mulheres e crianças. Pelo menos não tinham homens ali.
— Você não está na sua casa, se quer ser bem tratada volte para onde veio e nunca deveria ter saído. – Foi tudo que disseram antes de me deixarem atrás das grades, fiquei horas agarrada às barras de ferro em completo estado de choque, minha mente parecia travada, meus olhos perderam o foco e as lágrimas se acumularam embaçando minha visão.
O que tinha dado errado? Porque me trouxeram para cá? Eu tinha feito tudo certo.
Passei 14 dias infernais presa naquele lugar, minhas roupas, documentos e cobertores nunca foram devolvidos. Passei fome e frio na maior parte do tempo, desmaiei duas vezes, assisti mães passarem o mesmo junto com seus filhos. Passamos dias sem sequer poder tomar banho, seríamos todos deportados, se eu já estava m*l antes, ver a ameaça de ser levada de volta para as garras do meu pai fez meu mundo desabar de vez. Por quê isso estava acontecendo comigo? Na fila antes do embarque eu chorei desesperadamente, chorei até não ter mais lágrimas e poder pensar com frieza, eu tinha chegado até aqui e preferia morrer do que voltar para Nova Delhi.
Ao nosso redor as pessoas iam e vinham, homens engravatados em seus ternos caros e vidas ocupadas ditando ordens ao telefone, mulheres bem vestidas e equilibradas em seus saltos altos e finos digitavam ferozmente em seus tablets. Tinha uma equipe de reportagem filmando não muito longe da fila, não era o bastante para que a gente saísse na TV, mas eu tive uma idéia. Gritei o mais alto possível e fingi estar passando m*l e que precisava ir ao banheiro, eu queria fazer o aeroporto parar e consegui por alguns minutos, chorando segurei a barriga. Vi as pessoas me olhando com pena e a repórter parar de gravar sua matéria.
Um policial me arrastou pelo braço até a entrada do banheiro feminino, ele abriu a porta e me jogou com força, me fazendo cair de joelhos. Demorei a conseguir me levantar, aproveitei que já estava no chão para chorar. Meu sofrimento no meu país não tinha sido suficiente, eu tinha que ser presa, xingada e humilhada enquanto tudo que tentava fazer era ir em busca da minha liberdade.
Encarei o chão sujo do lugar, a claridade adentrava os vitrais por onde entrava ventilação natural mas não chegavam ao meu coração. Eu era só escuridão há muito tempo. Estava decidida a arrancar aqueles vitrais e me espremer até passar por eles quando uma mulher entrou no banheiro, seus saltos ecoaram enquanto ela me rodeou até parar bem na minha frente. Me senti m*l, o perfume dela era fresco como o de uma nova manhã enquanto eu estava há dias sem um único banho, o vestido de grife se moldando ao corpo fazia meu blusão e calça larga parecerem panos de chão.
Mas aí ela sorriu para mim.
— Hoje é seu dia de sorte. – Olhei para ela sem entender, se eu estivesse em meu estado normal sentiria raiva e faria com que ela engolisse aquele sorriso. Mas nada está normal, não depois de uma temporada na porta do inferno.
A morena se distraiu com o próprio reflexo no espelho, mexeu nos cabelos longos e retocou o batom enquanto eu continuei prostrada.
— O que está dizendo? – Sussurrei. Meus punhos se fecharam com força. — Está debochando de mim?
Gritei para ela, a desgraçada riu.
— Podemos resolver seu... probleminha de imigração. – Ela fala com tédio, mas ouvir isso faz meu peito arder pelo vislumbre de uma última esperança. — Basta que esteja disposta a cooperar.
Eu afirmo, afirmo fortemente com a cabeça mesmo antes dela terminar.
— Eu faço qualquer coisa. – A morena mostra um sorriso artificial, mas mesmo assim muito bonito.
Eu m*l sabia que era o começo do meu pesadelo.